Opinião

O rosto do outro como expressão da dignidade do homem  

Atualmente a humanidade vive uma viragem, no que toca às grandes crises migratórias.  Diariamente, os meios de comunicação social vão transmitindo imagens de vários rostos de refugiados africanos, árabes e asiáticos, indo para a Europa ou para outros cantos do mundo. Muitos destes refugiados fogem do seu país natal por causa de guerras, ou porque pretendem alcançar melhores condições de vida, o que nem sempre é possível.

Diante desta crise migratória, vemos um mundo que se apresenta indiferente a tantas vidas, a tantos rostos que se vão perdendo ao longo da história da humanidade. “Hoje, tudo entra no jogo da competitividade e da lei do mais forte, onde o poderoso engole o mais fraco.”[1]

Esta tolerância ou aceitação crescente em relação às injustiças e às desigualdades, a nível mundial, faz-se acompanhar de uma aceitação também crescente das injustiças e das desigualdades nos nossos próprios países; e a marginalização e a xenofobia são duas das suas manifestações principais.  Toda esta indiferença passa-se na “soma de muitos individualismos e egocentrismos sobrepostos, tanto à escala dos indivíduos como das nações.”[2]

Desta forma, procuraremos falar do rosto humano, não no seu sentido estético ou psicológico, mas enquanto marcado pelos traços do sofrimento e da indigência. Numa outra linguagem, o rosto introduz-nos no sofrimento do outro, na humilhação e na violência sofridas pelas crianças, mulheres e homens, devido à fome, à pobreza, ao frio. Ora, voltar as costas à exigência e às necessidades dos mais pobres, desviar o olhar dos sofrimentos que os migrantes suportam devido à guerra, à pobreza de massa e das ditaduras, é acreditar que se pode edificar uma parede estanque e inultrapassável entre o mundo deles e o nosso. “Aceitar que há populações sacrificadas de antemão é sacrificar-nos a nós mesmos, condenarmo-nos à desordem, à insegurança e ao caos engendrado por um mundo onde os ricos muito ricos se barricarão, em vão, para se proteger dos pobres muito pobres.”[3] É preciso ouvirmos o grito silencioso dos que são vítimas, da guerra, da fome e da exploração.

Que esperanças podemos dar aos mais pobres e aos migrantes, quando as próprias sociedades desenvolvidas não são capazes de lhes oferecer a perspetiva de um futuro melhor?

Esta problemática de indiferença para com o outro e para com as crises migratórias é “resolúvel pela descrição positiva do rosto”[4], que acontece a partir do momento em que nós reconhecemos no rosto do outro a sua dignidade. O rosto impõe respeito, impõe dignidade e responsabilidade. Esta mesma responsabilidade está para lá do que cada um de nós faz na prática do dia-a-dia.

Diz Emmanuel Lévinas que “o rosto é uma presença viva, é expressão. O rosto fala. A manifestação do rosto é já discurso”[5]. O rosto é a epifania do outro para o mesmo: “(…) é no rosto do outro, onde se dá a sua epifania para cada um de nós, (…)”[6]ou seja, a verdadeira essência do homem aparenta-se no rosto.  No encontro ou na relação com o rosto do outro, somos interpelados a agir no sentido do bem-comum.

Dito de outra forma, “o rosto do outro pede-nos e ordena-nos”[7], de modo que sejamos responsáveis por outrem sem esperar reciprocidade. A nossa responsabilidade é de um empenhamento total, ou seja, “(…) temos sempre uma responsabilidade a mais do que todos os outros”[8], de forma que ela não cessa.

Desta forma, Lévinas, na sua obra Ética e infinito, cita Dostoievski: “Somos todos culpados de tudo e de todos perante todos, e nós mais do que os outros”[9], de maneira que somos responsáveis até pela responsabilidade de outrem.

Portanto, o desafio importante para a humanidade hoje é reconhecer e mostrar que a solução para enfrentar as crises migratórias e outras crises que vão assolando a nosso mundo, é o compromisso com os outros e com a vida humana, porque o modo de nos relacionarmos com os outros é uma boa cura para os problemas do nosso tempo.

 

 

 

[1] Papa Francisco A Alegria do Evangelho, capítulo I, 43.

[2] S, Brune, Os que vão morrer de fome, pág.202.

[3] Ibidem,204.

[4] E, Lévinas, Ética e Infinito, pág. 88.

[5] Ibidem, 54.

[6] Ibidem, 188.

[7]Ibidem, 89.

[8] Ibidem, 91.

[9] Ibidem 93.

    7 comentários

7 comentários

  1. Carlito

    21 de Março de 2018 as 15:37

    O artigo está muito bom. Fizes te uma boa reflexão sobre o grande problema do século XXI.

  2. Hyley Nascimento

    21 de Março de 2018 as 16:02

    Bom texto, meu caro.
    De facto, o rosto é o espelho da nossa alma.
    Através dele revemos-nos no outro.
    Oxála, essa epifania nos responsabilize e co-responsabilize uns com os outros.

  3. Daniel

    21 de Março de 2018 as 17:51

    O texto é pertinente, e provocatório. Gosto da tua escrita.

  4. Sergio

    22 de Março de 2018 as 7:00

    As coisas só vão mudar quando nos tomarmos consciência de que outro é o nosso semelhante. Como você diz a solução é o compromisso com outro e com a vida humana .O texto é pertinente.

  5. Edmilson Filho de Deus

    22 de Março de 2018 as 10:15

    Realmente é meu caro, agora os mais preveligiados gozam dos mais desfavorecidos,

  6. Walkdir

    22 de Março de 2018 as 23:15

    Muito bem meu caro ! MEUS PARABÉNS!

  7. Telmy Dênde

    23 de Março de 2018 as 7:54

    Muito bem meu caro,
    Parabéns! Excelente artigo.

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