Opinião

“Da amizade” e da honestidade

Havia decidido cessar a minha escrita para os jornais. Contudo, em nome da amizade, só em nome dela, o maior bem intangível, logo a seguir à vida, à saúde e à tolerância, sou obrigado a voltar atrás com a palavra. Claro, porque também assumo a sacralidade da palavra dada, por mais que isso me possa custar, como já muito me custou. Então, o leitor enxergará que estou a fazê-lo porque há valores que me parecem de perene validade e de aplicação universal, para o escorreito funcionamento da sociedade dos homens.

A amizade, uma sincera amizade, reafirmo aqui e agora, aquela leal e despretensiosa é um desses sublimes e deíficos valores. Lembro-me de ter lido alguns clássicos da moral e da literatura, de diversos quadrantes do globo, para quem uma verdadeira amizade é o esteio mais precioso e nobre a que um ser humano pode aspirar.

Falo dos mais intrépidos e irrepreensíveis humanistas, humanistas a todo o transe, e sem o mínimo de mácula. Porém, a par disso, foram concomitantemente compreensivos para com todos aqueles que, em determinada fase de percurso, tiveram que se insurgir, recriminaram ferozmente, não digerindo da melhor forma a falta de lealdade, a causa primacial da quebra de confiança nas relações entre as pessoas. E mais que isso: entre amigos, muitas vezes, de largos anos de convivio e de partilha de sigilosidade.

Tais colossos de moralidade não só alcançaram o justificado motivo de repulsa como deram o seu veemente aval em como semelhante trivialidade deve ser merecedora de repúdio e de abrenúncio, para não dizer excomunhão, porque, desde os tempos imemoriais, é considerarado ignóbil alguém estar a aproveitar-se da sua posição de amigo, para devassar as confidências que lhe são confiadas, de forma diabólica e luminária, com o único intuito de galgar a escada de fama e de glória à pressa. E pior: à custa da venda de honorabilidade dos seus próprios amigos.

Não é justo, não é limpo e nem sequer é bom para ninguém. A traição é algo que dói até na cova. Não pode haver amizade sem honestidade, uma certa reserva ou contenção. Sempre me apavorou ingentemente a ideia de delatar coisas que me chegam aos ouvidos, graças à confiança em mim depositada. Hoje em dia, existe uma sanha malfadada e pérfida de chegar ao fim da escala de ganância, de tal maneira avassaladora e a qualquer preço, que algumas pessoas perderam já a noção de decência e de decoro.

É o galopante narcisismo e seu correlativo desprezo pelo nome doutrem a ditar as regras de civilidade. Há uns anos, tive o privilégio e muita felicidade de encontrar pelos trilhos da minha azafamada busca do correto um radioso professor de Latim que, numa aula, nimbou ele a nossa mente, a dos alunos da sua turma, com a máxima que aqui, contextualmente, acho por bem partilhar «amicus secretus admore, palam lauda». Vou traduzir isto para comodidade dos leigos em matéria do Latim «repreender os amigos em privado e louvá-los em público».

Refiro-me ao mui benquisto e bem lembrado, Frei Camilo Torassa, que foi meu Lente no Liceu Ludgero Lima, na ilha de Sam Vicente. O mesmo que nos pôs, em decorrência do brocardo, a fazer análise sintática da parte da frase entre aspas, que dá título a este artigo, com o nítido escopo de nos convidar a uma breve reflexão sobre os valores da amizade. Infelizmente, algumas brejeiras e espertinhas figuronas do nosso meio não sabem que os denodados amigos devem ser os primeiros a apoiar e os últimos a atacar.

No mínimo ou na falta do melhor, devem optar pelo silêncio, que isto não escandaliza ninguém. Tudo o resto é perversão, “tout court”. Estar-se na dianteira liderante para enlamear e denigrir a imagem dos amigos, por birra de cafuringas ou pecuinhos interesses inconfessos, é algo que não dá para endender e muito menos aceitar. Porém, hodiernamente, os intriguistas e merceeiros do recado inverteram por completo esta regra milenar e salutar de convivialidade. A receita é aplicável não só nos tratos entre pessoas singulares como ainda entre estas e pessoas coletivas ou só no tráfego institucional entre estas últimas.

Da mesma forma que me revolta e me deixa siderado determinadas imbecilidades, envolvendo relações de amizade, recrimino com a mesma vivacidade e sem qualquer hesitação, a barganha daqueles que estando em plena pujança física, podendo dar-se  ao engenho de rendosa e diversificada índole, preferem, pelo contrário e torpemente, apequenar-se, miseravelmente, deixando-se levar pela furia e pelo ciúme de figuras falecidas, desatando a conspurcar os seus nomes por dá cá aquela azia. Para quê? Pergunto eu, mil vezes atordoado.

De há muito para cá me defini como fiel aos meus princípios e leal aos meus amigos, no limite de razoabilidade, como é óbvio. Esta reta e preclara razão das coisas impele-me a defende-los e me bater por eles, máxime, até o trânsito em julgado da sentença condenatória, se for o caso. Sendo certo que, percorrendo a causa todos os íngremes degraus de instâncias formais de ajuizamentos, com decisão inexoravelmente irrecorrível, aí, apenas me restará ser solidário e dar-lhes cobalto moral, para cumprirem com dignidade o seu castigo.

E guiado pelo mesmo critério valorativo, também escolhi como matiz do meu agir: nunca disparar os meus esbirros na direção de figuras já transitadas. Quer os claramente imortais à face da memória coletiva, quer os mais pacatos cidadãos comuns. Para quê? Volto a perguntar. Para destroná-los e ficar no lugar deles? Não faz sentido. Assim, jamais estarei aqui ou ali, só para me armar em engraçado e tentar diminuir seja quem for. E tam somente para acrescer e se possível enobrecer o que fizeram os meus virtuosos predecessores.

Mesmo eu, que passo a vida a escrever sobre personas eminentes da nossa terra e não só, para enaltecer os seus feitos e façanhas, se por acaso for mal interpretado pelos seus entes queridos, por mais que sejam impolutas as minhas intenções, devo parar imediatamente de tal empresa, respeitando escrupolosamente a memória dos que partiram, dando provimento à vontade dos seus familiares, que são os seus legítimos representantes. Isto para mim chama-se bom senso, porque se insere na formidável regra de ouro: respeitai o silêncio do morto, porque ele não está cá para rebater.

Bem, política à parte. Não obstante isso, temos que convir que há sempre uma causa ou relação fundamental, um elemento estruturante ou arcaboiço inaugural para tudo o que funciona em cadeia. Chamemos a isto um prius por detrás de uma sucessão de fenómenos, capaz de conferir coerência ao todo e sem o qual o resto desmorona e cai, por falta de sentido.

Então, cá para mim, na minha pacata opinião de humilde cidadão,  quando se fala de memória coletiva, seja em Cabo Verde, seja na Guiné-Bissau, Amílcar Cabral é, sem dúvida nenhuma, a trave-mestra, este prius, este brioso e insubstituível prius. Não é de natureza comparativa com os demais entes da nossa vida pública, por mais excelsos e respeitáveis que estes sejam,  e muito menos substituível, ainda que de modo meramente fantasioso ou fictício. Se alguns me quiserem chamar cabralista, estejam perfeitamente à vontade, que isto só me envaidece.

Finalmente, mas não menos importante, para endereçar esta crónica à prezada escritora, Fátima Bettencourt, que teve a gentilidade de me dedicar um poema de Corsino Fortes, aquando da receção do prémio com mesmo nome.

Um prémio que teve o nédio e abençoado dedo da mulher, em múltiplos sentidos. Se não me engano, foi a primeira vez que alguém me presenteou com o mais espirituoso das oferendas. Porém, emocionado que estava nesse dia, não me lembro ter feito menção expressa ao donaire por ela patenteada em relação à pessoa do pobre escriba. Aproveito esta tirada, este hino de lealdade à causa de amizade,  para lhe formular os meus mais fervorosos votos de sucesso no seu labor criativo e na sua vida pessoal. Minha mãe ensinou-me a dizer e vou cumprir: obrigado, Fátima Bettencourt!

Domingos L. Miranda Furtado de Barros

    5 comentários

5 comentários

  1. MIGBAI

    16 de Maio de 2019 as 21:33

    Que saudades meu caro.
    Que bom ter voltado.
    Só por ter de novo a oportunidade de ler o que escreve de forma sublime, encantadora e magnífica.
    Valeu a pena eu ter continuado a marcar presença no telanon ora atacando este e o outro ora apoiando aquele e aqueloutro.
    Seja bem vindo meu caro e por favor esqueça a ideia de nos deixar de brindar com as suas reflexões.
    Um grande abraço.

  2. João Gomes

    21 de Maio de 2019 as 13:33

    “Escrever bem rejuvenesce a alma”
    Jardson Brito
    Aquele abraço, ilustre primo!

  3. Nanana

    26 de Maio de 2019 as 23:55

    Não conheço o autor do artigo.
    Mesmo assim, quero agradecer pelo rigor e elegância na escrita.
    Assim dá gozo vir ao tela non.

    Publique mais, por favor, que eu já não me lembrava do que é um bom Português escrito/falado.
    Bem-haja

  4. Domingos de Barros

    30 de Maio de 2019 as 15:16

    Prezados amigos leitores, MIGBAI, Manana e meu primo João Gomes, lamento não ter reagido aos vossos generosos comentários. Por mim, este artigo não tinha sido publicado. Provavelmente terá ido diretamente para coluna de opinião. Agradeço as vossas palavras de encorajamento e prometo continuar a dar o meu máximo, sobretudo tendo em conta o bálsamo de pessoas fantásticas como vocês. Desculpem por esse descuido meu e abração.

  5. Domingos Barros

    30 de Maio de 2019 as 18:41

    Peço-lhe imensa desculpa, Nanana. Grafei mal o seu nome no comentário supra.

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