O número de pessoas com perturbações mentais em São Tomé e Príncipe tem registado um crescimento preocupante, com especial incidência entre a população jovem. O agravamento das condições sociais, em particular, o aumento da pobreza é apontado como um dos principais fatores que contribuem para esta realidade.
“Quando há pobreza, há sempre fugas que favorecem o desenvolvimento de doenças mentais”, alerta Flávio Andrade, Psicólogo Clínico e Coordenador do Programa Nacional de Saúde Mental.
O setor de psiquiatria do Hospital Central Dr. Ayres de Menezes, único centro especializado no país, enfrenta sérias limitações de espaço e recursos. A capacidade instalada de 37 camas é frequentemente ultrapassada, obrigando à partilha de leitos e à colocação de colchões no chão.
“Chegamos a albergar cerca de 60 pacientes. É necessário improvisar, duplicando camas e adaptando o espaço como podemos”, explica Mário Sousa Pontes, responsável pelo serviço de psiquiatria.

A pressão sobre os profissionais é constante. Ediberta Jetado, estagiária de enfermagem, destaca os desafios emocionais do trabalho:
“É preciso muita paciência. Os doentes têm mudanças de humor súbitas, ora estão eufóricos, ora profundamente alegres.”
A situação agrava-se após a alta médica, quando muitos pacientes não recebem o acompanhamento familiar necessário. O estigma social permanece elevado, dificultando a reintegração e o cuidado continuado.
“Se nós, profissionais, já somos estigmatizados, imagine os doentes. Basta dizer que trabalhamos na psiquiatria para sermos rotulados de ‘loucos’”, lamenta Mário Sousa Pontes.
A criação de centros de acolhimento especializados é uma responsabilidade que o Estado deve assumir com urgência. A proposta inclui a construção de um hospital psiquiátrico de raiz, com todas as especificidades técnicas e humanas, deixando o atual espaço como enfermaria complementar.
“É imperativo avançar com um centro dedicado, que responda às necessidades reais da população”, reforça Sousa Pontes.
Por ocasião do Dia Mundial da Saúde Mental, os pacientes internados participaram numa visita guiada ao centro da cidade de São Tomé. Uma iniciativa que promove a inclusão, o bem-estar e a dignidade dos utentes.
José Bouças