Opinião

(Re)pensar as nossas relações confinadas

Costuma-se dizer que há mal que vem para bem. Porém, não quero com isto fazer uma apologia à pandemia do coronavírus nem exaltar a sua propagação nem a sua chacina. Como em tudo – ou quase tudo – há sempre dois extremos que podemos enxergar: os do lado negativo e os do positivo, evidentemente; embora, tendencialmente, o nosso pendo se incline mais para o lado onde tudo parece-se ser negativo.

Talvez, porque julgamos ser per-feitos (do latim “perfectum”: acabado ou feito até ao fim ou completamente terminado) e os demais contrários à nós. Mas, de negativo já basta o sofrimento e, consequentemente, a morte que este e tantos outros vírus trouxeram para a humanidade, com as restrições que nos fizeram (e fazem) estar, ainda mais, distantes uns dos outros. A desassombrada realidade é que todos, nós e os outros, coabitamos este mesmo mundo, onde as pessoas têm procurado refúgios nos ecrãs negros, no universo virtual, distanciando-se assim dos convívios e das relações interpessoais, fisicamente falando.

A propósito deste mundo, bem como as coisas boas que nela encontramos, há uma variedade de teses em torno do (re)aparecimento desta epidemia, e muitas delas vinculadas a teoria da conspiração; e sobre esta, há quem diga que estamos a ser retribuídos, tal como justifica a tradição teológica deuteronomista sobre o sofrimento humano, pelas nossas más ações – uma hipótese que, na minha modesta opinião, não encontra, para já, um fundamento lógico. Pois, a justiça divina é “uma justificação, uma outorgação de dons e mediações”, e não meramente retributiva.

E acredito que há coisas – estas e outras – que acontecem porque assim devem acontecer: não existem coincidências nem respostas para tudo, é verdade; existem acontecimentos que marcam ou desmarcam a nossa vida (e, quem sabe, um dia, falaremos sobre isto). Exaltemos, então, os efeitos positivos de estarmos confinados, embora não seja algo que mereça todo o nosso agrado!

Em meio à tudo isto, com o advento de uma nova crise económica que receia-se chegar, podemos ver que esta epidemia, que acarreta já uma grande taxa de mortandade, também, trouxe-nos a oportunidade para uma maior proximidade, com aqueles que connosco partilham o mesmo telhado: há pais que saiam de casa e regressavam, diariamente, sem que os filhos os vissem; há casais que estavam à beira de uma separação, devido os excessivos trabalhos ou a falta de presença, sobretudo, paternal no seio familiar; e outras degradações familiares preocupantes e profundas, resultante de transformações humanas e societárias cheias de consequências.

Este tempo é oportuno para (re)pensarmos nas nossas relações, quer com as nossas famílias quer com os nossos verdadeiros amigos, e entrelaçá-las ainda mais. Enfatizo “verdadeiros amigos” porque, julgo eu, se tratar de um dos grandes males que têm atingido a humanidade, em tempos recuados e mais recentes: caímos com facilidade no erro de pensar que as amizades virtuais são as melhores do que as reais, esquecendo-nos que as amizades para serem verdadeiras é preciso fazê-las saírem da virtualidade para a realidade, o lugarejo onde tudo se dá sem disfarce (se se forem verdadeiramente).

Oxalá este período nos ajude a concertar as nossas relações, tanto as familiares como as amigáveis, e que elas sejam, verdadeiramente, confinadas mas não ilusórias!

Ass.: Francisco Salvador

    5 comentários

5 comentários

  1. Carlos Tavares

    15 de Maio de 2020 as 9:09

    Repensar as nossas relações confinadas é um apelo que pode nos servir para todos os níveis, incluindo a nossa política. Texto muito simples mas profundo. Continue…

  2. Filho da RA

    15 de Maio de 2020 as 9:20

    Li duas vezes, recomendo, pois a sua prática tem um efeito muito relaxante…os meus sinceros parabéns ao autor do artigo

  3. Ana Paula Pata

    15 de Maio de 2020 as 11:52

    Texto mto bem escrito. Parabéns.
    Retrata o passado e o presente, faz-nos refletir sobre o que podemos fazer com o que temos em casa, nesse caso cm as relações que mantemos com aqueles k estão confinados connosco. Por outro lado, abre tb uma visão para as relacoes exteriores, as de amizade, que muitas vezes de verdadeiras nada têm…

  4. estefània

    15 de Maio de 2020 as 18:52

    aí se todas as realidades fossem igual. Em São Tomé a sobrevivência de maior número da população vive de queima de carvão, pesca, venda ambulante e campos. A contrário de quem vive na Europa ou outros continentes que saí de manhã e deixa a família toda a dormir e volta encontra as famílias a dormirem. gostaria apenas saber se esses de Santa Catarina, Neves, ponta figo, Guadalupe, trindade, monte café, galo cantá,Santana, agua e zé, por aí….
    como esses camponeses estão no confinamentos?
    os que não têm fundo monetários e despensa cheia como estão?. isto doí muito no fundo de coração.

  5. O Parvo

    19 de Maio de 2020 as 20:59

    É estes tipos de pensamentos que a nacao agradece…uniao com os nossos

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