Opinião

Sombras (ou ASSOMBRAÇÕES?) do Poder

Sombras do Poder,
O poder das sombras,
As assombrações do poder,

Estamos perante um complexo cénico feito mais de inventonas do que de intentonas, tendo como pano de fundo e palco uma libertação que mais não foi que uma substituição de prisões, de novas formas de subjugar e de submeter. Um cair da frigideira para o lume.
O mesmo enredo para personagens diferentes, numa dicotomia a preto e branco, bem representada aqui no documentário pelo recurso estético ao preto e branco, com o objetivo de acentuar a carga dramática e emotiva das situações trágicas vividas nos primeiros anos da pós-independência de STP.

Apesar da tortuosa retórica nacionalista, a independência não trouxe a esperada liberdade. Não trouxe o fim das arbitrariedades, da secundarização, da subalternização nem subjugação do cidadão aos caprichos do poder, agora não no redutor binário branco/preto e suas variantes, mas antes num:

reacionário versus revolucionário,
corrupto versus impoluto,
amigo versus inimigo do povo (sobretudo o perigosíssimo numigo mansu!),
supostamente abastado versus o desafortunado de todas as eras,

e, obviamente, homem novo e independente versus homem velho e condicionado pela nefasta convivência com o opressor colono e joguete do imperialismo internacional.

Havia que fazer tábua rasa do passado e sobre os escombros construir um novo homem, uma nova pátria sob o ad nauseam propalado e propagandeado lema “construamos com as nossas próprias mãos uma pátria renovada”. A renovada pátria tarda em aparecer e a dita velha pátria prossegue a sua via-sacra da destruição… com as nossas próprias mãos.

Com outros protagonistas, mas com o mesmo intuito de, pela via revolucionária nas intenções e muito reacionárias nas práticas, num recorrente tudo mudar para que fique tudo na mesma, STP permanece prisioneiro numa sucessão de líderes “salvadores da pátria” sem que isso se reflita numa alteração consequente e substantiva das práticas políticas e impacto positivo no nosso asfixiante subdesenvolvimento.

Sucedem-se, sobretudo no regime democrático, quase sempre bem-sucedidas no plano militar mas sem suporte político (sobretudo o externo), as tentativas de golpe de estado para, pasme-se, regenerar a democracia enfraquecida pela corrupção. Mas, na verdade, mais não são do que golpes de força para obter benesses pessoais e ou de grupos, como parece evidente nos depoimentos de Arlécio Costa.
A senda, como pudemos ver no final deste belíssimo documentário de Jerónimo Moniz e do Nilton Medeiros, ainda não acabou, continua, pois falta ainda abordar as famosas e não suficientemente esclarecidas tentativas de alteração da ordem constitucional, um eufemismo para golpe de estado, alegadamente ocorridas na, politicamente falando, escaldante gravana de 2018.

Este quadro de permanente instabilidade política, mesmo quando há governos autoritários ou maiorias absolutas sufragadas nas urnas, não é propriamente uma especificidade do novo estado independente.

A História diz-nos que, já nos bem longínquos séculos XVII a XIX, período de forte declínio económico e de um certo abandono por parte da Coroa Portuguesa, as ilhas experimentaram também muita instabilidade política e institucional, guerrilhas institucionais, quezílias envolvendo os poderes de então (o Governador, quase sempre português branco, o Clero e a Câmara). Nos dois últimos casos o equilíbrio de forças era muito variável e instável, sendo que na Câmara, por força da demografia, dominavam os negros, como nos deixou escrito o padre Rosário Pinto, um clérigo negro sãotomense.

É essa história quase 500 anos de participação política ativa, nos mais altos cargos na condução das ilhas, que tende a ser esquecida, para não dizer obliterada, por uma narrativa nacionalista que nos leva a crer que só após a independência os sãotomenses e principenses tiveram acesso à gestão política das ilhas. Esse erro crasso está na génese das incompreensões mútuas entre os jovens governantes da pós-independência e as reais aspirações da população em 1974/1975.

Na ânsia pela independência e profundamente contaminados por ideias e ideais com origem em outras geografias e pensadas para essas realidades, os jovens nacionalistas menosprezaram as idiossincrasias muito próprias do processo de colonização das ilhas (no sentido demográfico e não político do termo) e conduziram-nas para um beco sem saída, ao retorno a impasses políticos que mais não fazem que retardar e comprometer o processo de desenvolvimento.

Não são necessários grandes dotes de análise política para se perceber que aqueles que se atreveram a pensar numa alternativa ao programa totalitarista, na sua génese, do MLSTP pagaram muito caro esse atrevimento.

Não é obra do acaso que muitos dos visados nas primeiras ditas tentativas de golpe de estado fossem dirigentes, familiares de dirigentes ou meros simpatizantes da efémera FPL (Frente Popular Livre).

Não é obra do acaso que mesmo os que não foram presos sentiram-se apontados e não tardaram em, como se diz, pôr as barbas de molho, alinhando com o regime ou (como fez uma boa parte) procuraram outras paragens para refazer a vida.

Nesse aspeto o regime acabou por ser bem-sucedido na sua manobra para condicionar os perigosos saudosistas, pois sabiam que, apesar de toda a propaganda de desacreditação, a verdade é que, a FPL tinha um programa que melhor servia as reais aspirações dos santomenses em 1974.

Foi pena os seus promotores não terem acreditado mais nas virtudes das propostas que apresentaram e sobretudo não terem manifestado uma maior ambição política, deixando-se embalar pelo canto de sereia do MLSTP e das suas propostas radicais de assalto ao poder, que, vai-se lá perceber porquê, se insiste em dizer que eram os moderados.

Esse condicionamento é de tal ordem que ainda hoje e apesar das evidências as pessoas que ousaram criar a FPL ainda se mostram incapazes de defender que tinham uma melhor proposta para STP do que a apresentada pelo MLSTP.

Os processos golpistas tiveram, na verdade, início ainda nas vésperas da independência, quando o MlSTP se livrou, através de um golpe interno, dos incómodos, e ainda mais radicais, elementos da dita Cívica que, alega-se, pretendiam, à revelia dos acordos de Argel, conquistar a independência pela via revolucionária expulsando pela força o que restava da exaurida administração portuguesa.

O desconhecimento, real ou forçado, do nosso enquadramento sociopolítico explica muitas das crises que o país vem conhecendo. O foco no colonialismo como a origem de todos os males da sociedade fez com que as pessoas, aparentemente, sublimassem as divergências, as diferenças de opinião, na expectativa de que as desavenças radicavam exclusivamente nas manobras do colonialismo para dividir para reinar, abordagem que sempre me pareceu mal fundamentada, apressada, para não dizer despropositada.

Temos, de uma vez por todas, saber ajustar a forma de governação às caraterísticas próprias de uma micro sociedade insular, crioula, atlântica e africana num mundo globalizado e de grandes blocos geográficos político-económicos. Em STP a distância entre o governante e o governado será sempre muito curta, os segredos nunca serão segredos bem guardados, os boatos e panfletos farão sempre parte do dia-a-dia social e político.

Esse quadro exige dos governantes ou aspirantes a governantes uma capacidade ímpar de diálogo, mas também de distanciamento dos muito pertinentes interesses pessoais para serem capazes de decidir e explicar conscienciosamente as decisões tomadas.

Só a transparência, a clareza e a justeza das decisões poderão atenuar os ressentimentos, os sentimentos de injustiça, as acusações de corrupção, compadrio e nepotismo por parte dos cidadãos. O Estado, com mais ou menos liberalismo, terá sempre um peso muito acentuado enquanto empregador e investidor.

Pergunta-se: porquê, ou para quê, trazer agora estes assuntos, muitos deles já com o código postal do esquecimento, reabrindo feridas antigas que se querem saradas e, de preferência, sem cicatrizes.

Respondo que nunca é de mais revisitar o passado, não com o intuito de reacender conflitos ou de perpetuar mágoas, mas tão e somente para esclarecer os mais novos para que, se puderem, possam evitar repetir os mesmos erros em circunstâncias similares, pois como já disse alguém, não é sinal de muita inteligência fazer a mesma coisa dia após dia e esperar resultados diferentes.

Muito obrigado.

Alcídio Pereira

Oeiras, 18 de Janeiro de 2020

    3 comentários

3 comentários

  1. SEMPRE AMIGO

    28 de Janeiro de 2020 as 23:14

    Soube,pelo anúncio no TÉLA NÓN, que apresentação do documentário SOMBRAS DO PODER iria ser feita por figuras ilustres, entre elas o santomense . ALCIDIO MONTOIA. Conhecedor da caneta afiada do apresentador santomense fiquei ansioso a espera de novidades.Confesso que não fiquei decepcionado.Fiquei no entanto sem perceber como é que um homem da craveira de dr MONTOIA pudesse embarcar em certas afirmações sem o mínimo respeito pelo CONTESTO em que tudo se desenrolou.Aquando da independência de S.TOMÉ E PRINCIPE o mundo vivia sob a influência de dois blocos, a saber, o bloco capitalista liderado pelos USA e o bloco socialista liderado pela UNIÃO SOVIÉTICA.Entre os meados de 1950 e1980 a luta de libertação dos povos africanos alastrou- por toda Africa. Em 1958 a França,potência colonial,receosa de perder o controlo do seu império,decidiu organizar uma consulta no seu império, para saber se os povos colonizados queriam continuar com a França, como região autónoma ou queriam ser independentes.Na altura o único território que decidiu pela independência foi a GUINÉ. SEKOU TOURÉ,dirigente sindicalista da GUINÉ rejeitou em 1958 a proposta feita ,num banquete pelo general DE GAULLE, com a célebre declaração:”NÓS PREFERIMOS A LIBERDADE NA POBREZA Á RIQUEZA NA ESCRAVIDÃO.”Essa palavra de ordem “incendiou” os espíritos em toda Africa,reforçou a determinação dos combatentes da liberdade.Os nacionalistas do continente africano , nomeadamente os de Angola(MPLA), MOÇAMBIQUE(FRELIMO),GUINÉ E CABO VERDE(PAIGC),S.TOMÉ E PRICIPE(CLSTP),encontraram refúgio na GUINÉ CONAKRI. Foi também nessa altura é que PORTUGAL consegui o apoio da NATO,quando essa organização decidiu classificar de TERRORISTA a todos os MOVIMENTOS NACIONALISTAS.Aos movimentos nacionalistas não restava outra alternativa.O único recurso ,para garantir o indispensável apoio á continuidade da luta pela libertação era o bloco socialista.Não estava em causa o problema ideológico,estava sim em causa a libertação dos nossos povos do jugo colonial.Os combatentes da liberdade não se alinharam ao bloco socialista por identidade ideológica,mas sim pelo facto das potências ocidentais terem negado, solidários com Portugal,todo apoio aos Movimentos de Libertação,catalogados de terroristas pela NATO. Com o derrube do regime salasarista, os capitães e as novas forças políticas estavam mais preocupados com a consolidação do recente poder conquistado do que com as eventuais lutas internas dos partidos nas suas colónias.O novo poder em Portugal estava interessada em resolver o mais rapidamente possível a agenda colonial Aliás,como já é sabido, todo o processo de luta do povo português ,que culminou com o25 de Abril,foi foi vantajosamente influênciada pela luta dos povos nas colónias portuguesas.que Daí que o novo poder em Portugal não estava , nem interessado, nem preocupado com as reinvindcações dos conterraneos africanos nas colónias portuguesas que desejavam um estatuto diferente do da independência.O novo poder recente anti-colonialista estava apressado em encontrar o interlocutor ÚNICO ,com aceitação suficiente do povo, a quem entregar o poder.Aliás todas as potências coloniais em Africa tiveram como preocupação orientadora entregar o poder a um único partido.Era mais fácil,penssavam eles, lidar com o poder instalado com a liderança de um único,partído,
    salvaguardar , depois da “independência”, os interesses económicos da potência colonial. O SURGIMENTO DO PARTÍDO ÚNICO RESULTOU, POR CONSEGUINTE, DE UMA ESTRATÉGIA PREVIAMENTE CONCEBIDA PELAS POTÊNCIAS COLONIAIS,antes de “abandonarem “o poder. Daí que a FPL,caro dr,MONTÓIA, mesm que ”os seus promotores acreditassem mais nas virtudes das propostas que apresentaram”,não teriam, no contexto de então, qualquer chance de conquistar o poder.N ÃO TINHAM POVO. Estou de acordo consigo,DOUTOR,quando escreve:”Temos ,de uma vez po todas, saber ajustar a forma de governação ás características próprias uma micro-sociedade insular, crioula,atlantica e africana num mundo globalizado e de grandes blocos geográficos político-económico” Temos sobretudo que prestar uma atenção aturada a nossa história.Quem somos nós, donde viemos? Será que somos a síntese racial e cultural de de origem diversa? Segundo o historiador americano ROBERT GARFIELD,no seu livro “UMA HITÓRIA DA ILHA DE SÃO TOMÉ 1470-1655”,S TOMÉseria”um retrata da primeira verdadeira sociedade euro- africana que se tornou, sem intenção, num modelo para muito do que se deveria seguir nos quinhentos anos da história mútua africano-europeia”. Referindo-se á data da independência 1975 GARFIELD escreve:”Naquele anosos descendentes dos colonos originais de S.TOMÉ-africanos,portugueses,judeus e,de fato.muitos outros-finalmente ganharam politicamente o que eles já tinham alcançado social e históricamente-o reconhecimento como uma sociedade distinta e única com sua própria essência e identidade”Mais adiante GARFIELD conclue dizendo que pode levar anos mas “teremos um registo completo de uma sociedade única desde o seu nascimento até conseguir um lugar separado na cena política no mundo contemporâneo.Talvez a história completa de S.TOMÉ venha a ser o que a ilha sempre parece ter sidio,um modelo ou l laboratório para uma experiência na civilização tropical e na existência histórica inter-racial e inter-cultural”

  2. SEMPRE AMIGO

    29 de Janeiro de 2020 as 10:17

    Esqueci-me de assinar:SEMPRE AMIGO.

  3. SEMPRE AMIGO

    31 de Janeiro de 2020 as 13:16

    Os nossos historiadores santomênses têm a honrosa tarefa de nos devolver a nossa real identidade.MÃOS Á OBRA! Ajudem-nos a sair “do beco sem saída” referido na exposição do nosso ilustre apresentador,DOUTOR ALCÍDIO MONTOIA.

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