Opinião

A Cidade de São Tomé e o seu Rio

Reza a história que o rio Agua Grande foi desviado do seu curso inicial a partir de Ponte Tavares até ao local onde desagua atualmente.

Anteriormente confluía num grande estuário, que se situava mais ou menos no local onde é hoje a Praça da Independência, transformando todo esse espaço que ia ate a igreja da Conceição, em terrenos completamente pantanosos.

Como havia a necessidade de aproveitamento desse espaço adequado para erguer o centro da cidade, construiu-se um longo canal que desviou o leito do rio, tendo o percurso e a configuração que se observa hoje, separando a cidade de São Tomé em duas margens, ligadas por 7 pontes de que abordarei ao longo deste artigo.

Não há dúvida que foi uma grande obra de engenharia, que tornou toda aquela área numa zona passível de ser urbanizada, onde foram depois construídos edifícios públicos e privados, casas comerciais, mercados, praças e pracetas, monumentos, jardins e áreas de lazer, etc.. Hoje, essa área é considerada a zona histórica da cidade capital. Nesta zona está situada a emblemática praça onde foi proclamada a 12 de julho de 1975 a independência da Republica Democrática de São Tomé e Príncipe.

Perdoem-me não poder brindar-vos com a data em que foi inaugurado o canal do rio Agua Grande bem como o engenheiro que orientou e executou essa importante obra, apesar do esforço de pesquisa que desenvolvi. Assim, peço a quem conhecer esses dados favores de partilhar connosco. Temos que reconstruir também a nossa história.

É lamentável constatar-se hoje que depois de um determinado momento após a proclamação da nossa independência, acentuou-se a degradação da cidade de São Tomé, em que aquela zona nobre também não escapou. Edifícios públicos e privados em avançado estado de degradação, outros que não são pintados a longos anos, jardins mal tratados, equipamentos de lazer e monumentos partidos, estradas esburacadas, falta de sinalização rodoviária e de informação, os balaustres e os passeios da nossa linda marginal completamente partidos e com enormes crateras devido a erosão costeira, os bancos públicos vandalizados, etc..

Por conseguinte, 45 anos depois, há que se estancar essa degradação duma vez por todas, devolvendo a nossa cidade o seu estatuto de uma das mais lindas cidades da África Central.

Neste sentido, torna-se necessário proceder-se a reabilitação, reconstrução e modernização da cidade, mantendo sempre o traço existente que me parece de muito valor estético.

Um dos equipamentos que se encontrava em estado de degradação avançados são os balaustres do canal do emblemático rio Agua Grande, bem como algumas das 7 pontes que ligam as duas margens do rio.

Confesso que cada vez que passava numa das margens do rio perto da livraria dos Padres e que via uma serie de balaustres e laje que os suportavam completamente derrubados, deixando desguarnecidos o canal do rio, causava-me arrepio porque constituía um perigo eminente para os transeuntes sobretudo os mais novos. Felizmente não aconteceu alguma desgraça. Essa situação permaneceu durante muito tempo assim, com a indiferença e a incúria de quem de direito para resolver o problema.

Numa altura em que a prioridade é quase tudo e que os recursos são cada vez mais escassos, há-que se escolher as prioridades das prioridades. Compreendo que a opção é difícil, mas é preciso começar por algum lado e ir fazendo o possível, sendo que, o pior é não fazer nada.

Por isso é que foi com satisfação que constato que o Governo de Jorge Bom Jesus logo que iniciou as suas funções começou a preocupar-se com a imagem da nossa cidade. Começou por fazer uma intervenção na nossa marginal, cujas obras estão em curso, porque realmente algumas partes dos passeios estão num estado de degradação acentuada, pondo em risco a vida dos passantes, para além da imagem horrível que transmitia sobretudo aos turistas que visitam o nosso Pais. Apesar de estar prevista a grande obra de requalificação da orla marítima, de aeroporto a Pantufo, tornava-se urgente essas pequenas intervenções.

Outra iniciativa que merece o meu aplauso, é a reabilitação dos esgotos nas zonas a volta dos mercados Municipal e Côco Côco, e a substituição do tapete das ruas com a aplicação do betão betuminoso, já na fase de conclusão. Inicialmente não foi cumprida por parte da empresa construtora das obras algumas das regras de construção civil, o que causou incómodos e muita polémica de alguns cidadãos, numa altura em que havia muitos feirantes a vender os seus produtos no chão, nas estradas e nos passeios, em condições higiénicas inadmissíveis, que não deixava indiferente qualquer pessoa que passava por lá. Se bem que achei a atitude de algumas pessoas um pouco exageradas, contudo, foi justa a reclamação.

Entretanto, rapidamente foi-se corrigindo o erro, vedando os espaços em obras, minimizando a situação. Hoje quem passar por esses locais encontrarão uma realidade completamente diferente, embora a obra não estar ainda concluída.

A transferência com sucesso das feirantes do Mercado Municipal e parte de Côco-Côco para o novo mercado de Bôbô Fôrro, foi outra ação do Governo que contribuiu muito para acabar com a desordem que se verificava nesses locais. Nesse processo, apreciei o profissionalismo dos elementos de forças de segurança com destaque para a Polícia Nacional, hoje tecnicamente mais bem preparada, com a entrada na instituição de jovens graduados.

Mas a grande obra foi mesmo a de intervenção nas pontes que ligam as duas margens do rio Agua Grande. Duas delas foram inauguradas a 12 de Julho passado, pelo Primeiro-Ministro Jorge Bom Jesus. Tratou-se efetivamente de uma intervenção de raiz devido o estado avançado de degradação dos mesmos. Houve a necessidade da demolição das mesmas e fazer novas pontes.

Na realidade foram duas grandes obras, uma delas alargou-se mais o tabuleiro para satisfazer as necessidades crescentes de circulação, devido o aumento de trafego rodoviário, obras bem executadas e que deu mais segurança, mais conforto e mais beleza a nossa cidade. Gostei muito das luzes colocadas nos pilares das pontes e espero que se coloque igualmente nas restantes pontes, quando as obras forem concluídas na totalidade.

A imponência do canal e do rio, com os seus balaustres devidamente pintados e iluminados, ladeados das árvores ali existentes nas duas margens, tornam a cidade mais atraente e confortável.

Depois da reabilitação dos edifícios e infraestruturas públicos e privadas da cidade, espero bem que se ganhe a cultura de manutenções permanentes para que nunca mais termos a nossa cidade com o aspeto que ainda tem hoje. Em relação aos edifícios privados, a Câmara deve obrigar os seus proprietários a mantê-los reparados e pintados.

Ainda em relação as pontes, não podia deixar de me referir a atitude de algumas pessoas mal-intencionadas que insistem em dizer que se tratou de uma simples reparação e por conseguinte, não têm a dignidade para serem inauguradas, numa clara tentativa de desvalorizar a obra.

Os anteriores governos não fizeram essas e outras obras na cidade e todos nós criticamos o estado de degradação do Pais e as infraestruturas em particular. E agora, as obras estão sendo realizadas a medida do possível, com todas as dificuldades e limitações que o Pais atravessa, ainda assim, algumas pessoas não se sentem bem e estão também a criticar. É caso para se perguntar: o que é que as pessoas querem afinal? Dizer que a obra não devia ser inaugurada, qual é interesse dessa crítica? O que é que isso acrescenta para resolver problemas? Para mim, o que interessa é que as obras estão sendo realizadas e só espero que todas as outras fiquem tão bem feitas como as duas novas pontes.

Parece que está na moda aqui em São Tomé e Príncipe criticar por tudo e por nada. Tudo é política agora no Pais. Há pessoas até que se atrevem a dizer que quem não critica o Governo ou tem posição coincidente a do Governo não esta a exercer a cidadania e catalogam-no logo como militante do Partido no poder, como se exercer a cidadania fosse apenas criticar governos.

Cá por mim, continuo a fazer as minhas criticas acompanhadas sempre que possível de propostas de solução, quando achar que as devo fazer e elogiar e enaltecer quando também achar que se esta a fazer coisas boas.

A política de bota a baixo, criticas com objetivos apenas para destruir não resolve os problemas do Pais. Perdemos muito tempo com essas futilidades e o Pais vai regredindo. É necessário mais tolerância, serenidade e estabilidade governativa para sairmos desse fosso em que nos encontramos há 45 anos. E isto não tem nada a ver com o unanimismo como muitas pessoas podem estar a pensar.

São Tomé, 14 de Julho de 2020

Fernando Simão

    9 comentários

9 comentários

  1. República de bananas

    19 de Julho de 2020 as 13:33

    O senhor sempre a defender o tacho de seu filho que está em Macau. Todavia deve dizer que o governo não está a fazer mais do que sua obrigação. Porém há muita corrupção na atribuição dessas obras.

  2. Augusto

    19 de Julho de 2020 as 21:51

    Gostaria de deixar uma pequena nota/correcção ao autor, não se trata de uma ponte, mas sim de um pontão. Uma ponte tem obviamente dimensões maiores.

    • Fernando Simão

      28 de Julho de 2020 as 19:29

      Sim caro leitor, obrigado pelo reparo. De facto existe uma diferença substancial entre as duas palavras. Talvez levado pelo hábito que se enraizou aqui em São Tomé e Príncipe em chamar ponte esse tipo de estrutura de todas as dimensões. Temos como exemplo o primeiro pontão que se convencionou chamar Ponte Tavares quando devia ser Pontão Tavares.
      Só hoje dei conta do seu reparo daí ter levado tanto tempo na resposta porque não tenho por hábito ler comentários aos meus artigos no Téla Non.
      Abraço

  3. Miguel A.Lopes

    20 de Julho de 2020 as 5:44

    Coraboro com a vossa forma de exprimir os seus sentimentos e a citar de concreto o que sempre esteve errado ao longo dos anos pós independência e o que de bom se tem feito no presente recente,,louvo o seu comentário no seu todo..se assim todos o fizessem,então terias uma explendosa cidade de s.tome.eu como cidadão da terra e ligado a área de construção civil e na diáspora vejo que ainda temos pessoas de boa fé para assim pensar para o engrandecimento do nosso s.tome. cordeais saudações.Miguel A.Lopes…Eng.civil.

  4. Sempre atento

    20 de Julho de 2020 as 7:02

    Deixo os meus elogios ao governo e as outras instituições de uma maneira ou de outra contribuiram para estas obras. Nem tudo é mau no nosso país, da mesma forma que olharmos e criticámos, também seria bom verificar os frutos daquilo que é bom. Espero que continuem a fazer de tudo de forma a proporcionar uma boa imagem as lindas paisagens que tem estas duas ilhas. Um bem haja.

  5. sem assunto

    20 de Julho de 2020 as 10:57

    A cidade de São Tomé precisa de entrar em “stand buy”.
    Ela está cada vez mais velha, suja, povoada, e poluída. Um plano de reeurbanização urgente, que componha a construção de uma nova metropole, despovoamento da actual, mais saneamento entre outras medidas urge.
    Remontar estradas, passeios, construir novos edifícios, ou mesmo alarga-la, constitui planos de quem enceta “fuga para frente”.
    Para o futuro ela devera ser centro turistico de referência, quiça um patrimonio da humanidade!

  6. Dálio

    20 de Julho de 2020 as 12:03

    Pois é verdade. Lí com muita atenção e concluí que, de facto devemos mudar essa nossa forma de pensar. Embora muito falta por fazer. Espero no breve momento encontrar coisa mais eficaz que garanta o verdadeiro sentido da nossa cidade.
    Dr. Dálio Henriques

  7. Ôssobô

    20 de Julho de 2020 as 12:57

    Assim é bom!
    Vamos reconstruir a nossa nação.

    • Olivio

      20 de Julho de 2020 as 16:40

      Bom trabalho do nósso governo ,vamos trabalhar e não dá confiança, o país necessita de homens com gosto e que quer tirar s.Tomé de leve leve.

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