Opinião

Os desafios da mulher são-tomense para a sua plena emancipação

A minha participação, como orador, na Conferencia Internacional da Mulher São-tomense, organizada pela Mén Non, sob o tema: “ O Papel da Mulher São-Tomense na Construção e Desenvolvimento de São Tomé e Príncipe”                                            

OS DESAFIOS DA MULHER SÃO-TOMENSE PARA A SUA PLENA EMANCIPAÇÃO

(Uma abordagem pensando no futuro mas com ensinamentos do passado)

Caríssimas Responsáveis da Mén Non

Senhoras e Senhores participantes desta Conferencia virtual, por ocasião da comemoração de 19 de Setembro e do 10º aniversário da constituição de Mén Non.

Antes de mais as minhas maiores felicitações a todas as mulheres são-tomenses, pela comemoração do seu dia nacional.

Gostaria de aproveitar essa ocasião para manifestar o carinho que tenho para com a Mén Non e pelas suas estimadas responsáveis. Entre outras razões, gostaria de realçar o facto de, durante os sete anos da minha permanência em Portugal, na qualidade de Encarregado de Secção Consular da Embaixada de São Tomé e Príncipe, encontrei por parte desta Organização dinâmica todo o apoio e colaboração para o desempenho das minhas funções consulares. Por essa razão que, quando fui contactado para participar nesta Conferencia com apresentação de um tema, aceitei com muito prazer, apesar de coincidir com a sobrecarga de outras tarefas impreteríveis.

Quero também cumprimentar as ilustres oradoras desta Conferencia, num painel de oradores de que sou o único homem, facto que, para mim é uma grande honra.

Minhas Senhoras e meus senhores,

No quadro do tema da Conferencia, “O PAPEL DA MULHER NA CONSTRUÇÃO E DESENVOLVIMENTO DE SÃO TOME E PRINCIPE”, propus-me refletir sobre “O Desafio da Mulher São-Tomense para a sua Plena Emancipação”, numa abordagem diferente, pensando no futuro, mas sempre com os ensinamentos do passado.

Não pretendo fazer uma resenha histórica acerca do dia 19 de Setembro, pois, disto já se falou e se escreveu muito ao logo desses anos, desde o heroico acontecimento em 1974. Do mesmo modo, já se fez muitas análises sobre a participação da mulher no desenvolvimento de São Tomé e Príncipe, antes e depois da nossa independência. Por isso é que vou fazer uma abordagem diferente, pensando no futuro, mas sempre com os ensinamentos do passado.

Sempre se reconheceu a valiosa contribuição da mulher são-tomense no desenvolvimento de São Tomé e Príncipe, mas nem sempre se valorizou essa contribuição.

A mulher são-tomense foi sempre resiliente e batalhadora na sua condição de mãe solteira para sustentar e educar os filhos, muitas vezes sozinhas sem ajuda do pai, mas também como dona de casa.

Quero primeiramente descrever a realidade que se vivia antes e num determinado período pós independência. Hoje, a situação dessas mulheres não mudou muito, infelizmente.

Como mães solteiras, só lhes restavam fazer pequenos negócios no mercado mais próximo ou a frente de casa.

As palaiês, como vulgarmente as chamamos, normalmente se ocupavam da venda de produtos hortícolas produzidos no quintal, pequenas colheitas tiradas das suas pequenas glebas, como fruta-pão, bananas, matabala, jaca, safú, manga, etc. Para alem de tarefas de natureza comercial, há ainda outras, relacionadas com as lides caseiras que são desempenhadas depois de regresso a casa ou em simultâneo, como cozinhar, lavar roupa e cuidar da limpeza da casa e do quintal.

Grande parte dessas senhoras não sabiam ler nem escrever um texto, mas sabiam ler o mundo, como dizia Mia Couto num dos seus textos. Não sabiam a contabilidade mas dominavam as contas, sabiam estabelecer preços, tinham a noção da Lei da oferta e procura, sabiam lidar com a concorrência, conceitos base da economia. Ninguém lhes enganava nos seus negócios.

A minha avó paterna, San Semoá, era vendedora de peixe e não sabia ler nem escrever. Era ainda muito novo e nas férias escolares, lembro-me de a acompanhar muitas vezes a praia a pé, para comprar peixe para revender no mercado da vila. O trajeto era de Guadalupe a Praia de Morro Peixe e vice-versa.

Em conversa com algumas das suas companheiras da mesma profissão, provavelmente mais novas e menos experientes, passava-lhes alguns ensinamentos aprendidos na escola da vida.

Foi a primeira vez que ouvi falar em Mén Djelo. Confesso que nunca tive a coragem de perguntar a minha avó o que significava esta palavra, embora tivesse essa curiosidade. Antigamente era falta de respeito crianças intrometerem-se na conversa dos adultos, porque não lhes diziam respeito.

Mais tarde, vim a saber o significado da palavra, pois, o Mén Djelo é nada mais nada menos que o dinheiro inicial do negócio, ou seja, na linguagem contabilística, o Capital inicial.

Insistia a minha avó com as colegas que esse valor era sagrado e que tinha que ser reposto sempre que fosse usado e que apenas o lucro devia ser utilizado.

A minha avó que não estudou gestão, estava a dar sem saber aulas de negócio as colegas.

Era assim que se procedia a transmissão de conhecimento, de forma oral, de geração mais velha para a mais nova.

Havia outro tipo de senhoras que eram apenas Donas de Casa, não trabalhavam fora, como acontece hoje com muita frequência, e ocupavam apenas das tarefas de casa e educação dos filhos. Noutros tempos a Dona de Casa era um estatuto normalmente atribuído às mulheres casadas.

É bom que se diga que essa classe de mulheres era vista pela sociedade como não produtora de rendimentos, uma apreciação no meu entender errada e injusta, porque mesmo não saindo de casa para trabalhar fora, desempenhavam uma tarefa nobre que é de cuidar da casa e da educação dos filhos. Isto deve ser contabilizado e enaltecido.

Mesmo com alguns avanços, ainda hoje essa classe de mulheres sofre das consequências do preconceito e do status de inferioridade.

Como disse antes, a situação hoje mudou consideravelmente graças a escolarização da população em geral e das mulheres em particular. Neste contexto, tem-se criado as condições legislativas e outras para permitir a igualdade entre o homem e a mulher e inserção desta no mercado de trabalho, nos mais diferentes ramos de atividades, não só como trabalhadora qualificada mas também assumindo cada vez mais o comando e liderança.

Nos últimos tempos as mulheres são-tomenses têm estado presentes em todas as atividades económicas de forma mais estruturada. As palaiês já não se limitam apenas na venda dos produtos tradicionais já referidos. Muitas já têm pequenos negócios com alguma dimensão, que vendem um pouco de tudo, desde pequenos utensílios, artigos de uso corrente, géneros alimentares, roupas pronto-a-vestir, roupas usadas etc. Penso que esses negócios informais têm um peso grande na nossa economia que talvez ainda não foi avaliado por quem de direito.

As mulheres são-tomenses estão também presentes no sector primário (agricultura, pecuária e pesca). Muitas têm as suas parcelas de terras que, para além de agricultura dedicam-se também a criação de animais.

Outras, que vivem nas zonas costeiras, ocupam-se da venda de peixe, [fresco, salgado e fumado]. Todas essas atividades são realizadas com a mesma mestria e capacidade que os seus colegas homens.

Essas competências inatas das mulheres são-tomenses, têm que ser melhor exploradas. Para tanto, é necessário que, através de programas de apoio ao empreendedorismo feminino se ajude-as com formação e pequenos financiamentos para que aos poucos saiam da informalidade, melhorem os seus negócios e deem uma melhor contribuição no desenvolvimento do Pais.

Na formação acima sugerida, deve ser contemplada, para além de aspetos ligados a gestão e organização de negócios, questões higiénicas, a educação cívica, como por exemplo a obrigação de pagar impostos e também sensibiliza-las para a necessidade de contribuir para a Segurança Social, de modo a garantir algum sustento na velhice, quando já não poderem mais trabalhar, e evitar situações de indigência.

O Estado deve criar condições legislativas e outras para que isso aconteça.

No meu entender, uma atenção especial deve ser dada as Palaiês de venda de peixe ao nível nacional. Se verificarmos bem, apesar da evolução que o mundo conheceu, os métodos de transporte e venda de peixe no mercado ou noutros locais, utilizados por essas vendedoras, não mudou desde o tempo da minha avó, há mais de 60 anos.

Ainda hoje se transporta peixe na gamela ou cesto, vende-se no chão, não se observam as mínimas condições higiénicas, mesmo quando haja equipamentos próprio nos mercados para o efeito. Foi o que se constatou ultimamente no novo mercado de Bôbo Foro, em que essas mesmas vendedoras, manifestando a sua resistência a essas condições, chegaram ao ponto de vandalizar as bancadas de inox ou alumínio ali instaladas para melhor condições e conforto de venda feitas por elas próprias.

Basta se deslocar a secção de venda de peixe do novo mercado de Bobo Foro para se constatar isso mesmo. Todas abandonaram as bancadas preferindo vender o peixe no chão, ocupando literalmente o corredor destinado a circulação de pessoas e compradores.

Tudo isso tem uma explicação: falta de formação e sensibilização para a utilização de métodos modernos de venda de peixe, bem como a de observância de regras higiénicas.

Há outra categoria de senhoras que possuem e gerem com competência lojas de modas, bares e restauração, atividades turísticas, artesanatos, organização de eventos culturais e outros. Essa categoria tem os seus estabelecimentos devidamente legalizados e pagam os seus impostos.

Permitam-me contar uma pequena história vivida no seio da minha família, que ilustra bem a capacidade de gestão das nossas mulheres que já vem de longa data.

Num determinado momento, houve a necessidade de os meus pais fazerem um negócio para melhorar o rendimento da família. Decidiu-se então em abrir uma loja. O negócio não podia estar em nome do meu pai porque ele era funcionário público. Naquela altura, não era permitido pela Lei devido a conflitos de interesse.

Foi assim que a loja ficou em nome da minha mãe mas apenas de fachada porque quem geria de facto o empreendimento era o meu pai, apenas por ser homem!

Mas com ele, as coisas não estavam a correr bem e a loja só acumulava prejuízos. Foi nesta altura que se decidiu transferir toda a responsabilidade de gestão do negócio para a minha mãe.

Em consequência dessa feliz ideia e em pouco tempo a loja começou a dar lucros, devido ao rigor, a seriedade e a boa gestão que ela imprimiu ao negócio.

O caso da minha mãe não é único aqui em São Tomé e Príncipe. Isto é um claro exemplo que ilustra a capacidade de gestão de negócios das nossas mulheres.

Mas é preciso também que as mulheres entendam cada vez mais que uma coisa é ter direitos que estão previstos na Lei e outra é ter a consciência desses direitos e beneficiar deles. A mulher tem que acreditar que não é inferior ao homem.

Com muita frequência constata-se que as mulheres ainda aceitam e assumem a inferioridade em relação a figura masculina, quando já não devia acontecer.

Esta provado que em mulheres com maior grau de escolaridade, a taxa de natalidade diminui (tem menos filhos), casam-se com idades mais avançadas, possuem maiores expectativas de vida e podem assumir melhor que os homens o comando da família (o papel que já tem). Portanto, o lema deve ser, continuar a aumentar a taxa de escolaridade da população feminina e dá-las maiores oportunidades, ainda que se tenha que praticar uma descriminação positiva.

Contudo, tem que se reconhecer que hoje já temos algumas mulheres na política, nos diferentes sectores económicos e sociais, públicos e privados, não só como quadros com formação superior mas também como responsáveis, no Pais e na diáspora.

A mulher teve sempre um peso e respeito na sociedade são-tomense tendo em conta a sua importância no meio familiar, mas que infelizmente sempre foi subestimado. Não é por acaso que no nosso crioulo foro usamos muito o poder da palavra “Mén” que significa MÃE, para darmos a grandeza e o valor a tudo o que queremos fazer com notoriedade. O homem não tem essa honra e privilégio.

A designação Mén Non atribuída e muito bem a esta organização feminina dinâmica das mulheres são-tomense em Portugal, que completa hoje 10 anos da sua existencia, organizadora deste evento, ilustra bem o que acabei de dizer. Existem outras situações em que essa expressão é aplicada, como Mén Djelo que já referi, Mén d’home, Mén Cabalo, Mén Mina e muitas outras.

Há um dado que normalmente não se tem em conta nas análises, relacionadas com a igualdade entre o homem e a mulher, é o facto de em todos os censos e projeções realizados aqui em São Tomé e Príncipe desde a independência até a presente data, a população feminina foi sempre superior a masculina.

Por isso e que a questão de género deve continuar a estar na ordem do dia nas discussões da Sociedade Civil e do Estado, dada a importância que se reveste na defesa dos direitos e da igualdade entre indivíduos na construção de um São Tomé e Príncipe mais justo.

Apesar de tudo, as mulheres são-tomenses têm ainda um grande desafio pela frente, para atingir a sua plena emancipação, de modo a dar melhor contribuição no desenvolvimento de São Tomé e Príncipe.

A sociedade deve estar preparada para evitar uma crise de identidade num futuro próximo, porque inevitavelmente o espaço no qual outrora os homens reinavam em absoluto, será partilhado com as mulheres.

A mudança do papel da mulher significará mudança do papel do homem.

Bem-haja!

São Tomé, 19 de Setembro de 2020

Fernando Simão

    3 comentários

3 comentários

  1. muala

    22 de Setembro de 2020 as 13:30

    Concordo com tudo.Apenas uma correcção: quando diz”Basta se deslocar a secção de venda de peixe do novo mercado de Bobo Foro para se constatar… Todas abandonaram as bancadas preferindo vender o peixe no chão, ocupando literalmente o corredor destinado a circulação de pessoas e compradores.”- já foi ver bem as bancada do mercado? Uma bancada de 1×1 pequena pequena que nem dá para lá por 5 vermelhos?…infelizmente vendem no chão por não terem espaço para por mercadoria que tem para vender! Primeiro a infraestrutura tem de servir quem vende e só depois se pode falar de “falta de formação e sensibilização para a utilização de métodos modernos de venda de peixe, bem como a de observância de regras higiénicas”….sem ovos como quer fazer uma omelete?

    • ONDE MESMO?

      23 de Setembro de 2020 as 10:38

      É sim falta de formação e essencialmente falta da chamada educação caseira. As bancadas para a venda de peixe no mercado de Bôbô Fôrro é grande o suficiente para a sua prática mas, como o comportamento das palaiês de peixe deixa muito a desejar, preferiram abandonar as bancadas para venderem no chão ocupando os corredores. Falta de educação sim e principalmente falta de autoridade de estado porque a polícia nada faz.

  2. Mepoçon

    22 de Setembro de 2020 as 22:13

    Embora estando fora, tive a ocasião de visitar o local e contastar o investimento. Ao argumentar a pequinez da bancada é argumentar porque quando vem lá de grota não querem tirar o pé na lama. A gamela ou bacia em que se vendem no chão tem a superfície da bancada com todas as condições higiénicas? Pelo amor de Deus arranja outro argumento, não queremos sair do nosso habitat. Pode tirar o macaco da selva, a selva não sai no seu interior.

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