Opinião

Civilizar o amor na pestilência alheia

Com preocupação, e assim se diga aos olhos de todos e sem notar indiferença alheia alguma, temos vindo a assistir, a partir do pano ensombrado dos telões mundiais, a reprodução das imagens fílmicas dos abundosos enfermiços, grandes dores e angústias, e de interrupções de vidas ao mando do dilacerante coronavírus – o Covid-19 ou o Sars-CoV-2 –, que só à lupa é possível ver.

Os casos já projetados dessa pandemia são horripilantes, e por todo mundo tem-se constatado um vazio interior auscultado por todos nós, receio e fobia, um amedrontamento à semelhança daquilo que escrevera um articulista e amigo, recentemente: «a barcaça do mundo parecia controlada e certinha, sob o leme da eficácia da técnica, mas, de um momento para o outro, o medo voltou a entrar». Diga-se o que se disser, todos nós temos receios, ou mesmo medo, que esta dolência, visitando as nossas casas, consiga entrar pela porta adentro.

A este respeito, inúmeras são as medidas acautelatórias que a Organização que rege a saúde de todos os ângulos dos hemisférios, a OMS, tem-nos inculcado para driblar a proliferação desta pestilência.

Creio que era inadiável a nossa permanência estática, no contentamento dos serviços mínimos, e a contínua ingenuidade em pensar que somos imunes a tudo aquilo que acontece aos outros, que o mal alheio nunca nos baterá à porta ou, ainda, que as temperaturas tropicais húmidas são desfavoráveis para a presença dessa peste; talvez, em caso extremo de positivismo.

Mas, era preciso colocar em ativo os estratagemas de ataque: se não temos capacidades bélicas para, capazmente, atacar a força inimiga, ao menos criemos trincheiras que nos possam ajudar a resistir ou esconder dos inimigos – isto é um dos apelidos da arte de guerra.

Ao contrário disto, escusado será dizer que, pelas reclamações sanitárias, estaríamos expostos ao homicídio coletivo nesta ilha onde todos julgam saber tudo. Talvez a maior e – atrevo-me a dizer – a única solução vigente, sem menosprezar as demais medidas interpostas pelos homens governamentais, seja a quarentena obrigatória (à semelhança de medidas adoptadas por alguns países ou regiões autónomas) para todos os cidadãos, nacionais ou estrangeiros, que deixarem poisar os seus pés no solo de mind’jan (remédios feitos à base de ervas), seja por vias aéreas seja por marítima. Pois, a vida só por si, diz-nos o poeta, é uma coisa bela, única e não deve ser colocada à prova.

E, tão certo sinto que seja por isso que têm aumentado as marés de solidariedade para com os profissionais de saúde, que têm ombreado esta causa, expondo-se ao cuidado dos outros, com desejos de erradicar esta praga que a muitos já ceifou vidas: o homem, naturalmente, almeja viver. Por isto, é tempo perfeito para nos abraçarmos com sorrisos; e, em meio do pânico, os pequenos gestos geram infinitas gratulações.

Pois a civilização do amor na pestilência de outrem, é re-construir o mundo na esperança de que «tudo acabará bem». Afinal, já são mais de dois milénios em que a humana pessoa tem-se pelejado contra afecções que foram surgindo (ex., temos a peste negra que tinha dizimado um terço da população europeia, no séc. XIII)!

Ass.: Francisco Salvador

    8 comentários

8 comentários

  1. Carlitos N.

    18 de Março de 2020 as 23:26

    Muito bem pensado…Abc

  2. Visionário

    19 de Março de 2020 as 16:07

    Texto está muito bem redigido, gostei! Porém, há um excesso de palavras difíceis…

    • Palavra esquecida

      20 de Março de 2020 as 8:06

      É normal que a novidade cause em nós alguma estranheza, como diz o poeta: «primeiro estranha, depois entranha»; mas, nem sempre, o que é novo deve ser visto como bloqueio; também pode ser visto como oportunidade para Aflorar o nosso, quase limitado, reduto de conhecimento, neste caso gramatical, se se realmente quisermos. As palavras desejam, ardentemente, serem conhecidas por nós!

  3. Diogo Carvalho

    19 de Março de 2020 as 16:09

    Sempre a nos brindar com temas atuais…para frente, companheiro!

  4. Filho da terra

    19 de Março de 2020 as 16:11

    É verdade; De facto, é tempo de olhar para o sofrimento do outro com amor…

  5. Nelito

    19 de Março de 2020 as 16:15

    Gostei dessa frase “ Creio que era inadiável a nossa permanência estática, no contentamento dos serviços mínimos, e a contínua ingenuidade em pensar que somos imunes a tudo aquilo que acontece aos outros, que o mal alheio nunca nos baterá à porta ou, ainda, que as temperaturas tropicais húmidas são desfavoráveis para a presença dessa peste; talvez, em caso extremo de positivismo“. Parece que esses homem queria deixar vírus vir pra aqui primeiro para agir…
    Ainda bem que presidente assina só decretou estado de emergência, senão era chorar só….

  6. JBJ

    21 de Março de 2020 as 17:48

    O governo tem feito tudo para que essa pandemia chega cá ao país…

  7. São-tomense indignado

    21 de Março de 2020 as 17:53

    Agora já não é quarentena domiciliar? Criaram um aparato militar no aeroporto como se fôssemos inimigos do país. Nós vamos sair de hotel sem nada, não somo nós que vamos trazer doença pra aqui não….

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Topo