Opinião

Os Meus Olhos Doem Por Manuel Alfinete — “Mé n’ Pián di Klêklê”

Doem-me os olhos.
Não é da idade, nem do sol da Ilha —  é da vista cansada de ver tanto brilho falso.
Doem-me os olhos ao ver jovens emigrantes
desfilando o sucesso como pavões motorizados,
montados em carros de alta gama,
soltando gargalhadas enevoadas de ruído e álcool.


Os motores rugem como se estivessem a libertar a pátria,
mas no fundo só libertam fumaça — e vaidade.

Doem-me os olhos,
e já agora também os ouvidos,
com tanto escape livre e tão pouca luz interior.

Vejo pressa em mostrar e preguiça em construir.


Não vejo, para meu desgosto,
o amor pelo trabalho, a dignidade da conquista,
a paciência da semente.
Vejo, sim, o brilho do consumo fácil,
o prazer da festa paga a crédito
e o sucesso medido em curtidas e selfies noturnas.

E dói-me — ah, como dói-me! — o coração,
porque esperava mais.
Esperava que os “soldados da internet”
fossem missionários do progresso,
não guerreiros do Wi-Fi.

Mas eles,
cá ou lá dos seus exílios dourados,
disparam posts como quem lança pedras,
rasgam juízos, inflamam debates
e, entre um insulto e outro,
tiram selfies com a legenda:
“A lutar pelo meu país!”

Poucos, muito poucos,
lembram-se de olhar para dentro — para o bolso da consciência,
onde não há Wi-Fi, mas há  um custo.


Dizem querer mudar o País.


Mas quando os procuro,
não os encontro onde a mudança mora:
no trabalho, no cuidado, no compromisso.

Estão ocupados demais
a mostrar o brilho das praias noturnas,
os clubes da moda
e a famosa “celeveja gelada”.

Ah, o país “está bom”, dizem —
bom para dançar, bom para rir, bom para gozar.

Mas o país não está bom.
Está como um quarto adolescente:
cheio de música alta, vazio de arrumação
e a cheirar a desleixo.

Não está bom quando o lixo se acumula,
o quintal se transforma em selva
e as ruas por onde passam as crianças
se tornam trilhos de abandono —
e, quase sempre, de fezes também.

Mas o Estado, coitado,
arqueado e remendado,
ainda dá o que pode:
escolas, professores, médicos, enfermeiros,
estradas que são mais promessa do que pavimento,
e água que chega — quando chega — de muletas.

Mesmo assim, há quem reclame da luz:
porque se paga caro, porque o contrato é mau,
porque se quer o conforto, mas não o custo.

Queremos luz, mas não queremos pagar.

É o velho dilema nacional:
ser como o mucluclu —
se a cueca é apertada, dói;
se é larga, também dói, porque balança por entre as pernas.
Parece metáfora, mas é diagnóstico.

O país não está bom — e todos o sabemos.

Mas quem já pensou o país como pensa a própria casa?
Quem já varreu o chão nacional
com a mesma devoção com que varre o quintal
antes da visita da sogra?

Quem já pensou no custo das portas, janelas e paredes bem erguidas?

Quem, em vez de criticar o teto do Estado, já ofereceu um tijolo?
Pensaram nisso os soldados da internet?
Talvez não, porque vivem longe ou alheados,
e sonham com um país que já não conhecem —um país de infância sonhada, agora servido em memes e lives.

Ignoram que os países onde hoje vivem
ergueram-se com suor, impostos e gente que trabalha —
não com posts e lives.

Sim, o país precisa mudar.
Mas a mudança não virá de hashtags
nem de discursos em live.

Virá quando os soldados forem soldados de verdade:
os do exemplo, os da enxada, da vassoura,
do quadro da escola, do balcão do hospital.
Quando, em vez de apontar o dedo, estenderem a mão.
Quando, em vez de filmar a miséria, ajudarem a limpá-la.

Mas não.

Quando regressam, depois de anos,
chegam em carros de teto panorâmico,
rodando sobre buracos como se fossem medalhas de guerra.
Filmam o pior, fotografam o feio, publicam o abandono
e, como todo bom influencer da tragédia, ainda põem filtro.
Esquecem que a miséria que mostram
é o espelho do que deixaram de fazer —
e do que não quiseram pagar.

Os soldados — todos nós —
precisamos meter a mão no bolso da consciência
e perguntar:

O que já dei, de verdade, ao país que digo amar?

Quanto do meu conforto, do meu tempo, do meu suor
já virou semente no chão onde nasci?
No dia em que essa pergunta encontrar resposta,
seremos muitos — soldados do desenvolvimento,
soldados da esperança, soldados do futuro.
E nesse dia, sim, o país mudará.

Uma reflexão de Mé n’ Pián Klêklê

Quando o país mudar — porque há de mudar —
talvez possamos, enfim, trocar a indignação pelo riso.
Talvez o emigrante chegue à Ilha
sem precisar de se mostrar em carro de luxo,
carregando o exemplo
como uma planta que germinará num sorriso sem IVA.
Talvez os “soldados da internet”
abram cooperativas de memes produtivos.
E, quem sabe, inventemos um novo feriado:
Dia da Morte da Dor do Mucluclu —
quando a cueca que tanto apertou e tanto balançou
fez o povo aprender que “país bom”
é como roupa interior boa:
limpa, firme, confortável…
e, sobretudo, vestida em corpo por nós lavado.

Manuel Alfinete — Mé n’ Pián di Klêklê
4 de novembro de 2025

2 Comments

2 Comments

  1. ANCA

    4 de Novembro de 2025 at 14:07

    Muito bem

    Juntando a falta de rigor, disciplina, organização,… falta de cultura do trabalho, parafraseando de cultura, pois nada sabem de onde pertence, nem para onde caminham, a falta de liderança a muito,…quer na primeira instituição do país,( a Família), seu reflexo nas instituição no estado, na comunidade, na nossa sociedade.

    Pratiquemos o bem

    Pois o bem

    Fica-nos bem

    Ama a tua terra, ama a tua gente, a tua cultura, a tua gastronomia

    Ajuda a desenvolver o teu país o teu território( terra, mar, rios, espaço aerodinâmico, a população, a administração).
    Trabalha, estuda, investiga, inventa, cria empresas

    Protege ama a tua família, os teus filhos, a tua esposa, o teu marido.

  2. J.costa

    4 de Novembro de 2025 at 15:09

    Grande reflexão poética, Genito.

    Apreciei!

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