Em pleno século XXI, milhares de famílias são-tomenses ainda viviam mergulhadas na escuridão, isoladas da rede elétrica nacional e dependentes de velas ou candeeiros a petróleo para iluminar as noites. Essa realidade, que durante décadas limitou a segurança, o estudo, a saúde e o desenvolvimento económico, começa a mudar com a chegada do Cinturão Solar Africano — um projeto que promete transformar vidas através da energia limpa.
A iniciativa, fruto de uma parceria entre os governos de São Tomé e Príncipe e da República Popular da China, prevê a instalação de 3.100 kits de painéis solares com baterias em localidades fora da rede da EMAE e em residências que, embora dentro da área de cobertura, nunca tiveram eletricidade.
A primeira fase já está em andamento. Técnicos nacionais, capacitados por especialistas chineses, atuam em comunidades como Praia Colónia, Praia Micondó e Boa Esperança, seguindo um critério de prioridade: atender os mais vulneráveis e aqueles que há muito tempo vivem à margem dos serviços essenciais.
O impacto vai muito além de iluminar casas. Com energia elétrica, é possível estender o horário do comércio, garantir mais segurança nas ruas, permitir que crianças estudem à noite e reduzir riscos de saúde causados pela inalação de fumos de petróleo. Para o Governo, este é também um passo estratégico rumo à redução da dependência de combustíveis fósseis, alinhando o país aos compromissos internacionais de transição energética e sustentabilidade.
“Não é a solução total para os desafios energéticos do país, mas é um avanço real e imediato”, afirmou o coordenador do projeto, sublinhando que a eletrificação rural é um pilar essencial para combater desigualdades históricas.
Em Boa Esperança, a moradora Ermelita Lopes descreve com simplicidade o antes e o depois.
“Antes, às seis da tarde, já estávamos deitados. Não havia como estudar à noite, não podíamos ver televisão e até conversar era difícil. Agora, as crianças têm tempo para fazer os trabalhos de casa e podemos viver de outra forma.”
O também morador Admilson do Rosário Fernandes traduz em poucas palavras a dimensão do momento.
“A luz não é só iluminação. É qualidade de vida, é esperança e é futuro.”
Na Colónia Açoriana, distrito de Cantagalo, a mudança foi imediata: as ruas ganharam movimento, o comércio prolongou o horário e as famílias sentem-se mais seguras. O uso de energia solar também afastou riscos de incêndio e problemas respiratórios, substituindo fontes perigosas como os candeeiros a petróleo.
A moradora conhecida como Preta não escondeu a emoção.
“A importância deste painel para a minha casa é enorme. Estou muito feliz e agradecida ao governo da China e ao governo do meu país.”
Para o representante comunitário Manuel Ramos da Trindade Narciso, a cooperação internacional está a abrir portas para mudanças duradouras.
“Não tenho palavras para expressar a minha satisfação. Esta parceria vai permitir que as famílias adquiram eletrodomésticos e melhorem o seu dia-a-dia.”
O lote de painéis solares entregue é parte de um programa de cooperação bilateral que visa promover energias renováveis e melhorar as condições de vida no país.
Em visita às comunidades beneficiadas, o ministro das Infraestruturas e Recursos Naturais, Nelson Cardoso, destacou a missão do projeto.
“A meta é chegar às localidades fora da rede da EMAE e também às famílias que, mesmo na área de cobertura, não têm acesso à eletricidade. Queremos levar luz, devolver dignidade, segurança e oportunidades aos mais necessitados.”
Para o ministro, a iniciativa é mais do que eletrificação.
“Este é um passo estratégico que alia inclusão social e sustentabilidade ambiental. Estamos a trabalhar para garantir que até as famílias mais isoladas tenham acesso a energia limpa e segura.”
Com cada painel instalado, São Tomé e Príncipe não está apenas a iluminar casas, mas a acender novas possibilidades para o futuro das suas comunidades, um futuro mais seguro, mais justo e mais sustentável.