A Ilha do Príncipe, reconhecida há mais de uma década como Reserva Mundial da Biosfera, tem procurado conciliar a proteção ambiental com o bem-estar das suas comunidades. No entanto, a recente decisão da empresa HBD de comercializar areia importada ao preço de 4.300 dobras por metro cúbico trouxe sérias preocupações e impactos diretos sobre a população.
Apesar de ser apresentada como uma alternativa sustentável à extração local, esta medida não teve em consideração a realidade socioeconómica da população do Príncipe. O preço estabelecido é manifestamente incompatível com aproximadamente o rendimento médio das famílias, ultrapassando inclusive o valor de um salário mínimo nacional. Assim, a iniciativa inviabiliza obras essenciais de construção e reabilitação de habitações, agravando as dificuldades já enfrentadas por muitos agregados familiares.
Enquanto a proteção ambiental é um objetivo que todos reconhecemos como prioritário, a solução apresentada transfere o peso das medidas conservacionistas exclusivamente para a população, ignorando os impactos sociais e económicos resultantes desta alteração brusca do mercado de materiais de construção.
Diante deste cenário, exigimos a intervenção urgente do Governo Regional do Príncipe, a quem compete zelar pelo equilíbrio entre conservação ambiental e melhores condicoes de vida para a populacao. Solicitamos:
- A revisão imediata da política de comercialização de areia, garantindo preços acessíveis e justos para a população.
- A abertura de um processo de diálogo transparente entre Governo Regional, comunidades locais e a empresa HBD, de modo a encontrar alternativas equilibradas e sustentáveis.
- A avaliação de soluções reguladas de extração local, que preservem o meio ambiente sem comprometer a sobrevivência económica das famílias.
- A adoção de medidas de proteção social, caso se mantenham restrições à extração local, evitando consequências negativas sobre as condições de habitação.
A população do Príncipe reafirma o seu compromisso com a conservação da ilha, mas não pode aceitar medidas que, em nome da sustentabilidade, comprometam a dignidade e a segurança social das nossas comunidades.
Esperamos ações concretas e imediatas, em defesa do interesse coletivo e do futuro equilibrado da nossa ilha.
Bruno Cassandra
Alekssander GOMES MENDONCA
15 de Dezembro de 2025 at 10:59
Caro Bruno,
Antes de mais, quero felicitar-te pela coragem, clareza e sentido de responsabilidade cívica demonstrados neste artigo. Num momento em que o espaço para a crítica construtiva parece cada vez mais condicionado pela censura silenciosa e pelo medo, a tua ousadia é não apenas necessária, mas profundamente patriótica.
A situação da venda de areia no Príncipe é, como bem referes, um autêntico desajuste entre o imaginário e o real. Não existe qualquer indicador económico ou social que permita justificar a compra ou venda de um material básico de construção a um valor duas vezes superior ao salário mínimo nacional. Isto não é sustentabilidade; é exclusão social disfarçada de política ambiental.
Proteger o ambiente é um dever coletivo, mas não pode ser feito à custa da dignidade, da habitação e da sobrevivência económica das famílias. Quando as soluções não dialogam com a realidade local, deixam de ser soluções e passam a ser problemas acrescidos.
Mais uma vez, parabéns pela ousadia e pela forma responsável como colocaste esta questão no espaço público. Que este alerta desperte a consciência da população e, sobretudo, dos que nos governam, para que se coloque cobro a este desequilíbrio e se encontrem soluções aceitáveis, justas e compatíveis com a nossa realidade.
O Príncipe merece políticas que cuidem da sua natureza e das suas pessoas.
Um abraço solidário.
Abucas Costa
4 de Janeiro de 2026 at 22:06
Bruno Cassandra: Se o preço é assim tão elevado porque não te dedicas tu ao negócio de a vender mais barata ? Terias certamente muitos clientes.