Opinião

Sara, a herança

Por Xavier Muñoz Torrent, geógrafo
Ela foi o mais belo que tem acontecido na minha vida. Cheguei a ela por primeira vez com todas as urgências e quase desespero. A Maternidade estava imersa no período do almoço. Nenhuma enfermeira estava à vista, num sossego exasperante que não se reconhecia para uma barulhenta seção onde deveriam imperar prantos de bebês e gritos de parteiras.
Ninguém chorava ninguém gritava. Todo parecia adormecido numa sesta à minha volta, em contraste com a minha tensão, com o meu coração a mil revoluções, como se todos fossem cúmplices de um silêncio orquestrado frente à minha pressa. Mas, na enfermaria, perto da sala das cesarianas, estavam todas em pleno recesso, algumas de boca cheia, outras partilhando tachos, pratos e animadas conversas. Ao chamar e entrar não me faltou dizer nada: todas elas me identificaram como o maior interessado do dia e, com um grande sorriso coletivo de parabéns e alguma brincadeira, assinalaram a porta ao fim do corredor.
Lá numa gaveta de plástico, sobre uma toalha, frente a um monitor de ritmos cardíacos, estava Sara-Cristina, recém-nascida. Nem horas tinha, nem nome ainda. Não acreditava que aquela vidinha, aquela bonequinha fosse a minha filha. Dormente, quietinha, a sua pele rosada contrastava com o amarelo desse tradicional vestidinho com renda que põem aos recém-nascidos em São Tomé. Ela foi para mim a única luz que alumbrava uma sala cheia de bandejas para neonatos e monitores Holter, escura aos meus olhos. Mas os meus olhos apenas eram para encontrar a bebê, a encontrar-me com os seus primeiros movimentos, as suas primeiras exalações, e também para encontrar-me a mim próprio.
A sua luz foi a minha luz, a sua pele o reflexo da minha herança e da beleza da mãe. A magia de Deus no paraíso apresentava-me um anjo. Era isso o grande privilégio, o grande prêmio por ter assaltado o bem amar em São Tomé: ser fabricante de anjos! E a emoção me consternou, os olhos ficaram mar de lágrimas por aquela sorte de pai na que me tinha convertido, pai de uma luz que conjurava pressas, dissipava dúvidas, prevenções e temores estúpidos, para concentrar-se, a partir desse momento, num novo futuro, num novo pacote de objetivos que reclama ação, ímpeto e determinação.
Quem podia pensar que este geógrafo constituísse família aos 54 anos; a uma idade na qual, em plena estabilidade econômica e intelectual, já se está mais a pensar na reforma que em muitas mais aventuras africanas. Mas foi assim, e ademais, com a mulher que amava, explosão de juventude, forrissimamente bela, e na minha África e no país que é já a minha segunda pátria.
E a vida mudou em redondo, para uma nova economia familiar, para novas responsabilidades, para uma nova ordem dos sentimentos que reestrutura completamente horários e agendas, a vida toda, com o gosto doce dos beijos e os sorrisos compartidos, e também os ácidos dos contrastes culturais, medos e maneiras de ver o mundo, vividos em primeira pessoa e cotidianamente. Um grande reto de vida em adiante, mas procurando esse amar, ainda mais intensamente.
Sara-Cristina nasceu em São Tomé, em plena gravana de 2016, quando o sol apontava ao mais alto e as cervejas geladas pareciam ainda mais fresquinhas. Eis a minha filha, a minha “pubilla”, como se conhece na Catalunha à herdeira. Ninguém do Hospital Aires de Menezes me avisou da entrada em parto da mãe, e menos ainda da necessária cesárea de urgência.
Os provocaram. Estávamos lá, na nossa eventual residência em São Marçal, salvando um sol insistente baixo a sombra refrescante da jaqueira, quando de improviso a chamada de parabéns de Carmen Álvarez me anunciou a boa nova! Xê, a criança era esperada, mas não tão cedo! A toda velocidade abandonamos vermute e sombra para saltar sobre o carro!! Não acho que ninguém fizesse os seis quilômetros que separam a estrada da Estação Terrena com o outeiro do Hospital com tanta velocidade. O coração latia depressa e eu não veia nem ouvia mais nada que a ânsia de chegar perto do amar da mãe e a benção da filha.
O fato tinha-se produzido fazia pouco tempo. No edifício da Maternidade (provisório, pois o edifício habitual nessa altura estava em obras de modernização) a gente na porta (já todo o mundo sabia!) me indicou que Zizi estava no Bloco Operatório, ao pé da entrada, justo ao lado oposto de onde estávamos. Continuou a corrida, agora dentro do recinto do Hospital (esse hospital tão alargado, tão horizontal!).
Á chegada ao bloco ninguém estava na recepção, apenas um paciente que, inquirido com furiosa impaciência por quem escreve, aconselhou chamar à campainha da porta que separava a sala de espera das salas de operação. Não foi preciso, pois naquele instante abriu-se e apareceu a minha amada numa maca de ambulância, embrulhada numa manta de emergência, dessas térmicas, de cor metálico, como se de uma múmia se tratasse. Baixo os efeitos da epidural ela apenas articulou palavra.
Os enfermeiros disseram que todo foi perfeito e que ela seria levada à Maternidade, na sala das cesarianas, para recuperação. Foi então que perguntei pela bebê, pois reparei que não estava lá com a mãe! A bebê ficava já na Maternidade, informaram, e voltamos a saltar sobre o carro para uma nova corrida de slalom (adiantando à ambulância que transportava à mãe, salvando outros veículos e pessoas)! E de aí ao meu primeiro encontro com a paternidade.
Saí da sala das bandejas acompanhado pelo amigo Abajú, que não me deixou nem um minuto, e o pequeno Hélvyo, filho da Zizi, que atendia a situação com olhos de cucumba. Saí à varanda e respirei profundamente, o precisava. Precisava ver outra paisagem que uma Maternidade saturada como habitualmente, ainda que a visão do bloco penitenciário decadente e de um campo de futebol contíguo com um non-stop de gritaria não deviam ser o que se pode esperar de uma zona restrita à saúde. Precisava também um golo.
Todo tinha saído bem. Abajú ria ao contemplar as minhas reações. Com os seus rires recuperei a tranquilidade, e eu também ri. Também mudou a cara do pequeno Hélvyo, que não se separava de mim, admirado pelo milagre da vida que tinha experimentado conscientemente pela primeira vez. Abajú também ria, mas pelo duro caminho que me esperava nas semanas seguintes, pois o mergulho nas burocracias seria intenso, como em verdade foi.
Registro de nascimento, cédula, solicitudes de certidões, de bilhete de identidade e passaporte da criança, luta corpo a corpo com o cartório, trâmite de “capacidade matrimonial” (quando já tínhamos sido pais!), carimbos da Haia a discrição, traduções, pago de taxas, mais alguns trâmites e filas que apenas posso qualificar de absurdos e demoradouros…, e, além disso, simultaneamente o périplo burocrático com as autoridades consularess espanhola, em São Tomé (para quem parecia ser uma autêntica novidade) e, a distância, em Libreville, por quanto aquela nina tinha direito a uma dupla nacionalidade, que ademais tinha necessariamente que significar o definitivo visto Schengen para mãe. Sobre isso ainda posso escrever uma novela por entregas, pois aquilo com certeza enriqueceu ao extremo o meu anedotário pessoal.
Duas pessoas chave nesse processo: de um lado, o primeiro secretário da Embaixada espanhola em Gabão, o Sr. Arnau Formiguera, um autêntico cavaleiro catalão (pois não podia ser qualificado de outra maneira), da nova escola de gestão diplomática, que decerto esteve em contato permanente conosco e facilitou a papelada e salvo-conduto para Sara da maneira mais eficaz, salvando todos os problemas da distância, e evitando, entre outras coisas, uma tormentosa viagem a Libreville (nessa altura, cenário violento da revolta popular desatada trás as eleições presidenciais denunciadas de fraude, fato que não aconselhava a deslocação). De outro, um resquício de praticidade e de eficácia santomense, o Sr. Paixão 2000 (ainda não sei se o nome é correto assim, mas assim soava), que desenvolveu, com a sua rede de colaboradores, o mais célere e mais econômico sistema de mensageiros que existe entre a ilha de São Tomé e o Continente, quase como para elevá-lo à categoria de interesse público nacional! Sem eles nesse cenário nunca houvesse resolvido a voragem burocrática em tão pouco tempo.
Tive sorte da sua incalculável ajuda, sendo expoentes de como deve ser uma administração, já seja pública ou privada, em qualquer lugar do mundo. A sua eficácia também facilitou o tratamento com a Embaixada de Portugal, que, desta vez, disponibilizou com surpreendente rapidez o visto de viagem à minha mulher (surpreendente decerto trás a chatice dos indeferidos anteriores!).
Outros também foram fortes aliados: o coronel Pereira, que acalmou muito os meus nervos, com um acompanhamento nos processos frente ao SMF, e frente a um opíparo almoço de peixe, que nos descobriu numa petisqueira caminho de Caixão Grande; também um senhor, de quem não lembro o nome, que é com certeza a alma viva de Registro Civil santomense (pessoa sine qua non esse Registro não poderia funcionar minimamente); os conselhos práticos do Dr. Pedro Pozo e do Sr. David de Mata; e também do grande Abajú, a minha sombra, com quem podia discutir de todos os pormenores desse tortuoso caminho e orientar-me com certidão nos recursos necessários e indispensáveis.
Foram dias de muita força, ação, decisão e coragem. Também de muito amor, com a minha mulher sempre à espera e a minha filha no colo. Que sensação! Que estampa! Eu que nunca quis suster bebês nos braços!…, mas essa Sara-Cristina era minha e eu por ela suportaria todos os xixis do mundo, melhor ainda se são adereçados pelos beijos da mãe.
O 28 de setembro finalmente viajamos para Europa, onde o verão se dava por acabado, e onde Zizi começou a sentir pela primeira vez o verdadeiro frio do norte, enquanto ia surpreendendo-se dos espaços urbanizados e dos estranhos engenhos da mobilidade: semáforos, elevadores e tapetes rolantes que para ela pareciam mover-se como por arte de bruxaria, todos eles envolvidos num tráfico denso e barulhento e nas brumas de polução, de uma cidade-rua global, metrópole que nunca acabava, infinita (percepção do espaço que mereceria uma análise científica não simplista).
Lá, em Barcelona, também tivemos que mergulhar nas pesadas burocracias de imigração, de cita prévia para todo, para constatar a nacionalidade da bebê, e regularizar a residência legal da mãe, mais a inscrição no censo de habitantes e também na seguridade social pública, assim como os trâmites para celebrar casamento. Os processos todos, cadenciosos, dificultosos em tempo, acúmulo de impressos, certidões e taxas, filas e esperas, demoraram mais de três meses.
Houvesse gostado ter aos meus pais comigo. Eles não houvessem ajudado muito nas burocracias, mas me houvessem expressado com emoção e alegria o orgulho da família pelas minhas obras. Eu então poderia dizer ao meu pai que foi o melhor do mundo, que não houvesse querido outro; que agora sento o que ele deveu sentir quando eu nasci e deveu-se admirar quando eu crescia. Lhe houvesse repetido o que ele conheceu de mim através de outros: que foi o melhor marceneiro de Barcelona e que eu lhe tinha na mais alta consideração como pai, que me sentia orgulhoso dele, que não tinha outro herói.
À minha mãe não lhe houvesse sido preciso dizer nada: com o seu sorriso tênue e perene, talvez com alguma lágrima de emoção, me houvesse transmitido toda a cumplicidade dos gestos. Eles já não estão, mas sim o seu espírito e a sua herança, que fica dentro de mim e agora da Sara-Cristina. Mas foi o meu irmão mais velho que lhes substituiu, o meu orgulho era seu, era o orgulho da família toda por ser partícipe mais uma vez da magia da Criação, num recanto não esperado e, por tanto, ainda mais mágico e alegre, extraordinário.
Devo pensar que coisa parecida deveu imperar na família da minha esposa, não tanto com o nascimento de uma nova neta (de netos não faltam lá), como que aquela era uma afortunada mistura de raças e culturas, entre a rara beleza e gênio da mãe e a instruída esperteza do pai, entre as misturas crioulas e as misturas mediterrâneas. No seu sangue há mestiçagem dos iberos, romanos, visigodos, árabes e judeus, e lusos, cabo-verdianos e bantus. Na sua cabeça correrão os vestígios de todos esses para criar uma mente aberta e privilegiada que supere aos progenitores em personalidade, em força de caráter, em inteligência, em beleza, em expressão e em criatividade, em liberdade, para levar com orgulho as suas origens, e o orgulho de todas as Saras. Vou torcer por isso, decerto.
Agora gosto desfrutar do seu sorriso e do sorriso da mãe ante a evolução constante desse caráter, da criação dessa esperteza que se frágua dia a dia, que se desenvolve bem na escola, na família, na sociedade; que joga e cria jogando, que canta, dança e encena, que se expressa; que fala e explica coisas; que corre para cima e para baixo; que chora, ri e desenvolve fortes sentimentos… que nos cria saudáveis emoções que nos rejuvenescem a alma, que nos enternecem o gênio e nos fazem mais pessoas.
    1 comentário

1 comentário

  1. Manuel Cardoso

    4 de Maio de 2019 as 13:42

    Parabens Senhor Xavier
    Que Deus abençoe a sua Sarita que também é considerada uma santomense

    Força Sarita e toda a família
    MC

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