Opinião

Mina kiá e os estorvos dos paizinhos

A vida, muitas vezes, empurrada pela condição social de extrema pobreza, desabriga-nos, deixando-nos numa realidade caliginosa e lastimosa. Só, absolutamente só, um facto: mina kiá, uma realidade que, quase pensada, não foge aos incontornáveis empecilhos – ou barreiras – dos paizinhos: trabalhos quase escravos (tendencialmente infantis), abusos sexuais, violências verbais, físicas e psicológicas. Certo é que esta lista não se esgota nestas mencionadas situações de indefensabilidades que, normalmente, facejam uma mina kiá; há mais e, esmiuçadamente, conhecemo-las. Aqui, só alistamos alguns dos lances mais ou menos intensos.

Ora, mina kiá trata-se de uma criança, frequentemente menina, criada em casa de outras famílias. Comumente, as tais famílias pertencem às classes médias ou altas – os cognominados nguê gôdô, ricaços; e têm ou não laços de afinidade com a referida criança. Uma situação paradigmática, vejamos.

Há tempos, houve um caso que fumegou e, depois, enfumaçou: uma destas famílias, necessitando-se de mão-de-obra “módica” para os serviços domésticos, encontrara numa daquelas «escravinhas hodiernas» uma lustrosa solução. A menina tinha onze anos, vivia numa zona periférica – era roceira, como tem sido pretendido – e a sua família pelejava contra uma vida de extrema pobreza. Pois bem. Diante desta mísera realidade, a outra família, a dos ricaços, prometera ajudá-la com os estudos, caso fosse viver com eles – porém, a expressão mais justa talvez fosse “trabalhar” para eles. Mas, tudo isto não passara de importe para que a menina saísse do seu berço. Como diz o Povo e bem-dito: «só pensar assim não resolve, porque de boas intenções o inferno está cheio», aquilo que a família não almejava acabou por acontecer: a menina foi desvirginada – tal como acontece nas maiorias dos casos – pelo “o paizinho”, o chefe da casa onde passara a domiciliar-se. Com as promessas todas pagas, evidentemente.

Todavia, o que estava em causa não era o estipêndio pela acção realizada do esturpador; era o ato – abuso sexual de menor – que foi enfumaçado, subordinado, e a justiça ter permanecido com as mãos atrofiadas, tal como tem sucedido noutros cenários. Mas, o pior são as nebulosas paisagens da vida que ela – ou elas – sempre terá(ão) de visitar: as consequências da peçonhenta experiência emocional desagradável, os abalos – os traumas – que as acompanham por resto da vida.

Mais: agora, aos dezoito anos, aquela menina já não estuda, está na sua paupérrima realidade e tem um filho. Sentou-se, portanto, em cima dos sonhos, acenando à vida que passa, levando-lhe apenas a esperança do dia-a-dia – a sobrevivência.

É natural que haja casos excepcionais de sucessos, com nódoas de felicidades. Porém, sem nos posicionarmos em pódios defensivos, claramente, está à vista que a história de mina kiá é até hoje um dos maiores celeiros de violações sexuais no nosso país, quer no seio das próprias famílias – pelos padrastos, tios e primos – quer nas tais famílias encapuçadas de paizinhos (ou de padrinhozinhos), tal como vimos – um dentre vários casos afamados. E, a prova desta afirmação reside, sobretudo, nos episódios que a sociedade nos tem espelhado. Por isso, a pergunta, que anda em busca de resposta, é esta: de quem é a culpa, afinal? O silêncio das famílias vilipendiadas? Ou, a maldade dessas pessoas que se aproveitam da posição alta que têm na sociedade, quando deviam fazer o bem? Boa reflexão.

Francisco Salvador

    9 comentários

9 comentários

  1. Ana Jorge

    20 de Fevereiro de 2019 as 10:15

    Coragem e imparcialidade. Belo artigo! Continue…

  2. MIGBAI

    20 de Fevereiro de 2019 as 14:51

    Jovem, Francisco Salvador.
    Tudo o que escreveu, está correto, direi mesmo, coincide com a pura da realidade.
    Mas como pode isto acabar quando temos presidentes de STP que têm meninas para seu belo prazer sexual, quando temos ministros que alinham pelo mesmo diapasão, quando temos militares de altas patentes que desde a independência sempre fizeram questão de ter escravas sexuais de tenra idade. Veja que até a escumalha dos deputados acham-se no direito de ter várias catorzinhas e meninas a servirem em suas casas, escravizando-as sexualmente.
    Do que está à espera deste país completamente desgovernado?
    Tem razão o Francisco Salvador, mas olhe que muitos dos predadores sexuais não estão a achar graça nenhuma.
    Temos que ter leis fortemente penalizadoras e que ninguém se encontre acima das mesmas, mas isso só daqui a muitas centenas de anos.
    Um grande abraço.

  3. CGomes

    20 de Fevereiro de 2019 as 15:01

    Muito bom artigo.

    Ainda mais quando ha dias ocorreu um caso desses no Pais e que foi televisado e logicamente tem a ver com gente pequena e pobre tanto a victima como o delinquente, enquanto noutro nao tao longinquo caso similar, o delinquente se tornou actual ministro que Cantagalo impos ao governo.

  4. Filho da roça

    20 de Fevereiro de 2019 as 15:30

    Tive o prazer de ler e reler o teu artigo.
    Quero dar-te os meus parabéns!

    Infelizmente, essa situação (abuso sexual de mina kiá, sobrinha, prima etc…) foi e é uma triste realidade em muitas famílias santomenses.

    De quem é a culpa??
    Na minha opinião, a culpa dessa situação é o famoso “paizinho” e a família que acoberta esses abusos depois de tomarem o conhecimento da situação.

    Por outro lado, depois de sofrer abuso e ser amedrontada (pelo paizinho), a vítima não denuncia por temer à represália por parte da família que a “adoptou” e a sociedade que a envolve.
    Como mencionaste, os “paizinhos” na maioria dos casos são senhores de grande renome ou posse na sociedade.

    Digo-te já, existem inúmeros casos desse cariz na nossa sociedade.
    No dia em que cada uma das moças que foram e são abusadas, nesse contexto, vierem à rua denunciar o que lhes foram feito durante anos, muitos “paizinhos” irão parar atrás das grades.

    Abraço, mano!

  5. Mina kiá

    20 de Fevereiro de 2019 as 23:21

    É muito interessante este artigo. Que ajudemo-nos uns aos outros a responder às questões finais! Parabéns, meu caro. Abc

  6. A voz do pequena

    21 de Fevereiro de 2019 as 11:53

    São eles os diabos que anda de prado e vive do estado. Bom artigo! Continue!

  7. DHK

    22 de Fevereiro de 2019 as 8:44

    Tá meter com o ninho de cobra preta, rapaz!? São eles que fazem às leis. E não ligam isso…
    Falaste verdade, mas cuidado!
    Abraço

  8. António

    23 de Fevereiro de 2019 as 21:11

    Excelente denúncia para uma vergonha criminosa. Não há cadeia? Onde para a Justiça?

  9. Carlos Silva

    28 de Fevereiro de 2019 as 22:14

    Em 2018, segundo os dados da UNICEF, registou-se 54 casos de violação de menos. Isto é preocupante! Este artigo é de louvar: obrigado jovem por esta preocupação social. Bem haja.

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