Opinião

Cultura do Corpo

O homem contemporâneo é convidado a construir o seu corpo, a conservar a sua forma, a modelar a sua aparência, a ocultar o seu envelhecimento e a fragilidade da sua carne. No fundo, o que melhor convém às pessoas hoje é que o corpo exerça poder, que exerça influência, que exprima caráter, força, energia, capacidade, beleza e domínio.

Essa cultura ou culto do corpo desenvolve-se numa sociedade em que as informações sobre a estética encontram muitas vias de circulação, ou seja, diariamente encontramos publicidades sobre um corpo perfeito. Hoje, o corpo humano é compreendido pelo modelo da máquina, como algo que pode ser controlado, corrigido, alterado e manipulado pelo homem; contudo, esse exercício do homem sobre o corpo faz com que essa realidade carnal perca a sua densidade simbólica e o seu significado antropológico.

Dizem-nos Michaela Marzano e David Le Breton que o atual culto da performance do corpo, em sua idealização de um corpo sempre jovem e saudável, compromete o realismo da nossa condição corpórea(carnal), marcada também pela vulnerabilidade, pelo que é padecido, pelo que não pode ser controlado, mas apenas aceite e integrado numa elaboração de sentido. A exaltação contemporânea do corpo, que o desporto e estética encarnam e promovem, vai acompanhada, contraditoriamente, de um projeto cultural de apagamento da espessura e do realismo da carne.

Na verdade, essa pretendida recuperação do corpo é uma leitura seletiva da corporeidade: não se glorifica o corpo enquanto tal, mas sim os corpos belos, jovens e sãos do beautiful people.[1] Diante desta exaltação ou culto do corpo, precisamos de uma antropologia do corpo que integre as marcas do tempo, as feridas da carne, as provas não vencidas, as derrotas, as eliminatórias, as lesões, a exclusão que acontece quando não se consegue cumprir as metas.

Portanto, a antropologia cristã propõe uma novidade sobre o corpo humano, onde o corpo deixa de ser visto como um instrumento de prazer e passa a ser contemplado como esse lugar de encontro entre Deus e o homem, de reconhecimento de Deus no homem e do homem em Deus. Como nos diz o Papa Francisco na Laudato Si, “aprender a aceitar o próprio corpo, a cuidar dele e a respeitar os seus significados é essencial para uma verdadeira ecologia humana.”

[1] Cf. M, Marzano, Penser le corps, 24-25.

Vicente Coelho

    5 comentários

5 comentários

  1. Gustavo

    8 de Novembro de 2018 as 16:57

    O texto é interessante, hoje vivemos de facto, uma exaltação do corpo. Hoje vi nas redes sociais a cantora Anita a reclamar do seu corpo.

  2. Beto

    8 de Novembro de 2018 as 22:21

    Corpo está a ser banalizado. Parece que já não há respeito para com essa dimensão humana.

  3. Filho da terra

    10 de Novembro de 2018 as 15:42

    Bom trabalho, as vezes essa exaltação do corpo parece ser algo muito banal, mas no fundo é uma coisa muito séria. Esta exaltação do corpo levou muitos jovens a querer experimentar tudo. A quer ter peito grande,os rapazes e as raparigas que injectam produtos para mudar a estrutura física e uma seria de coisas. Obrigado pelo texto.

  4. Kiloange

    11 de Novembro de 2018 as 22:52

    Bom texto caríssimo colega, eu gostei muito da reflexão que viste a volta desse tema. O culto do corpo.

  5. João Pedro

    12 de Novembro de 2018 as 21:18

    Salva como favorito , Eu amo seu site!

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