Opinião

A maldição da impunidade

As primeiras e chocantes imagens que me foram chegando desde São Tomé e Príncipe, sem interferências e manipulações de qualquer fundamentalismo, naquele amanhecer nublado, doloroso e temível, de vandalismo e profanação de um cadáver, trouxeram consigo duas questões que nos assaltam o quotidiano:

Aonde andará a verdadeira dor dos são-tomenses de respeito aos mortos, exteriorizada no nosso quidalê ô?

Qual a actividade profissional da força motora do país disponível àquela hora de trabalho para a espontaneidade da manifestação?

Muito mais apelativa a segunda questão, o governo através do seu comunicado socorreu-me: «Felizmente as forças de polícia e de segurança, actuaram com a devida responsabilidade e paciência para que não conduzisse a mais danos, como era certamente a intenção de alguns (bués desempregados e oposição) espíritos mal-intencionados, não havendo a registar posteriormente qualquer ferido ou morto», contrariamente ao que se espalhou pelas redes sociais.

Numa das frases postadas aos meus concubinos naquela manhã de inquietação moral enquanto a cidade de São Tomé ainda encontrava-se incendiada pelas balas militares e policiais, aconselhando eu ao meu interlocutor em linha a abrigar-se na WC, se disponível a rede da CST – garantiu-me estar seguro num dos gabinetes do Estado fronteiriço aos disparos – alertava-lhes, custe o que custar na hora de dor e pêsame, a fazermos em conjunto a aritmética do nosso paraíso tendo chegado ao resultado final.

Impunidade geral + manifestação espontânea (populismo) = caos

Numa altura em que um jovem de 36 anos, pai de nove órfãos a Deus dará e chefe de família foi vitimado mortalmente, no amanhecer da passada sexta-feira, supostamente por bala disparada pelos militares de defesa e protecção da orla marítima que na sua ronda interpelaram o cidadão em causa mais um colega (dois colegas, declaração do Estado Maior) que se puseram em fuga na viatura, táxi, por mais que choque toda uma Nação a morte impiedosa (kéi! Tirar vida de um triste e pobre pecador por causa de areia pa defender família!?), ninguém estará isento em trazer uma ousadia antiga. Porquê enterrar o morto e não cuidar dos vivos?

O sacrifício em público da vida do morto – os são-tomenses crêem na vida protectora após a morte – pelas artérias da capital (palácio presidencial, ministério da defesa, ministério dos negócios estrangeiros e tribunal?), inicialmente, fora um acto desesperante de busca da justiça, caso não queiramos acordar sentimento de saudades pela notada ausência de Levy Nazaré, actual Vice da casa parlamentar com simpático microfone de tornado tropical a liderar manifestações espontâneas que, por inerência de alta função, não pôde liderar a espontânea das espontâneas.

Tão ilustrativa a fresca mente dos festejos da destituição do chefe militar pelo governo devido as imagens correctivas a um assaltante de dinheiro e arma do exército, saído com vida, a justiça exigida na última sexta-feira nada mais pretendia que voltar a responsabilizar os militares pelo acto correctivo em que infelizmente o desenrasca, desta vez, perdeu a preciosa vida nascida e crescida na dura luta de Lemos-Trindade.

Motivação política, sim senhor! Ai não!? Mais para lá da fatídica morte somos bombardeados com cumplicidade das denúncias paralelas de casos de corrupção também pa defender família, luxo, quintas, palacetes, venchas, arrogância, viagens e pisar aos outros que morrem por ai em qualquer das nossas lindíssimas praias sem qualquer processo de condenação judicial.

A mais recente novidade é do embrionário governo ter comprado ao sócio do chefe do executivo um prédio para os agentes de justiça já beneficiados de carros novos, edifício anteriormente as moscas na praça comercial na ordem de 800 000 USD para a subfacturação de 2 500 000 USD a associar mais 500 000 USD de reabilitação e adaptação ao futuro uso da justiça.

A confirmar documentalmente o descalabro nas contas do tesouro público – sem dinheiro – para dar fachada a justiça que, não há muito tempo, andou de cabeça perdida a caça do santo empreendedor, este no estrangeiro a praguejar a sua defesa na praça mundial e até no TPI, torna-se apenas em mais um caso de impunidade da república em que o governo não está preocupado em dar qualquer explicação porque a oposição apenas pretende com falacias tirar o líder partidário no poder do caminho das presidenciais de 2016.

Não acredito que estamos todos cacharambados e que tão cedo alguns espíritos mal-intencionados, fieis servidores recentes dos discursos de boa-vida da varinha mágica venham sublevar o país com caos, caos e caos, a lastimosa expressão na crença popular das balas que saem da boca de sal e malagueta servirem de feitiço contra o próprio feiticeiro.

Não me peçam a olhar ao espelho meu, nem tão pouco cruzar os braços, gêmê só, ver o caixão do defunto a devolvê-lo tão jovem ao barro da Trindade e bater as palmas ao depoimento de Patrice Trovoada «De “todos mentirosos”, os políticos (são-tomenses) passaram para “todos ladrões”» sem qualquer indignação de solidariedade ao povo pequeno esfolado na parada militar ou morto pela suposta bala militar quando a pretensão da criatura era beneficiar da impunidade para não ser pestu a ver passar a banda engravatada.

Gêmê só e praguejar a oposição ou ao poder, consoante as épocas, já não são suficientes para uma nova noção de convivência democrática dos são-tomenses ávidos de justiça social e desenvolvimento nacional.

Em dois dedos de conversa, não fiquei indiferente em lamentar a morte, censurar a profecia e desdenhar a deriva em que navega os são-tomenses a exigir o sentar de toda gen a volta da mesa triangular, poder-sociedade civil-oposição, culpabilizar, sensibilizar, responsabilizar e reflectir o nosso orgulho posto a prova de palavrões, balas, armas brancas, muros, roubos, corrupção e drogas num desmoronar da nossa arquitectura social.

Pesar aos familiares. Que a alma de Nino de Encarnação Gentil «Juju» descanse em Paz!

José Maria Cardoso

10.06.2015

 

    3 comentários

3 comentários

  1. Teresa

    12 de Junho de 2015 as 4:15

    A parte mais bonita? O senhor a protestar com camisola do ADI.

    • D´Alva Teixeira

      12 de Junho de 2015 as 10:48

      Ainda vão dizer que é perseguição, o pais ficou num “Descontentamento Conformado” que não se entende…

  2. ito

    13 de Junho de 2015 as 18:21

    Há momentos em que é necessário lutar contra as coisas que se tornaram tão erradas que deveriam deixar de existir. Coisas que antes eram pequenas e que se tornaram grandes, mas que não deixaram de ser erradas, devem voltar a ser pequenas de novo; abaixo a impunidade generalizada.

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