Suplemento

A longa batalha do luto físico de Wiston Rodrigues

A vida! Do conceito religioso ao científico, muito menos literário, não se perde em ilusões nem escape de responsabilidade quando a preciosidade única é executada no segredo dos Deuses, pior na plateia comum e de marca hedionda que lhe impera a dimensão criminal de julgamento, condenação e sentença pública.

Mas a História não se hospeda no presente sem que venha da maré turbulenta do passado para embaraçar a expedição do futuro. Daí que Jacques Soustelle, o etnólogo, escritor, professor e homem político francês em contra corrente, num dos seus livros, a “Carta Aberta às Vítimas de Descolonização”, 1973, escreveu textualmente o seguinte: “O Conselho Ecuménico das Igrejas não deixou, desde a sua Assembleia de Upsala (1968), de financiar diversas organizações terroristas, especialmente o P.A.I.G.C., o M.P.L.A. e a FRELIMO.

Em 3 de Julho de 1970, o Papa (Paulo VI), recebeu, com efeito, oficialmente, Amílcar Cabral, Agostinho Neto e Marcelino dos Santos, triunvirato sangrento do terrorismo antiportuguês.”

Confortados na gestão doméstica em que enjaula a multidão digital armada de explosivos, não é, aparentemente, de lógica apetecível a convivência de munições ao alvo quase numa espécie de auto-flagelo testarem ao consciente flutuante para lá das insignificantes ilhas ao meio do mundo. Todavia, há uma questão persistente da qual ninguém ousou retirar do abrigo reportando aos leitores a amostra oficial. Afinal! De que lado testemunha a verdade do fatídico domingo, dia 24 de Maio?

O fado dos pesadelos de Seixal com dois homens baleados, um mortalmente e o outro ferido de forma bárbara e um terceiro ferido grave devido as rixas de ajuste de contas entre os “delinquentes” do tráfico de drogas, segundo os despachos da Record TV e do jornal português Correio da Manhã.

A “rumba” do terror e em público de pai baleado e espancado, filho morto ao tiro e sobrinho ferido gravemente na Grande Lisboa e pelas famílias ciganas, portuguesas, o testemunho do pesadelo familiar são-tomense.

No voluntarismo de oferecer o “peito às balas” – quarentena solitária e incómoda – que abateram mortalmente o jovem africano e de jeito atrevido apavorar, não só, o fantasma racial, mas “gingar gravata”, é supostamente atípico e ir longínquo num pé de “rumba” são-tomense em que possa acomodar a tertúlia do fado.

A imprensa mesmo nos conceituados estados de Direito Democrático pode consistir no poder com os tentáculos de um bloco capaz de distorcer a realidade, anular do mapa forense um crime bárbaro e jogar “ao Deus dará” as crianças que um chefe de família pudesse ajuizar um futuro risonho? Faz alguma descrença de que a vida humana deveria contar e jamais levantar qualquer distúrbio étnico de cravos ou ervas daninhas portuguesas em redor de um assassinato?

O Joel Rodrigues vai ajeitando o nariz para escapar-se da cirurgia. O tio, António Rodrigues, para o alívio emocional, três semanas passadas de baleado e espancado, foi liberto da Unidade dos Cuidados Intensivos do hospital de Almada. Hospitalizado e com uma nova cirurgia em vista, não lhe despistarão sequelas com a perca de um dos olhos da cegueira do povo constar de ato clínico consumado. Não menos dolorido, a consciência paterna reabilitada pela dedicada e distinguida medicina portuguesa correu logo a saber da ausência do primogénito da videoconferência inaugural. Deverá presenciar ao enterro do seu filho?

Ninguém vislumbrou a outra face da moeda a lamentar e condenar em que as armas nas mãos negras atirassem ao sangue frio e ao público contra as famílias ciganas, muitas ainda nómadas, negociantes e de cadastro não recomendável. Tudo menos boa gente, uns cidadãos à margem da sociedade e protegidos pelo Estado, segundo o barómetro de medição da temperatura social e sentimental dos portugueses.

Ainda assim e num contraste harmonioso de cores, como é montra a oferta linguística “preto no branco”, apesar da denúncia em que tento concentrar as dores e o luto oriundos de famílias são-tomenses baleadas, espancadas e feridas de intenção bárbara, no Seixal, com uma vítima mortal, ou simplesmente, um jovem alfaiate, pai de 35 anos de idade brutalmente assassinado e deixado os filhos “ao Deus dará”, invento o tempo ao tempo do preço de ouro. Cruzo-me em maratona ao redor de petiscos e pratos da imprensa de Portugal e África para saciar-me a fome diária.
Do dia 13 de Junho, Dia de Santo António, o padroeiro de Lisboa – não engulo a sardinha assada – despertou-me o anúncio vindo de um conceituado e secular jornal português, o “Pastor evangélico transforma a igreja em bar em protesto contra as medidas de restrição do covid”.

Cortês em não assanhar os dedos das duas mãos e sem dar bolas ao esforço jornalístico dos meus mestres de narrar tudo apenas no tópico de quase vinte palavras, em síntese, o convite desembocava os leitores numa viagem ao outro lado do Atlântico Sul. Enganem-se os que de estafeta e pela vulnerabilidade da guerra de Covid 19 venham a correr com o panfleto de contágio pandémico e confinamento económico do Brasil nas “bagunças virais” do presidente Messias Bolsonaro. Nem de longe o desespero vizinho de “Covid-19. Milhares receberam vacina veterinária promovida por grupo evangélico peruano”. Nada disto.

O pastor evangélico usando da arma disponível transformou a sua igreja num bar, onde os pastores vestidos de empregados e através de bandejas serviram aos fieis sentados à roda das mesas uma especialidade exótica e longínqua de sabores da opinião pública. A Bíblia Sagrada. Vejam só!?

A reivindicação na terra de Lionel Messi era o simbolismo contra a abertura de espaços públicos dentre os centros comerciais e bares, excluindo as igrejas argentinas dos passos leve-leve das contínuas e apertadas medidas e barreiras sanitárias.

Na reaparição ganha, graças à reabilitação outorgada pela Covid 19, por questões de relevo pessoal, falhei com a democracia e o pensamento livre sem imaginar de uma vida juvenil são-tomense semanas depois, vir a ser assassinada por brutalidade racial.

Naquela rubrica rasurei a sentença que havia decretado ao ministro da Saúde, Edgar Neves, médico por excelência, pela deselegância em comunicação de vir ao público usurpar dos quatro casos positivos, os primeiros, supervisionados pela OMS e anteriormente notificados à Nação pelo Primeiro-Ministro.

Um despiste para a crise diplomática, caso o vírus pandémico não deixasse a ziguezaguear os neurónios dos dirigentes mundiais e, em particular os das ilhas, estes na compra de outra guerra desnecessária para com a sua diáspora. O Primeiro-Ministro no ato de condecoração de duas especialistas no campo de Saúde – obrigado manas – ao invés de piscar os olhos aos milhares ausentes, preferiu descer à Féla Ma Lungua, ao ponto de aventar de que Bakysse Pina e Jessica Veiga “estando em Portugal não hesitaram (…) sem ninguém vos rogar, sem estarem no facebook só a criticar, decidiram vir e fizeram muito bem e contribuíram”. Oh! Não.

Doutor Bom Jesus! É um direito que assiste aos cidadãos usarem a arma democrática das redes sociais, desde que não pisem a baliza criminal, permitindo os discípulos de lados opostos esgrimirem-se em batalhas. Excelência! Do assassinato de um filho da diáspora, qual das duas versões retira as autoridades da república, incluindo a Corte Suprema, do longo confinamento espiritual?

A profecia de defesa jurídica e familiar dos Rodrigues por pressão nenhuma baixará a guarda para que em nome dos não abençoados, a arma da justiça vedada nos olhos femininos seja exercida ao bem do Estado de Direito. Mobilizados por uma causa justa e de Direitos Humanos, os familiares venham retribuir e soltar em euforia são-tomense. Obrigado Portugal!

Entretanto, por estes dias e pelo embaraço do presente, a Escravatura como o crime contra a Humanidade também escreve-se e, não só, com as alianças e os rostos de todas as espécies pela fúria universal por George Floyd e o consequente derrube dos monumentos e das estátuas raciais de colonização pelos grandes centros da civilização democrática. Em São Tomé e Príncipe, os ventos da revolução de Abril, em 1974, já haviam adiantados aos passos da memória histórica danificando os monumentos dos “homens brancos” portugueses sem qualquer distinção entre santos e pecadores.

Na eloquente coabitação e reconciliação humana, passou a tempestade nacionalista e ainda nos ajustes da Primeira República, a emoção revolucionária ficou pelo alcatrão, as estátuas foram em pé restauradas e compõe o simbolismo colonial do museu da História da minha terra.

A incerteza não é demora agradável pelos trinta dias de um familiar enlutado – não frequentador dos jornais “on line” – vir lacrimejar-me a indignação perante a ausência de uma linha de condolências, consolo ou solidariedade são-tomense na tamanha desgraça que lhes retirou a vida de alguém tão “jovem e boa”, não obstante a oportunidade cimeira e oferecida pelo digital Tela Non.

Ao retirar-me as palavras da boca, um amigo e marinheiro literário, o Bernardo Fernandes, convidou-me a viajar no mar digital ao bordo de “Tuberculose mata Costa Alegre” aonde fui dar com um navegante a prestar as sentidas condolências aos familiares do malogrado e distinguido estudante de medicina, perecido em Portugal e na casa de vinte e seis anos de idade.

Curvei-me à originalidade do leitor, uma atitude fora de moda nos noticiários fúnebres dos jornais digitais. O défice sentimental não é um expediente agregado aos são-tomenses, portugueses e africanos que não se apressaram a abraçar a dor dos familiares de Wiston e apresentar-lhes as condolências pelo luto.

É global, ao ponto de alguns navegantes caírem no ridículo do uso da máscara “anonimal” concorrerem-se no desfile do exército com as metralhadoras a fuzilar o próprio defunto numa espécie de ajuste de contas extemporâneas e praguejadas ao diabo.

Um mês passado da violência de Seixal, um ato desproporcional e com o saldo de uma vítima mortal, Wiston Rodrigues, as famílias, os familiares e amigos, sem explicação plausível, aguardam com a ansiedade que a prateleira frigorífica lhes devolva o corpo ao descanso eterno e fecho físico do luto.

24.06.2020

José Maria Cardoso

    4 comentários

4 comentários

  1. Danilo Salvaterra

    27 de Junho de 2020 as 6:58

    Registado, os apontamentos presentes na excelente retórica. Aguardemos e exijam os a celeridade da justiça, mesmo consciente que ela não devolverá a vida perdida.

  2. José Pereira

    27 de Junho de 2020 as 16:47

    Que confusão…. 😳!

  3. Manuel Bernardo Fernandes

    27 de Junho de 2020 as 19:22

    Lamentavelmente não houve um repúdio público por parte da representação diplomática sobre o assassinato do jovem Whiston Rodrigues.

  4. Cléria Viegas

    28 de Junho de 2020 as 11:26

    O caso do jovem Wiston Rodrigues nao pode cair no esquecimento. Esperemos que a justiça seja feita.

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