Opinião

Uma Sociedade sem Pai

Não é preciso ser um observador muito atento para ver como as questões relativas à família, concretamente à paternidade, estão, hoje, na ordem do dia. Sempre que pensamos na educação, na formação, na cidadania e na intervenção dos jovens na sociedade, acabamos inevitavelmente por ser remetidos para a realidade paternal, ou seja, acabamos por tocar na figura do pai.

Como podemos observar é uma questão que surge com toda a naturalidade. Por isso, começo por expor algumas perguntas: que lugar tem hoje o pai na família? Que é feito da figura do pai, neste contexto contemporâneo? Quem cumpre a função paternal, hoje, na vida e no crescimento das crianças?

Outrora, depois da guerra, muitas crianças ficaram sem o pai, talvez porque havia morrido ou ainda se encontrava prisioneiro. Hoje, segundo Mitscherlich, muitos pais ainda renegam a tarefa da paternidade e muitas crianças crescem sem pais. Este flagelo, se assim podemos dizer, é algo transversal a toda a nossa cultura contemporânea. Embora, reconheçamos, que nalgumas famílias, alguns pais acompanham todo o crescimento dos seus filhos.

Todavia, por falta desta presença paterna nas nossas famílias contemporâneas, muitas crianças e muitos jovens tendem muitas vezes a procurar um substituto. E este substituto é a ideologia, são as drogas, o álcool e outros vícios conhecidos por todos nós.

Por exemplo, na nossa realidade santomense “se uma mulher criar o seu filho ou sua filha sozinha, devido a uma separação ou por outras causas, e tem de ir trabalhar sem possibilidade de o ou de a deixar com outra pessoa, o filho ou a filha cresce num abandono que o ou a expõe a todos os tipos de risco e fica comprometido o seu amadurecimento pessoal.”[1]

O que é que isto tudo nos diz? Que tarefas tem de realizar a família, nomeadamente o pai e a mãe, de modo a que possamos superar esta ausência paternal na vida das crianças e jovens? Que testemunhos querem os pais passar aos seus filhos, como próximos candidatos no exercício de ser pai ou de ser mãe, marido ou esposa? A verdade é que, por detrás das grandes questões que consideramos essenciais para o nosso futuro, acabamos sempre por cruzar o nosso olhar com a realidade familiar.

Desta forma, acreditamos que nós não podemos tolerar este tipo de comportamento ou atitude que se faz imperar, a cada dia, na nossa sociedade santomense, de pais que geram os filhos e os deixam ao deus-dará ou sobre a responsabilidade da mãe ou, em última análise, ao sabor do mundo.

É necessário que nós os jovens e os outros, que já se encontram avançado no caminho da vida, cultivemos, em nós, a atitude daquele pai que se interessa pelo bem-estar da família e em particular dos filhos; é necessário cultivarmos o espírito daquele pai que incentiva os filhos, que os acompanha na educação, que lhes dá a coragem para ousar alguma coisa, que os protege na retaguarda para que possam seguir o seu próprio caminho; que transmite a confiança aos filhos.

Se pensarmos no pai assim, acredito que a nossa sociedade terá um novo rosto, porque não haverá um número elevado de crianças abandonadas, não haverá um número elevado de jovens a consumir álcool e outras drogas, não haverá um número elevado de adolescentes grávidas.

Portanto, para a qualidade da humanidade e para a própria qualidade da nossa sociedade, teremos que fazer deste desafio algo nosso. É no âmbito da família que podemos desenvolver algumas das competências mais essenciais para o correto exercício da nossa missão, de sermos homens e mulheres felizes. É nesse âmbito que nos são transmitidas algumas das ferramentas mais importantes para irmos construindo a nossa existência e a nossa identidade.

[1] Papa Francisco, Alegria do Amor, nº 49, Lisboa, Paulus, 2016.

Vicente Coelho

    6 comentários

6 comentários

  1. Coisas de leve

    29 de Junho de 2018 as 13:41

    Bom artigo,de facto a nossa sociedade vive uma crise de paternidade.

  2. Falei

    29 de Junho de 2018 as 16:17

    Você falou de uma coisa tão presente na nossa sociedade santomense;as nossas são abandonadas pelos seus próprios pais, muitos são os senhores doutores e ministros da nossa praça.

  3. Camble

    29 de Junho de 2018 as 20:15

    A família é o espelho da sociedade se a família estiver desestruturada claro que essa desestruturação reflecte na sociedade . Por isso, como dizes é bom que façamos desse desafio como o nosso. Porque já é tempo de mudarmos do paradigma.

  4. Jil dos Santos

    3 de Julho de 2018 as 8:05

    Talvez nos os homens somos indiferentes à esta crise de paternidade. Há muitos na nossa praça que tem condições, mas não assume os filhos e eu diria que isto põe em causa o próprio futuro dos miúdos e dos jovens. Por isso, parabenizo-te por este artigo. Tens muita coragem para escrever coisas a cerca deste tema.

  5. Zé Miguel

    3 de Julho de 2018 as 23:22

    Pertinente o artigo.

  6. FRANCO

    6 de Julho de 2018 as 8:54

    Você tem escrevido coisas importantes sobre a sociedade Santomense, que continues assim meu jovem .

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