Opinião

A caridade e a distopia

Para Rousseau, o homem é naturalmente bom, sendo a sociedade, instituição regida pela política, a culpada pela sua “degeneração”. Talvez devesse eu pensar que a humana pessoa é, por si só, boa; e também o é, sobretudo, quando o seu ato tende para o bem, bem sem favor. Ou seja, sempre que qualquer pessoa (ou coletivo de pessoas) é chamada a fazer o bem, e o realiza bem, nela resplandece aquele espantoso Belo criacional.

Por isso, parafraseando um amigo professor, podemos dizer que a intuição primeira que a humanidade manifesta é a intuição de algo ontologicamente positivo que constitui um absoluto e que coincide com isso que vai permitir construir o sentido do bem.

Pois é. Li, reli à lupa, as recentes notícias despontadas da Terrinha no Equador, sobretudo a epígrafe do jornal dos assuntos sociais, como, por exemplo, a Oficialização do Pagamento do «Programa Familiar».

Para quem ainda não o tenha lido, trata-se do aporte destinado as famílias são-tomenses mais indigentes ou em condições de extrema pobreza – são mais de duas mil famílias beneficiárias, sendo que cada uma receberá mil e duzentas dobras (equivalente a quarenta e nove euros) de dois em dois meses. Até aqui é, sem dúvida, um benemérito.

Porém, este abono não será só, absolutamente só, uma sombra de bananeiras para aqueles que se reconhecem estar em tempestade? Se aquelas famílias carecem, mesmo, de ajuda, por que não dobrar equitativamente aquelas dobras em mesadas (a redundância é propositada), ao invés do mês sim e mês não? Ou seja, porque não seiscentas dobras por mês?

Sem querer desfocar do gesto em si, que julgo ser de bom fito, isto parece-me uma apologia àquilo que, habituados, somos: dependentes. Aliás, diz-nos o ditado: “O peixe que dá a seu filho não valerá de nada se não o ensinar a pescar”. Talvez seja preciso que as pessoas percebam que estarem sentadas, com as mãos estendidas à semelhança de um mendigo, é acenar aos sonhos, é dilacerar a esperança. Em rigor, só pelo trabalho as pessoas se tornam dignas e se auto-realizam.

Mas, para que isso se encarne, há que se criar postos de empregos, e isto é o ônus daqueles que regem a polis e as prioridades para qualquer cidadão. Pois, se assim for, não importa a cor do logotipo de quem o promova, é digno de reconhecimento; se não, continuaremos abafados pelas mesmas perguntas: erradicação da pobreza, até quando? independência total, até quando? famílias em pobreza extrema, que futuro?

Ass.: Francisco Salvador

    6 comentários

6 comentários

  1. O Parvo

    29 de Novembro de 2019 as 16:06

    O texto está muito bem redigido, com argumentos que muito pontual. Só faltava acrescentar que se o governo chora que não tem dinheiro como é que agora quer fazer obra de caridade (por isso que descontaram dinheiro de muita gente). Abraço

  2. Povinho

    29 de Novembro de 2019 as 22:58

    Esses homens estão a brincar com pobreza do povo pequeno. Só trossa…kkk

  3. Mixidaji

    29 de Novembro de 2019 as 23:00

    Que ajudar família em extrema pobreza. Isso é chamar mixidaji…brincadeira tem hora!!!

  4. Valter Nascimento

    1 de Dezembro de 2019 as 9:54

    O país precisa avançar! É preciso trabalho e deixar dessas politiquices…parabéns pelo trabalho

  5. Manuel da Cruz Pereira

    1 de Dezembro de 2019 as 23:58

    Já chegou o tempo de trabalhar para o povo de deixar de campanha…

  6. Vamplega

    3 de Dezembro de 2019 as 23:13

    Uma opinião consciente que os nossos governantes deviam tomar em consideração.
    “O peixe que dá a seu filho não valerá de nada se não o ensinar a pescar”.

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