Opinião

A virose do amor: o ser humano solidário

Voltar a falar do ser humano, naturalmente bom, ou do homem que seja capaz de olhar para o outro com esse mesmo olhar que o Outro, sendo não-outro, olhou-nos (e olha sempre), é acreditar na Humanidade, verdadeiramente, humana e com o coração de carne.

Esta etapa pandémica de provação, e nota-se um pouco por todos os ângulos, tem nos ajudado a despir o nosso olhar insensível do quotidiano, talvez, lá no fundo, porque estamos a ser assaltados pela consciência da nossa vulnerabilidade e de quão frágeis nós somos – por conseguinte, da vida que desaparece como a fumaça em direção ao céu – e pelo incontornável sentimento de estarmos todos ombreados na mesma jangada, onde a maré que tem arrebatado os outros, também pode ser a mesma que, com o seu tumulto, nos poderá lançar para as profundezas do mar.

Certo é que não tem cessado as ondas solidárias, a virose do amor, com aqueles que têm lutado com pouco ou coisa alguma para se manterem firmes no sopro vital: os sobrevivos da sobrevida. Somente isto é suficiente, porém!

Na configuração do poeta Tolentino Mendonça, este tempo do “naufrágio” tem nos ajudado a (re)descobrir o modelo fundamental de vida. Para o mais recente Cardeal português, “os verdadeiros heróis são aqueles que, no fundo, dão a vida pelos outros”, tal como ensinara e fez, há mais de dois mil anos, uma das figuras mais importantes e inolvidável da história da Humanidade, numa manhã primaveril, por volta do ano 30 da era cristã. E, de facto, temos vindo a contemplar o rosto Daquela figura nos heróis (e heroínas) da nossa sociedade, particularmente são-tomense, mesmo com a variedade de nitidez de uns para os outros, pessoalmente ou em multidão – um pouco de tudo, mas com um e único sentimento, penso eu: olhar o sofrimento dos outros.

Porém, há uma inadiável interrogação que podemos colocar a nós mesmos ou partilhá-la com os outros, sobretudo com os tais, já conhecidos, bons cirenaicos. A questão é esta: essa gente – as mesmas que têm entregue as suas vidas pela salvação das outras, essas mesmas que temos vindo a enxergar, sem parar, na correria pelas extensões arquipelágicas ao encontro daqueles que realmente necessitam, essa gente que aliás tem sido amorosa e generosa hoje – permanecerá assim na etapa pós-pandemia? Ou seja, será assim, também, quando tudo regressar à normalidade? É uma pergunta de resposta difícil, que fica em suspensão, pelo menos por agora, mas que cada um de nós, no discernimento pessoal com a sua consciência, poderá responder no tempo a que se espera.
Porque, tão certo estaremos, se esta etapa não for capaz de desmontar o nosso coração, arrancando dele todo o nosso egocentrismo e a nossa megalomania (atitudes éticas de alguém que julga-se ilimitado e blindado), todos estes gestos solidários serão (re)vistos, no futuro aconchegado, não como uma humana pedagogia sobre a caridade ao serviço do outro, mas somente como um “show-off”, como um brilhante momento de oportunismo findado, porque “o suficiente é para quem não ama; no amor, só existem infinitos” (Mia Couto) – e, deixar morrer alguém que luta, implorando pela vida, por falta de meios especializados ou por medo da própria morte, é não amar o outro desinteressadamente, é ficar somente pelos serviços mínimos, revelando assim uma falta de Humanidade.
Ainda assim, acredito numa Humanidade transformada, em que os pobres não serão descartados como “lixo humano”, mas sim reciclados no (com) amor, traduzido em gestos concretos e permanentes, que vão para além da entrega de um simples cabaz e das exibições fotográficas nas redes sociais ou noutros meios de comunicações – tudo isto não deixa de ser um sonho, porém!

Ass: Francisco Salvador

    5 comentários

5 comentários

  1. Maria Teresa Cristina

    12 de Junho de 2020 as 23:24

    Parabéns Francisco. Amei o teu post

  2. Mesaque Ernesto Manuel

    13 de Junho de 2020 as 15:51

    Bela reflexão comparsa. Grande abraço. Diretamente de Moçambique.

  3. Maria das Neves

    14 de Junho de 2020 as 10:29

    Uma reflexão consciência e estimulante. Este artigo diz tudo que atualmente estamos a fazer, e projeta o nosso olhar para o futuro. Parabéns, Salvador!

  4. Sérgio Junqueira

    14 de Junho de 2020 as 10:34

    Disse tudo e mais alguma coisa. É de louvar! Adorei, particularmente, a citação do grande escritor moçambicano Mia Couto, «o amor não é suficiente, é infinito». A caridade não é só para os camaradas, é para toda população!

  5. Catambe

    14 de Junho de 2020 as 10:37

    Li e reli, digo pra você que escreveu: parabéns e obrigado…Está mau dele.

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