Opinião

Pode a política assumir a verdade como categoria para a sua estrutura?

Esta pergunta, é-nos colocada hoje pela atual sociedade contemporânea. Como sabemos, diariamente somos bombardeados pelos meios de comunicação social com vários escândalos públicos a cerca da desonestidade na condução da vida política, ora pelo nepotismo, pelos desvios de verbas, pelo mau uso de recursos públicos, pela desonestidade administrativa, etc. Nesses sucessivos atos de corrupção que somos bombardeados pela comunicação social, vemos que há uma incompatibilidade entre a política e a verdade, ou seja, é como se a verdade não sobrevivesse no âmbito político, ou antes, como se a mentira é que tivesse lugar privilegiado nas relações políticas. O descrédito da verdade é visível na constante suspeita da falta de sinceridade no tocante a condução das organizações públicas.

Diante destes acontecimentos, os homens de hoje apreciam grandemente que é cada vez mais urgente e exigente buscar a “dignidade”[1] da política.  Esta exigência da verdade na política diz respeito principalmente ao que é próprio do espírito humano. Todos os homens têm o dever de buscar a verdade, sobretudo no que diz respeito ao bem da sociedade, isto é, da humanidade.

Voltemos a fazer a mesma pergunta em várias, pode a política assumir a verdade como categoria para a sua estrutura, ou deve deixar a verdade de lado? Se a verdade nada conta para a política, o que sucede? Que justiça será possível? Estas perguntas do pragmático, colocadas superficialmente, são perguntas muito sérias, na qual está efetivamente em jogo o destino da humanidade e em concreto o destino de muitas nações, uma dessas nações é a nossa, São Tomé e Príncipe.

Dizia Hans Urs von Balthasar, que a verdade assenta no amor, onde não há amor também não há verdade, ou seja, se não existe amor na política, se não houver o amor dos homens políticos pelo seu povo, particularmente, os mais débeis, isto é, o povo pequeno, portanto, também não há verdade na política. O homem como ser político e como veículo da política, só chega a responder as grandes necessidades da humanidade se assumir a verdade como estrutura da política e como a profundidade do ser humano.

Por outro lado, para que a verdade seja acreditada como selo de identidade da política, nós os cidadãos temos que educar a nossa consciência, e não a substituir por nada deste mundo. Porque, a consciência é como que o núcleo mais íntimo e secreto do homem. É na consciência que o homem determina se, age no sentido do bem ou do mal. Pela fidelidade à voz da consciência, nos estamos no dever de buscar a verdade e de nela resolver tantos problemas que surgem na vida social e política. Quanto, mais prevalecer a reta consciência, tanto, mais as pessoas e os grupos políticos estarão longe da arbitrariedade cega.

Portanto, a política atinge a sua dignidade quando, libertando-se dos interesses próprios ou do grupo, tende para o fim livre escolha do bem e procura a sério e com diligente iniciativa os meios convenientes, ou seja, só com a verdade é que a política pode tonar plenamente efetiva esta orientação para o bem dos homens e da sociedade. Uma política verdadeira é um sinal privilegiado da imagem divina no homem. Dizia Balthasar que, o homem só se comprova, só chega a si mesmo no encontro; é no acontecimento dos olhos nos olhos que a verdade nasce. No fundo, é a questão da alteridade, ou seja, nós somos responsáveis pelo nosso próprio bem e pelo bem daqueles que nos são confiados. É possível uma política verdadeira, basta o ser humano querer.

Vicente Coelho

[1] A dignidade é aqui vista como verdade na política, como sabemos tudo aquilo que é digno é verdadeiro.

    6 comentários

6 comentários

  1. Toledo

    24 de Abril de 2018 as 23:01

    Eu gostaria de parabenizar este jovem, pela escrita fundamentada da sua reflexão. Muito pertinente este artigo, que outros jovens como tu tenha essa consciência.

  2. 24 de Abril de 2018 as 23:12

    Mas,uma reflexão pertinente.Gostei muito desta explanação sobre a consciência. .”Quanto mais prevalecer a reta consciência, tanto ,mais as pessoas e os grupos políticos estarão longe de cometer arbitrariedade cega ..”

  3. Boa

    24 de Abril de 2018 as 23:26

    De facto, o artigo é muito interessante. Boa reflexão comungo com a mesma ideia deste jovem.

  4. suki

    26 de Abril de 2018 as 20:19

    bom texto, meu caro jovem.

  5. povo

    26 de Abril de 2018 as 20:22

    Eu li o texto e fiquei satisfeito por saber que em São Tomé tem jovens que pensam no bem do povo..

  6. Amim

    26 de Abril de 2018 as 21:46

    Eu cito este texto”a política atinge a sua dignidade quando, libertando-se dos interesses próprios ou do grupo, tende para o fim livre escolha do bem e procura a sério e com diligente iniciativa os meios convenientes, ou seja, só com a verdade é que a política pode tonar plenamente efectiva esta orientação para o bem dos homens e da sociedade. Uma política verdadeira é um sinal privilegiado da imagem divina no homem.”

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