Opinião

Presidenciais – A Entrevista da Elsa Garrido

Elsa Garrido, munida de alguns argumentos, apareceu na entrevista ao “Nós Acreditamos”, ao contrário dos candidatos que a precederam neste exercício de cidadania, decidida a acabar com os remendos, que têm caracterizado a receita da generalidade dos políticos da nossa terra, para minimizar os nossos maiores problemas dos últimos 45 anos. Neste âmbito não esteve com meias medidas.

Prometeu, com a ajuda de todos os Santomenses, caso fosse eleita presidente da república, dar início a um ciclo de transformação radical do país, comportando neste exercício: a renovação da classe política; uma revisão constitucional profunda; a mudança do sistema de governação atual para um sistema presidencialista de pendor parlamentar; criação de condições para o aprofundamento da democracia participativa, entre outras propostas radicais.

Ou seja, na sua opinião, torna-se necessário “fundar uma nova república” e acabar com a receita dos remendos, típica dos políticos que nos têm governado desde a independência nacional, com os resultados que se conhecem.

Para a Elsa Garrido, a nossa política caseira, tal com a conhecemos, “bateu no fundo” e tem os dias contados. Deste modo, a receita tem de ser, também, radical, segundo os propósitos da candidata em causa.

Se a proposta da Elsa Garrido para a solução dos nossos problemas funcionou, por um lado, como o ponto forte da referida entrevista, tendo em conta a ousadia e voluntarismo demonstrado, todavia, o diagnóstico retratado pela entrevistadora, que suportou a referida proposta radical, teve como pressupostos, principalmente, argumentos de ordem moral ou ética, designadamente a falta de princípios e honestidade dos nossos políticos, uma nova “maneira de ser e estar”,  o problema da corrupção, para além de algumas observações avulsas, de âmbito político, o que a transformou, simultaneamente, num ponto fraco da entrevista em causa.

Dois motivos concorrem para este desempenho contraditório da Elsa Garrido na referida entrevista.

Em primeiro lugar, sendo ela a líder do único partido nacional que suporta, programaticamente, a defesa da temática ambiental, com um percurso pessoal e político indiscutível neste âmbito, tendo em conta os problemas existentes no país, a Elsa Garrido deveria aproveitar esta oportunidade, apesar da especificidade do ato eleitoral em causa (eleições presidenciais), para consolidar a sua agenda política, tendo como propósito, como ela própria quis afirmar, a configuração do futuro.

Neste âmbito, não se faz isso, sobretudo ou apenas, com uma abordagem em torno de argumentos de ordem moral ou ética, apesar dos problemas que temos no país neste âmbito.

Elsa Garrido deveria aproveitar esta oportunidade, apesar dos condicionalismos inerentes à eleição em causa, para trazer para o debate público, temáticas relacionadas, por exemplo: com o uso diferenciado do território, nos instrumentos de gestão territorial, com o objetivo de salvaguardar os interesses das gerações mais novas ou vindouras, tendo em conta a evolução demográfica descontrolada que se vive no país; o problema do desenvolvimento económico sustentável, como argumento indispensável para a transformação energética, tendo em conta a nossa particularidade insular e vulnerabilidade em termos de recursos e dimensão do mercado; a criação de condições, que vão para além de clichés ou chavões habituais, que permitam a implementação e monitorização de políticas públicas (com planos, metas, controlo político e parlamentar) com a finalidade de promover o combate às desigualdades sociais; a mobilização de contributos que permitam a adoção de um modelo transitório para a gestão dos resíduos sólidos urbanos no país enquanto não seja implementado uma legislação neste âmbito e desenvolvimento de condições para a gestão e tratamento sustentável dos mesmos, tendo em conta os nossos constrangimentos de natureza financeira e técnica momentaneamente e criação de condições para uma reforma profunda da Assembleia Nacional que possa contribuir para o aprofundamento da democracia, da tolerância política, da transparência e do debate público profícuo e, sobretudo, transformá-la num verdadeiro centro de escrutínio e fiscalização dos atos de gestão do governo, com recurso aos meios oferecidos neste momento pelas novas tecnologias, acabando com a inércia em que esta se transformou momentaneamente.

Em segundo lugar, a Elsa Garrido, tendo em conta que lidera o Partido Verde há algum tempo, deveria ter feito o trabalho de casa bem feito, para que neste momento, o referido partido, mesmo com algumas limitações de ordem financeira, patrimonial, de mobilização popular, de implantação no país, etc., tivesse uma dimensão interna relevante, uma organização atuante capaz de sustentar um trabalho coletivo continuado e com fundamentação qualificada, órgãos sociais com uma composição que respeitasse o problema do género, um programa específico, em contradição com o modus operandi vigente, que lhe permitisse exercer a função de representação política tendo como pressuposto a defesa dos interesses das gerações atuais e futuras, sustentado por um centro de produção de estratégias, bem como, criar condições para imprimir uma nova conceção de comunicação política que lhe permitisse apresentar, com inovação, o conteúdo político dos interesses sociais que defende.

Eu sei que isso dá trabalho (dá muito trabalho) e não é fácil fazer-se num país onde nenhum partido político tem esta preocupação e interesse. O Partido Verde seria, desta forma, uma espécie de oásis num deserto e, até, não me admiraria nada, seria tendencialmente ridicularizado num sistema partidário onde predomina a inércia e incompetência. Ou seja, o radicalismo proposto para a reforma do país, por Elsa Garrido, deveria começar no seu próprio partido para que tal funcionasse como legitimador dos seus propósitos, momentaneamente, agora que concorre para a presidência da república.

Mas não tenho dúvidas nenhumas que alguém, mais tarde ou mais cedo, vai ter de fazer este trabalho em prol de uma verdadeira alternativa política no país.

Parece-me óbvio que se a Elsa Garrido tivesse percorrido este caminho, hoje, estando a concorrer para estas eleições presidenciais, o seu discurso e as propostas políticas radicais que defende, designadamente a refundação da república, teriam outra legitimidade e impacto junto do eleitorado.

Admito, até, que os nossos partidos políticos tradicionais se sentem satisfeitos e até estimulam esta tendência de autoflagelação dos novos projetos partidários, consciente ou inconscientemente, que contribuem para a normalização do status quo, permitindo-lhes, desta forma, continuar como estão sem manifestação de qualquer esforço de mudança de paradigma.

É por isso, também, que, muitas vezes, todos os atos de regeneração do sistema, de natureza individual e/ou coletiva, por parte de agentes ou instituições político-partidárias, é violentamente atacado pelos dinossauros dos partidos políticos tradicionais porque estes pretendem continuar eternamente neste status quo que é, não tenhamos dúvidas, ótimo para a defesa dos interesses dos seus apaniguados, quando não resolvem fazer uma espécie de oferta pública de aquisição (OPA) sobre os mesmos ou sobre os seus principais dirigentes com a finalidade de aniquilar estes partidos.  Basta ver o que tentaram e continuam a tentar fazer com o Filipe Nascimento na UMPP e no Governo Regional do Príncipe.

Continuo convencido que o nosso maior problema é a má política, a irresponsabilidade dos nossos principais governantes, a pobreza de iniciativa e a pouca qualificação dos decisores políticos, que criam condições para que a carência de virtude e manifestação de fenómenos condenáveis relacionados com a falta de ética e moral se manifestam e não o contrário.

Pretender, por isso, concentrar o discurso no âmbito dos problemas relacionados com a imoralidade e falta de ética na política, para mudar a realidade prevalecente no país, parece-me uma total inversão de prioridades e preocupações. O sistema político só pode ser regulado por critérios políticos.

A Elsa Garrido, voluntariosa, ambiciosa (politicamente falando) e inteligente, tem todas as condições, para ajudar os seus pares no processo de emergência de uma nova forma de fazer política em S.Tomé e Príncipe, como a própria admitiu na referida entrevista, independentemente dos resultados que alcançar neste ato eleitoral, alicerçada em valores e causas que não estejam somente relacionadas com critérios de natureza ética ou moral.

Adelino Cardoso Cassandra

    8 comentários

8 comentários

  1. Mulher no poder

    6 de Junho de 2021 as 23:36

    A entrevista da Elsa foi boa. Pode ter um bom resultado talvez 5 lugar e posiciona pra legislastiva. Mulher tem k dar voto de confiança na mulher.

    Sobre forma k atual poder trata filipe e governo regional esses políticos não percebe que está a prejudicar população de Princípe k também é nacional. Nos de adi sabemos k Rito e Aerton vivem no perfil falso a ofender rapaz. Mas quanto mas atacam mas povo vai votar nele. Ouvi dizer k nao fazem transferência. Assim iam ver como esse rapaz trabalha. Nos de ADI estamos atentos. Quando era nossa vez no poder havia sempre transferência. Legislativa vamos ganhar todos distritos e rap. Agora vamos eleger Vila Nova.

  2. Pedro Costa 2

    7 de Junho de 2021 as 7:10

    Também penso que este país deve mudar o sistema de governação atual para um sistema presidencialista de pendor parlamentar e criação de condições para o aprofundamento da democracia. Este país não pode continuar a ter um presidente, um primeiro ministro e tantos ministros e que muitos não fazem nada. Constitui um fardo pesado para os cofres do estado.
    Por outro lado, num país como nosso, no tempo atual não justifica mais ter as forças armadas. Também constitui um fardo pesado para os cofres do estado.
    Se eu fosse um dia presidente e chefe do governo deste país, a primeira coisa que eu faria era atacar a corrupção e mandasse averiguar o enriquecimento ilícito. Para isto, estas atuações devem ser para já. O tempo urge tomadas destas decisões.

  3. SANTOMÉ CU PLIXIMPE

    7 de Junho de 2021 as 7:19

    Presidente tem que ser alguém com ao menos o mínimo, por ex: ter uma família, homem e mulher, pra educar a nossa sociedade.. nas outras paragens, quem mudou de muitos homens ou muitas mulheres não tem moral ético pra representar uma nação..

    • Mónica

      9 de Junho de 2021 as 10:02

      Sim. porque é mesmo costume os Santomenses casarem pela igreja e terem uma só companheira. E também tomam muito bem conta dos filhos que podem sustentar. 😂😂😂😂😂😁😁😁😁

  4. Manuel Alexandrino

    7 de Junho de 2021 as 8:11

    A senhora Elsa Garrido anda um pouco desnorteada.
    Em Portugal, fez o espetáculo de greve do fome nas ruas de Lisboa, devido ao milho híbrido que se estava a plantar em S.Tomé. Afinal o truque era procurar um tacho em S.Tomé. Quando chegou à S.Tomé, deram-lhe um tacho no Ministério de Ambiente. A senhora fez o paleio de visitar a lixeira de Penha e fez uma razia, criticando a tudo e todos sobre aquela lixeira, e deu um prazo de 3 meses para acabar radicalmente com a mesma. Aproveitou a visita de uma delegação estrangeira ao país para dar o seu chou off e lançar o projecto de transformação da lixeira da penha. Onde está?. A verdade, é que nem o trabalho a senhora vai, e só vai receber o salário no fim do mês. Como o Governo também não quero ter a oposição, então paga só.
    A senhora como técnica não demonstrou trabalho nenhum, então quero ser Presidente?
    Vai tomar banho nas águas da lixeira de Penha, assim fica melhor.

  5. OPA

    7 de Junho de 2021 as 10:28

    Aquilo que eu tenho visto nesta campanha é uma OPA como o senhor diz que estão a fazer em alguns políticos aqui em S.Tomé. Muitos estão a ser comprados literalmente sem dó nem piedade. Eu conheço militantes de grande peso do MLSTP que dizem que estão com Pósser da Costa e por trás estão a dar apoios para outros candidatos. Os candidatos pequenos tipo Vitor Monteiro, Carlos Neves, Aurélio Martins e outros foram comidos vivos. Isto ainda vai dar muito que falar.

  6. desilusão

    7 de Junho de 2021 as 13:45

    um país piquyeno com tantos candidatos para presidente. sinceramente…

  7. Mepoçom

    8 de Junho de 2021 as 11:59

    A salvação deste país só divina! Deixaram os males enraizar-se tantos que a governação está sem norte. Pelo visto nem com uma ditadura iria lá. Para aceitar a imposição ditatorial seria uma agitação social sem controlo. Tudo que deveria ser feito à partida, traçaram o caminho errado de modo a que permitisse cada um resolver as suas ambições pessoais e de seus familiares, agora está sendo difícil. Todas as promessas que assistimos são falácias, ou vão remedando para toda a vida. O ladrão está dentro e invadiu toda a casa, e estão a procura de tranca. É ainda mais com um crescimento da densidade populacional tão galopante!

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