Opinião

O papel das jovens gerações no desenvolvimento da nação santomense

O PAPEL DAS JOVENS GERAÇÕES NO DESENVOLVIMENTO DA NAÇÃO SANTOMENSE

Desde que regressei definitivamente ao país há poucos meses, afirmei em várias ocasiões que já não faço política partidária. Fi-lo décadas à fio, mas entendo que chega, que há outras coisas que posso fazer como contributo para o desenvolvimento da nação. Sei fazer outras coisas as quais, sendo úteis, me dão imenso prazer. Assim dedico-me à revitalização da Fundação Mãe Santomense que criei há quase vinte anos e a conversar e trabalhar com jovens e partilhar uma experiência de décadas de trabalho no país e no estrangeiro, quer no sector público quer no sector empresarial privado aos mais diferentes níveis. Não renuncio a ter um olhar crítico sobre o meu país, a aplaudir o que julgo bom para a nação e criticar o que julgo ser nefasto. Se muitas vezes posso parecer mais critico isso se deve apenas ao facto de infelizmente surgirem mais razões para ser critico do que para aplaudir.

O “Problema de São Tomé e Príncipe” não tem solução à curto e quiçá nem a médio prazo.

STP é uma “democracia imperfeita” e em qualquer desenvolvimento futuro, importa sempre manter a “democracia”, mas ela tem de ser aperfeiçoada. Assim sendo, é ou devia ser fundamental o papel dos partidos políticos que são peças fundamentais de qualquer democracia. Infelizmente é de se esperar muito pouco de bom vindo dessas bandas com a conformação e o estado actual das várias forças político-partidárias no nosso país. É que em STP, os partidos atuais são mais parte do problema do que parte da solução.

Se faz como então? Como diria o luandense…

A sociedade santomense terá que se reinventar. Terá que ir ao seu reservatório natural para, do seu ventre libertar forças capazes de um “safanão ressuscitador”; o país precisa de um abanão que o faça acordar da “letargia-quase coma” em que está mergulhado. Desse abanão, que a meu ver terá lugar nos próximos dez a quinze anos, salvar-se-ão e serão relevantes apenas aqueles partidos que forem capazes aproveitar essa onda de choque para se renovar e modernizar, abandonar posturas, praticas e comportamentos negativos e navegar em direção ao progresso. Dentro de dez quinze anos veremos o resultado da passagem do que eu chamo de uma “calema desenvolvimentista”.

Quinze anos não custam a passar… e os jovens que hoje têm 20-30 anos, estarão na casa dos 35-45.

Infelizmente os esforços das gerações mais velhas, nas quais me incluo, se foram suficientes para viabilizar o parto da independência, mostraram-se insuficientes, incapazes mesmo, diria eu, de orientar a nação para trilhar os caminhos da prosperidade. A geração dos que se seguiram, a dos 45-60 anos não fez melhor.

E agora? Questiono-me eu…

É aqui que, na minha opinião, entra a geração mais nova, com muita gente válida e qualificada, com mais qualificação e competência relativamente à minha, tanto no país como na diáspora. Essa geração não pode e não deve ficara observar de forma passiva a sangria e colapso da nação, nessa verdadeira tuna a que assistimos hoje. Chega de, permanecendo na sua zona de conforto, culpar indefinidamente “os mais velhos” porque fizeram isso ou aquilo, porque não fizeram isso, não fizeram aquilo, chegando mesmo em alguns (felizmente raros) casos a demonizar quem se bateu pela independência dando-lhes uma nação livre que têm, isso sim, de desenvolver com trabalho competente e dedicado. É o mesmo que critico em todos aqueles da minha geração que buscam no colonialismo explicação e justificação para todos os nossos males de hoje mais de quarenta anos após a independência, calando muitas vezes a nossa própria incompetência.

Tenho dito e repetido a jovens com quem converso que há que introduzir na “questão santomense” uma “dimensão demográfica” sem o que ficamos como a aranha na sua teia… com isso, e de forma sucinta, quero dizer que os mais velhos terão que deixar a política um dia desses, mais cedo ou mais tarde, quer o queiram quer não; os mais jovens terão inevitavelmente que assumir a gestão do país. Nós os mais velhos estamos indo, eles, os mais jovens estão vindo… é a lei da vida, é o tempo que não para…

Todavia, compreendo em boa medida uma certa renitência da parte de muitos jovens a “entrar na política” hoje. É que o panorama político santomense não é convidativo. Uma vez, quando ainda era militante e dirigente do Mlstp eu citei uma frase muito popular da cultura santomense que diz: “Kuá ku um bê ni bodó côssô, txila mu vonté de cumé zêtê” em tradução livre, “o que vi à volta da canoa de pisar andim para fazer azeite de palma, tirou-me a vontade de comer azeite de palma”… penso ser isso o que se passa com muitos jovens.

Hoje tenho quase 70 anos. Digam-me em que partido político estarei a militar, em que governo estarei eu a governar dentro de 10, 15, 20 anos? Necessariamente estarei morto politica, senão mesmo fisicamente; eu e grande parte dos da minha geração. E a geração que se segue? E a que lhe segue?… Esses serão chamados sucessivamente a assegurar a gestão da coisa pública… e isso é independente de o quererem ou não. Na política e em particular na construção de uma nação, as gerações se sucedem. Não existem exemplos de construção de uma nação feita por uma geração só. As gerações se sucedem como numa corrida de estafetas em que cada geração corre a sua etapa o melhor que pode e depois passa o testemunho da melhor forma possível, para o que se preparam elas próprias para transmitir e a geração seguinte para receber (o testemunho), não deixando essa operação à obra do acaso. Nas provas de estafetas essa transmissão de testemunho é praticada vezes e vezes sem conta porquanto ela é decisiva para a vitória (ou derrota) final… não passa devidamente o testemunho e… perdes a corrida. É o que está acontecendo conosco.

É por as gerações mais velhas não terem compreendido e assumido essa dinâmica civilizacional que chegamos até aqui. O maior erro que nós os mais velhos cometemos (refiro-me à minha geração e à que me antecedeu, a dos chamados de “país da independência”) foi o de não terem identificado e preparado os líderes que lhes haveriam de suceder. Antes pelo contrário, em muitos casos, alguns deles se comportaram como o velho galo na capoeira que vai decapitando todo o frango que se assoma. Por isso chegamos até aqui, um barco sem capitão, um exército sem generais, um país com muitos “chefes” e com poucos (se é que os há) líderes…

De modo algum se poderia exigir que essas gerações construíssem o novo país de A a Z a partir da herança colonial, não! Isso seria impossível e isso não existe. Teriam apenas que fazer o que podiam e sabiam e passar o testemunho.

É bom que as gerações mais jovens saibam que na política não há vazio. Lembram-se das lições de físico-química em que aprendíamos que “a natureza tem horror ao vazio”? Pois é, na política também é assim e sabe-se que, feliz ou infelizmente, é a política que comanda no desenvolvimento de uma nação. Portanto, se os jovens sérios, patriotas e competentes se abstêm de assumir a tarefa de assegurar a gestão do desenvolvimento nacional, não pensem que os menos sérios e incompetentes ficarão de braços cruzados. Não ficarão não; esses tomarão o lugar de condutores desse autocarro. Deixando a condução de um autocarro com toda a nação a bordo nas mãos de gente incompetente, corrupta e sem escrúpulos, não esperem milagres…

Não podemos cometer os erros do passado, reduzir a juventude a caixas de ressonância de práticas e erros dos mais velhos. Isso seria um erro de lesa pátria! Mas, infelizmente, é isso que vejo acontecendo hoje.

É questão para se perguntar “quem tem medo da juventude”?

Carlos Tiny

    12 comentários

12 comentários

  1. Micoló

    2 de Março de 2020 as 20:11

    Parabéns pelo artigo Sr Tiny. Mas neste país não dão valor aos jovens. Só para servir mais velhos. Muito triste

  2. Gelson Baía

    3 de Março de 2020 as 0:52

    Excelente e Inspirador!
    De facto, é urgente que a nova geração assuma um papel mais activo sobre a vida política do nosso país. Nós, a juventude de São Tomé e Príncipe, temos a responsabilidade de fazer a diferença.

    Obrigado pelo testemunho, caro Dr. Carlos Tiny

  3. Sotavento

    3 de Março de 2020 as 8:51

    Grande artigo e lo felicito Sr.Carlos Tiny.Espero que esta chamada de atenção sirva para que mude um pouco o andar das coisas.

  4. Vergonha

    3 de Março de 2020 as 11:10

    A crítica é bem vinda. Porém o senhor foi um de aqueles que também fez parte do sistema.
    Defendo a transformação do país para protectorado. Os políticos já não enganam ninguem

  5. Fuba cu bixo

    3 de Março de 2020 as 17:12

    Falar assim tudo muito bonito mas na prática deste a independência todos entraram jovens só que nunca foi para servir o pais para servirem-se dele e enriquecer e o país anos após anos foi se empobrecendo e esta agora uma calamidade.
    Foram dado aos jovens oportunidades na política mas tem sido uma desilusão a política só esta a produzir jovens ricos fruto da corrupção e roubalheira.

  6. Arlindo Pina

    3 de Março de 2020 as 23:19

    Boa noite,

    Tenho respeito por si, mas quem lê esse artigo fica com a ideia de que o Sr. serve os interesses por prevaricadores.

    Diz-se com frequência que o país não tem recursos e por isso não faz mais pelo povo ou não cumpre melhor algumas das suas funções.

    Veja-se, se não há dinheiro para gastar com os hospitais, com os professores, com as polícias, com os bombeiros e os demais sectores públicos, como é que há sempre dinheiro para comprar carros novos para o Estado, pagar privilégios aos “SENHORES”?

    O Tribunal de contas tem um veículo novo, fruto da irresponsabilidade de gestão da “coisa pública” pública. E eu que sempre ouvi que o recém eleito presidente do TC que é seu amigo, é um homem sensato. Porquê que o Dr. não critica esses comportamentos? Porquê que prefere a abstracão?

    Não nos engane senhor Dr….se quiser ser sério, tem que fazer mais

  7. Toma vergonha na cara

    4 de Março de 2020 as 17:08

    O senhor foi um daqueles que fez (ou faz) parte desse sistema antigo, e sabe perfeitamente como funciona o vosso pensamento! Se acabou «mama», não venha para cá tentar ludibriar os jovens com essa conversa: vocês são todos sanguessugas, que não dão oportunidades aos jovens. Basta vê quem governa este país (são sempre os mesmos, e muitos nem têm competências!) Portanto, não venha para cá fazer-se de bonzinho ou dá lição de moral!

  8. tudo está dificil

    5 de Março de 2020 as 8:15

    O autor certamente deve estar com consciência pesada. Isso acontece quando as pessoas ficam velhas. Recordo me que antes o autor e seus camaradas não davam oportunidades aos jovens. Agora está com remorços.
    Todavia mais vale tarde do que nunca.

  9. Coerencia

    5 de Março de 2020 as 19:29

    O Sr. Tiny tem a certeza? Neste país quem mais dá oportunidade aos jovens é Patrice Trovoda!!!

  10. Antonio

    5 de Março de 2020 as 21:21

    Tem de “chamar os bois pelos nomes” e convocar os culpados da catástrofe a terreiro para um grande reconhecimento dos erros cometidos. E compensarem a Nação pela roubalheira… Assim, bem instalados “nas suas sete quintas” sem serem incomodados, não haverá juventude válida que se entusiasme. Sabe que vai patinar no charco!
    Sem “paixão “ não haverá redenção?!

  11. LIBREVILLE

    6 de Março de 2020 as 12:30

    Gostei esta frase, um texto exemplar, gostei, parabéns…

    “Não existem exemplos de construção de uma nação feita por uma geração só”.

  12. Isabel de Santiago

    6 de Março de 2020 as 12:34

    É sempre um consolo poder ler gente que sabe escrever e gente que sabe escrever com rigor e elevação intelectual e, sobretudo: RESPEITO. O estado e sobretudo q justiça estão em colapso. Rude se atribui à política e de facto, os velhos, são responsáveis e os jovens ainda mais. Porque importam os modelos VICIADOS DOS TACHOS REPPETIDAMENTE. Para quem como tu, um inteligente homem, conhece q minha carteira, sabe e digo com ARROGÂNCIA – não preciso de tachos. São Tomé nunca teria como me pagar… faço e servi o País com amor. E suportei todos os custos. Os jovens perderam o futuro. E Hoje, quando vejo NAS REDES SOCAIS que alguns santomenses já se questionam sobre o Álcool e drogas, é porque os títulos impressionaram. E os artigos científicos sairão em breve. E tenho ORGULHO em ter mostrado uma realidade com EVIDÊNCIA CIENTÍFICA. PARA MUDARMOS, basta reconhecermos. Mudar os peões e recomeçar o JOGO. Afastar corruptos velhos e irreversíveis maus gestores que enriquecem à custa de uma pobreza e DESUMANIZACAO GRITANTES.
    Hoje o corpo da CATARINA BASTOS DE SOUSA e velado na BASÍLICA DA ESTRELA, em lisboa. Tenho vergonha desse País. E ainda mais vergonha que o Primeiro Ministro que ajudei a eleger – NÃO SOU E NUNCA SEREI MILITANTE DE UM PARTIDO DE MENTIRA – seja um político fraco. TAO FRACO QUE NÃO ASSUME os negócios do álcool e o BURDEN E YLL ASSOCIADOS AOS CONSUMOS EXCESSIVOS. E não ponha essa ministra que não serve a psicologia comportamental – ela é uma criminosa social – e menos a justiça.
    Pior que ela é o empregado dos Valle Flor. A COVID-19 está em Senegal. Se por Lisboa se prevê um pico pandémico é difícil capacidade de resposta, que Deus Proteja SÃO TOMÉ. Porque as autoridades NUNCA SERIAM NEM SERÃO CAPAZES

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