Opinião

O absurdo não se abraça!

La Boétie (o fundador ignorado da antropologia do homem moderno, do homem das sociedades divididas, talcomo é conhecido), nos pórticos do seu Discurso Sobre a Servidão Voluntária, mostra como o absurdo não deve ser abraçado,nem tampouco saudado aos cotovelos, ainda por mais, nestes tempos que são os últimos, em que o que mais se tem recomendado é o distanciamento, para que as pessoas sãs, e não só, não sejam infetadas ou afetadas pelo vírus da moda,o persistente coronavírus, e tantos outros vírus que, já agora, têm-se florestado por aí.

Fora esta grelha virológica, a verdade é quea grande razão pela qual devemos nos distanciar, socialmente, de qualquerabsurdo, quetem encontrado vias de acessos rápidos no nosso país,tem a ver com o quejá sabemos de antemão: “em toda a parte e em todos os climas a escravidão é amarga aos homens, sendo-lhes cara a liberdade”. Esta afirmação e outras que se encontramnas compaginaçõesdeste livrodo humanista e filósofo francês – já mencionado – revêem, a grosso modo, os impropérios que, logo ao início da sua produção literária, o autor lança contra a servidão voluntária, reconhecendo, e sim, que é “natural no homem o ser livre e o querer sê-lo; mas está igualmente na sua natureza ficar com certos hábitos que a educação lhe dá”. Parece-me que há um vírus que mesmo com o uso das máscaras tem-secontraído: a falta de bom senso.

Pois, muitas vezes, a sensação que nos sobrevém é a de uma perda de rumo ou de uma ausência de sensibilidade. Olhamos e o bom senso tornou-se nisto:um terreno comatoso. Luís Pedro Nunes, num dos artigos do jornal Expresso desta semana, dizia isto, mas da seguinteforma: “Quando um dia tivermos ultrapassado o vírus, deixado de olhar para o nosso umbigo, não vamos reconhecer o mundo à nossa volta”. Talvez ele tenha razão, ou não.Mas a verdade é esta: as evidências perecem-nos mais acessíveis e frequentes. Sobretudo, quando a nossa sociedade são-tomense(e não só), a forma como a mesma é regida,é colocadadebaixo dasobservações– ontem e hoje.

Ora, falar do bom senso da nossa orgânica governamental é falar das perguntas com as quais nos confrontamos quotidianamente. Pois, “há perguntas próprias dos inícios, há perguntas que surgem a meio e há perguntas que acompanham o fim”. E, a pergunta sobre“quem me fará feliz?”(da música de Plinio Oliveira) ou, melhor ainda, a do salmista, “quem nos fará ver a felicidade?” (Sl4, 6), é tão atual quanto, colocada, no princípio, ao meio ou no fim. Porque, como afirma Étienne, “quem estudar os feitos da antiguidade e as velhas crónicas descobrirá que, vendo-se o país mal governado e maltratado, tomando-se a decisão firme de o libertar, com intenção limpa e reta, poucos ou nenhuns deixaram de o conseguir, pois nisso tiveram a ajuda da própria liberdade, ansiosa por renascer”.

Assim é: com a perda da liberdade, perde-se imediatamente a coragem. Alguém que se submete a condição de escravo, mesmo que seja chefe – vejam que eu não disselíder –, não mostra perante a hostilidade qualquer valentia ou bravura. Vai para o combatecomo manietado (aliás, guiado pelos outros) e sem energia,desanimado e desarmado, como quem vai cumprir uma missão custosa.

No “Invicto”, o poema que inspirou Nelson Mandela nos seus 27 anos de prisão, William Ernest Henley, depois de cantar mais de dez dos seus versos em ritmo livre, termina-o assim: Não importa quão estreita a passagem / Quantas punições ainda sofrerei / Sou o senhor do meu destino / E o condutor da minha alma. Agora, a questão é esta: já nos perguntamos o que podemos fazerpara sair deste, enfim, retalho cinematográfico que, a preto e branco, nos temprivado da ética do quotidiano? Não se trata aqui de uma questão epidérmica: uma pergunta superficial; éuma interrogação que clama pela nossa maneira de agir ou, como dizemos latinos, modus operandi(plural: modi operandi).

Por isso, é bom que nos perguntemos, etambém por dois motivos fundamentais, diria eu: primeiro, porque envolve a nossa adesão pessoal; e, segundo, para que não nos continuemosa abraçaroabsurdo, construindo uma ilha fantasma, em que tudo encontra a sua sepultura no autêntico“faz-de-conta que…”.Por este trilho, o futuro de STP é (ou será) de pessoas que não descansam em estado de sono: algumas não dormem porque não comem,outrasnão adormecempor terem medo dessa genteque não come! Boa leitura.

Francisco Salvador

    1 comentário

1 comentário

  1. Filho da RA

    24 de Setembro de 2020 as 7:39

    Um grande artigo, de facto, quando se verifica uma situação sobretudo político-administrativa, que compromete os direitos elementares dos cidadãos, julgo pertinente assumirmos uma determinada posição na defesa desses mesmos direitos, neste caso, demarcarmo-nos do absurdo!

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