Opinião

Entre sonho, encenação e fantasia

 

  1. Eu tinha preparado para esta semana um artigo de sátira política, mas a peça desapareceu misteriosamente. Não quero acreditar que o meu computador me esteja a matar artigos. Não é a primeira vez que isto me acontece. Queria dar o meu modesto contributo para o desanuviamento da crispação política, com trocas de acusações e ameaças de processo, em sede do debate sobre o Estado da Nação, e neste ano extremamente difícil para muitos cabo-verdianos. Porém, relativamente à propositura de ações-crime por parte de atores políticos dos dois partidos dominantes da nossa terra, já sabemos de ante- mão qual é o desfecho, i. é., sucumbência pura e simples. Os tribunais do nosso país são autênticos Tártaros para os processos de iniciativa dos sujeitos dos dois partidos que se revezam na governação de Jubilândia. É lamentável que assim aconteça, porque contribui, de certo modo, para a descrença na justiça e para a banalização dos tribunais.

 

  1. Não há nenhum cabo-verdiano tão desmiolado, a ponto de prestar atenção à constante encenação de sujeitos dessas duas entidades, ameaçando processar uns e outros. Só cantilenas para pôr o boi a dormir. Eu, da minha parte, deixo aqui o seguinte questionamento: ou esta coisa de processo resulta sempre de acusações gratuitas e infantis, de molde a que o Ministério Público e os tribunais nem se dignam em levar a sério as ações propostas por tais intervenientes políticos ou então não existe justiça para eles em Cabo Verde. Os cidadãos minimamente atentos estão fartos de teatro e disparate. Há vinte e sete anos que os protagonistas dos dois partidos se incriminam mutuamente e nunca houve nenhuma acusação formal, nenhum julgamento e pior um pouco condenação, que fosse do conhecimento público. Ou será que falam muito e jamais se queixam uns dos outros? É tudo muito estranho.

 

  1. Ora bem! Por falar em devaneio e fantasia, terminei, nesta incaraterística e suave madrugada de julho, a fatigante saga de escrever três livros, em três anos. Todos em prosa, desta vez. Um cheirinho de Angola, Brasil, Guiné Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste, da nossa vibrante e promissora comunidade da lusofonia. Uma comunidade que até nome sabe bem e soa eximiamente airoso. Egipto, Israel, Grécia, Roma, Holanda, Espanha, Flandres e França; Estados Unidos da América, Japão e Senegal são alguns dos espaços de ficção ou de personagens eleitas da minha trilogia. E bastante variada coisa das ilhas da diletante terra a qual pertenço. Agora falta publicá-la a ver se resulta. Um pouco de épica e de lides corriqueiras do dia-a-dia. Histórias pacatas e pequenas, figuras insignificantes, com ampliação diversa, multifacetada e multidireccionada. Ambientes canhestros, elevados a alturas de deificação, de modo a produzir uma infinidade de peripécias, transformando radicalmente a vida de pobres criaturas, aqui ou ali.

 

  1. O reino do fantástico, de vivência imaginária, do improvável e do mui inverosímil tem lugar neste palco de todas as coisas possíveis. A realidade confunde-se com a virtualidade, assim como algumas futilidades inúteis ganham enorme destaque e fulgurância. Há mais sombra na luz dos potentados do que estorvo no passo de pequenos pecadores. Aliás, luz e sombra fazem um constante contraste, de tal sorte que a páginas tantas não se sabe se o abismo está no cume de Olimpo ou o alívio no fundo de suplício. As linhas são escassas. Os caminhos tortuosos abundam. Os atalhos e carreiros se oferecem a cada instante a dar ilhargas de picar. O cosmo tem uma existência oblíqua, obtusa e soçobra na diagonal. Nada que espante ou desanime, porque o mundo, este, caminha para durar.

 

  1. Não há nenhuma escada de Santiago na vertical. Teoricamente, existem muitas surpresas, assombramentos, incredulidades, mas na prática não há íngremes falésias, nem lídimos caminhos vicinais, nem tapetes arrojados e seguros de acesso ao patamar dos maiorais. Tudo se faz fazendo e as coisas vão acontecendo muito impulsionadas pelos ímpetos de efémeros momentos de magia e pela incessante busca de dileção. Caem torres de Babel, em partículas minúsculas, ressurgem nediamente novas e pujantes, outra vez. Ao longo das mil e tantas páginas, há heróis que se transmutam em vilões, homens que se encapotam na efígie de demiurgos. E são muito generosos, por acaso. Raramente se dispõem a castigar o seu antigo semelhante. E como acontece na tessitura de qualquer gesta do faz-de-conta, há nela bandalhos e futricas e tricanas e quejandos. Além de canalhas, intriguistas, mentirosos, oportunistas, caluniadores e mal-intencionados. Enfim, de tudo um pouco existe.

 

  1. O que não há é garantia de coisa alguma. Gigantes, que se arrependem de ser gigantes e desmaiam catitas e cocotes ao pé de umas formigas que lhes tiram o travo da visão e os encaminham a encontrar o rumo de suas moradas, etc. Inicialmente tinha pensado em escrever um livro totalmente épico, envolvendo alguns dos nomes sonantes da história recente dos chamados países africanos de língua oficial portuguesa (PALOP) e não só. Neste rol de eminentes dignitários cuja ação pretendia ficcionar constam, dentre outros, o líder histórico da luta pela emancipação da Guiné e Cabo Verde, Amílcar Lopes Cabral, o primeiro presidente e vulto de grande envergadura cultural do senegal, Leopold Sedar Senghor; os irmãos Pinto de Andrade, Joaquim e Mário, o sacerdote-político e o político-intelectual, sendo dois fervorosos nacionalistas angolanos da resistência anti- fascista, e da zona de Golungo Alto, a terra adotiva do meu saudoso e mui prezado tio, Manuel Landim de Barros, por longos anos. Ou ainda o lendário sul africano da era pré-Mandela, o Magnus Albert Luthuli, primeva persona negra a receber o tão cobiçado e deveras prestigiado Nobel da Paz, mas rapidamente me dei conta de quão difícil era a tarefa.

 

  1. Por outro lado, estou vivamente determinado em saudar e homenagear em vida, alguns dos meus egrégios amigos, naquilo que vou fazendo e pretendo continuar a fazer. Só não sei quando nem como. Talvez isso venha a acontecer nas próximas iniciativas. Há amigos especiais que merecem este tipo de menção em vida. Temos a ingente mania de deixar tudo para depois da ingrata partida, mas a pessoa não vai saber, por isso mais vale uma singela exaltação em vida do que um enorme tributo post mortem. Espero bem que não caia abruptamente e que a vida me cubra de bênção, para cumprir com este sonho. Do mesmo modo, faço votos que os tais amigos não venham a perecer inesperadamente e antes da concretização desta intenção. Um destes ícones da minha amizade e que desejo imortalizar nos meus escritos é o Superintende-geral, Domingos Silva (Comandante Dudu), meu velho e grande amigo e a quem aproveito para endereçar um caloroso e respeitoso abraço. Na minha cândida ribeira natalícia, dizíamos, de modo temerato e súplice: Ámen! Ou então: se Deus quiser!

 

Domingos L. Miranda Furtado de Barros

 

    2 comentários

2 comentários

  1. Luis Mendes

    2 de Agosto de 2018 as 11:55

    Caro colega DLB. A ideia de homenagear o Comandante Domingos José da Silva, ou simplesmente DUDU, coincide com a minha. Recentemente, 23.07.18, tentei arrumar alguns adjetivos, daquilo que eventualmente poderá vir a ser uma proposta, a ser submetida à nossa Direção Nacional da Polícia, no sentido, da sala de Reuniões, onde atualmente alberga alguns serviços Centrais da PN, passar a ser denominada “SALA DE REUNIÃO/FORMAÇÃO Superintendente-Geral DOMINGOS JOSE DA SILVA – DUDU”, Oficial Superior da Polícia, hoje na reforma, que ao longo de todo o seu percurso, no ativo, demonstrou profissionalismo, camaradagem, zelo e obediência. Desempenhou várias funções de relevo na POP, atingindo o cargo de Comandante Geral. Apesar de na reforma, “DUDU” ainda mantém um forte vinculo com o pessoal no ativo. Um forte abraço do seu amigo Mendes, desde Cabo Verde – Palmarejo

  2. Domingos L. Barros

    2 de Agosto de 2018 as 21:37

    Prezado colega, amigo e compatrício, Luís Mendes, apraz-me tomar conhecimento desta sua louvável iniciativa, porque justa e oportuna. Espero bem que o meu caro tenha sucesso na propositura da sua intenção junto dos seus pares. Na parte que me toca, estarei muito feliz e a vibrar com tal merecida homenagem. Sabe que tenho um enorme apreço e amizade pela figura em causa. Um abração e felicidades aí no exercício das suas elevadas funções. Cumprimenta-me, fazendo-me este encarecido favor, o seu irmão, o meu estimado amigo e grande inspirador, Prof. Doutor Arlindo Mendes.

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