Quando estive de férias no país, muito recentemente, tendo em conta aquilo que constatei in loco, escrevi um artigo, dando a minha opinião, sobre a forma como algumas pessoas, bem identificadas politicamente na R.A.P, por razões mesquinhas e/ou pessoais, estavam a forjar, com intuitos políticos, perigoso, injustificável e irresponsável, um forte ataque ao empresário Mark Shuttleworth e a sua empresa HBD que, momentaneamente, gere a roça Sundy e algumas praias limítrofes da referida roça, bem como o ilhéu Bom Bom, localizadas na zona norte da ilha do Príncipe.
O que é que aquelas pessoas, recorrentemente, afirmavam na comunicação social, com intuito de intoxicar a comunidade local e nacional contra o referido empresário? Diziam, de forma recorrente, que a empresa em causa proibira os nacionais de frequentar a praia do ilhéu Bom Bom que a referida empresa explora naquela parcela do nosso país ou, em alternativa, que os nacionais que a quisessem frequentar teriam de pagar uma taxa para o referido efeito.
Assim que soube desta informação, estando eu, no Príncipe, na altura, desloquei-me, na companhia de mais algumas pessoas, em direção ao norte da ilha, com a intenção de ir para ao ilhéu Bom Bom e constatar, in loco, se aquela afirmação correspondia à realidade.
Tendo ido de carro, mal cheguei ao Bom Bom, fui interpelado por um segurança do referido empreendimento turístico, numa cancela, ainda relativamente distante da praia, de forma simpática e educada, que me informara que teria de deixar o carro num pequeno parque da referida empresa, ai existente, pagando em contrapartida 25 dobras (1 euro) por tal serviço, onde estavam estacionados todos os outros carros de outras pessoas que se deslocaram para a praia em causa, e, posteriormente, esperar por um pequeno carro elétrico da empresa em causa, que nos levaria para a praia que estava a uns 500 metros, sensivelmente, do lugar onde o carro ficara estacionado. Paguei a referida quantia, tendo, no entanto, deixado o carro aí estacionado e, volvidos 2 ou 3 minutos, chegou o tal carro elétrico que nos levara até a praia em causa onde pude usufruir, com segurança e tranquilidade, de um “serviço de praia” prestado pela referida empresa. Mais ninguém que me acompanhara pagou qualquer quantia por tal serviço de estacionamento ou de outro âmbito.
Qualquer pessoa, minimamente informada ou esclarecida, preocupada com o equilíbrio dos ecossistemas dunares, numa ilha onde existe, provavelmente, das melhores praias do mundo, deveria entender este gesto da referida empresa como um propósito valorizador da preocupação com a preservação deste recurso natural de elevada sensibilidade ambiental que constitui, simultaneamente, o suporte da atividade económica, no âmbito do turismo, desenvolvido pela empresa em causa. Onde é que está o mal praticado pelo referido empresário com a atitude em causa? Eu vivo numa das maiores zonas turísticas em Portugal, senão a maior, e quando desloco-me para certas zonas do Algarve, com acesso às praias, acontece-me ter de deixar o carro estacionado longe do areal e pago por este serviço. Onde é que existe o problema? Isto não tem nada a ver com taxas nem tão pouco com o impedimento dos nacionais poderem utilizar um bem público como são as praias.
Eu já defendi esta ideia no artigo de opinião anterior, pois, sou apologista, que, embora as praias fossem um bem público, os governos, Nacional e Regional, em articulação, deveriam criar condições, auscultando as comunidades, nacional e regional, para que o uso das mesmas fosse feito mediante o pagamento de uma taxação simbólica, fruto de uma legislação específica relacionada com o ordenamento da orla costeira e gestão das praias, que contribuísse para desincentivar a anarquia e atos predatórios que têm estado a ocorrer na grande maioria das mesmas que acabam, ao longo dos tempos, por descaracterizá-las completamente.
Se isto não acontecer, não tenho dúvidas nenhumas, que a maior parte das praias do nosso país irão desaparecer, nos próximos 30 ou 40 anos, e, para tal, basta observarem o que aconteceu com algumas delas, desde a proclamação da independência nacional, tendo como referência, por exemplo, a praia de Évora no Príncipe. Não é preciso ser um especialista em oceanografia ou sustentabilidade para constatar isso mesmo e não devemos esquecer que estamos num arquipélago com uma configuração e características especiais.
Como é que um empresário estrangeiro que investiu milhões de dólares nos últimos anos na R.A.P, que permitiu, por exemplo, a requalificação do aeroporto regional e do património infraestrutural de empresas agrícolas como a Sundy, tendo dado emprego a centenas de pessoas (grande parte delas naturais de S. Tomé), requalificou totalmente as infraestrututas do ilhéu Bom Bom, criou condições para que as pessoas que viviam na Sundy, em condições deploráveis, pudessem ter, hoje, uma habitação condigna na Terra Prometida, pode estar impedido de, em articulação com os governos (nacional e regional), fazer alguma coisa que impeça que aquilo que são os recursos indispensáveis para o desenvolvimento do seu negócio, que são as praias, possam ficar totalmente danificados, daqui por 30 ou 40 anos, por atos de anarquia e de predação das nossas gentes, hipotecando, desta forma, centenas de milhões de dólares investidos? É assim que se trata os investidores estrangeiros que arriscam investir na nossa terra?
Apesar de vivermos numa democracia, continuamos a ter uma mentalidade anacrónica, que caracterizou a primeira república, no domínio da coletivização dos meios de produção, que teve consequências trágicas no contexto comunitário, nacional e regional, rebentou com os meios, objetos e força de trabalho, como as roças agrícolas, por exemplo. Agora decidimos passar das roças agrícolas para as praias recorrendo a mesma receita que nos levou para o abismo: “a partir de hoje as roças agrícolas são nossas”.
Agora o slogan será: “a partir de hoje as praias são nossas”. Antevejo os resultados deste modus faciendi que denuncia a nossa eterna fragilidade para a configuração do futuro, com responsabilidade, respeitando os direitos das gerações vindouras.
Não satisfeitos com aquilo que andaram a fazer ao referido empresário, em termos de intoxicação da população, todos soubemos que, recentemente, este mesmo grupo de pessoas, invadiu as instalações privadas do resort do mesmo, no ilhéu Bom Bom, andaram a fazer vídeos para difundirem nas redes sociais apelando à invasão das referidas infraestruturas por parte da população e, até, catalogaram o referido empresário, em entrevistas públicas, bem como aos funcionários do mesmo, de neocolonialistas.
Ou seja, este modus faciendi é a repetição de um filme que já vimos em 1974/1975 que culminou com o enxovalho, humilhação e expulsão do país, objetiva ou subjetivamente, dos antigos donos das empresas agrícolas, nacionais e regionais, que constituiu o primeiro passo ou decisão para a nossa situação trágica momentânea.
Tenho dificuldades em compreender como é que se trata um empresário que decidiu investir tanto dinheiro na nossa terra, contribuindo, com tal, para a criação de centenas de empregos e consequente dinamização da economia regional e nacional, enxovalhando-o e tratando-o com epiteto de neocolonialista mas, todavia, tratando como patriotas e pessoas decentes alguns indivíduos, no contexto regional, que, tendo ficado com grandes parcelas de terras das antigas roças agrícolas, não produzem nada, contudo, e, sobretudo, não pagam a contribuição para a segurança social dos seus parcos funcionários nem tão pouco pagam impostos ao Estado decorrente da concessão destas terras aos mesmos. Quem afinal é que é neocolonialista, no sentido metafórico da expressão em causa?
Soube, entretanto, ainda hoje, que perante este ataque recorrente, enxovalho e humilhação ao referido empresário, feito por pessoas irresponsáveis que se autoproclamam de políticos no contexto regional, que o mesmo enviou uma carta ao Governo Regional solicitando o propósito de desvinculação, no mais curto espaço de tempo, de todas as suas responsabilidades, ao nível de investimento realizado na ilha do Príncipe, comprometendo, deste modo, a vida de centenas de trabalhadores que trabalham nas suas empresas.
É óbvio que isto terá um impacto gigantesco no Príncipe, do ponto de vista económico e sociocultural, mesmo que o referido empresário faça a transferência para outrem do seu negócio na ilha, tendo em conta, por exemplo, a preocupação e sensibilidade ambiental que existia, a montante, na organização de todo o seu empreendimento empresarial constatado nas mais pequenas decisões.
É óbvio, igualmente, que tudo o que foi feito por este grupo de pessoas, que contribuiu para o desfecho dramático deste caso terá, também, consequências políticas no contexto regional, para o bem ou para o mal, pois, ficamos a saber, a partir de agora, que existem duas conceções ideológicas para o desenvolvimento do Príncipe, sendo que uma delas está amarrada aos propósitos anacrónicos relacionados com a coletivização dos meios de produção, centralismo, intervenção estatal na economia e criação de condições para a expulsão de empresários da região, objetiva ou subjetivamente, apelidando-os de neocolonialistas, ou invadindo as propriedades sob a gestão dos mesmos, quando ousam empreender e inovar em prol da defesa dos seus interesses empresariais. Passados 50 anos da independência, tudo parece conservado e pronto a ser usado como da primeira vez!
Ninguém é capaz de explicar a estas pobres pessoas, como se explica a crianças de 7 ou 8 anos, que ao avaliar a rentabilidade dos projetos de investimento, os investidores, quaisquer que sejam, preocupam-se, em primeiro lugar, com a estabilidade política e económica dos países ou regiões onde pretendem investir, e cuja complementaridade é necessária, sendo que a estabilidade económica não pode ser alcançada num ambiente de tensão política desenfreada e inútil. Estamos no bom caminho! Que Deus proteja o Príncipe!!
Adelino Cardoso Cassandra
14/10/2025
Sem assunto
15 de Outubro de 2025 at 6:08
Sempre nervosinho e vociferando por detrás de um teclado. Fizeste da tua querida pátria o local de férias e ainda assim acreditas que deste modo podes lutar por ela? Isto é surreal, bem o sabes.
Para quando regressas à ilha de modo a dares a tua singela contribuição? Só não o faço no momento da reforma, faça-o já enquanto tens vigor e energia.
Articulado como és, sabes como ninguém de que a mudança é feita de dentro para fora. Tens que estar cá para que os teus planos e as tuas visões mirabolantes seja efetivada. Logo o que estás a espera para regressares meu caro?
Deixa de demagogias. Vai passear rapaz!
A ilha do Príncipe vinha aos bocados a tornar propriedade privado deste tal empresario sul-africano e a sua “entourage”. Últimamente até terras vinham repartindo, está politica de taxa no acesso as praias era só o início da privação de espaço público aos locais desprovidos de recursos.
Fortunato
15 de Outubro de 2025 at 12:19
E o que é que dizes sobre o retalho do país, sobretudo cá em S.Tomé, em que os dirigentes e ex-dirigentes do país tomaram terras, como coisa que fossem suas e nem sequer as trabalham ou criam postos de trabalho com as mesmas? Eu prefiro um empresário estrangeiro a quem se concede terras mas que aproveitam esta oportunidade para criar empregos para as pessoas.
Célio Afonso
15 de Outubro de 2025 at 7:50
Povo são-tomense é mesmo assim! Não crian nada, não têm iniciativas, não são resilientes e nem sabem perservar o que de bom existe.
Só sabem apreveitar oportunidades para usufruir, roubar e danificar aquilo que os investidores edificaram.
É uma pena que o governo, para ganhar votos deixa a população praticar esses actos.
Beatriz
15 de Outubro de 2025 at 8:44
Tens razão em alguns pontos. Não concordo que um nacional pague para entrar no seu território. Se o investidor acha k a nossa gente nao é decente, ele k vai para aonde ele veio. Nenhum nacional, deve pagar taxa para entrar no seu território ou mar. Por outro lado, concordo que os turistas paguem taxas , como fazem na Europa. Nenhum pais do mundo um nacional paga taxa pentrar no seu mar.
Sum Doclé
15 de Outubro de 2025 at 12:47
Compreendo o teu ponto de vista. Mas, hoje em dia, ao contrário do que afirmou, existem países, como por exemplo a Itália e Espanha, que as praias são concessionadas e as pessoas pagam uma taxa para a sua frequência existindo uma parte específica, que não está concessionada, que é para quem não quiser pagar. Basta pesquisar na Internet informação sobre isso.
Existem outros países, como a Alemanha, por exemplo, onde as pessoas para visitarem certos pontos do país, onde existe propósitos para a baixa emissão de poluentes, e as pessoas têm de comprar de “vinhetas ambientais” para poderem visitar estes pontos de “baixa emissão de poluentes”.
Na minha opinião, não de existir radicalismo, nem para um lado nem para o outro. Se quisermos salvaguardar as nossas praias temos de começar a fazer a fazer qualquer coisa agora.
Madiba
15 de Outubro de 2025 at 14:36
Minha senhora, deixa de ser parva! Hoje, vejo toda gente a correr para Portugal. Se calhar, incluindo a senhora. Em Portugal, o quê que turistas pagam e o português não?
BAM
15 de Outubro de 2025 at 12:23
Triste ver o que esta a acontecer. Mas embora repleto de promessas, tanto o governo regional como o HBD deixaram um rastro de frustrações e desigualdades. O discurso oficial tende a romantizar o investimento estrangeiro como salvação, mas é preciso olhar com honestidade para o que foi — e o que não foi — cumprido. O projeto Terra Prometida é emblemático. Anunciado como símbolo de progresso, falhou em garantir o mais básico: acesso à água potável. Até hoje, moradores percorrem centenas de metros diariamente para buscar água, contrariando as promessas feitas. Isso não é apenas uma falha técnica — é uma quebra de confiança. Investimento estrangeiro é bem-vindo. Mas precisa ser sustentável, socialmente integrador e construído com consulta comunitária. Sem isso, torna-se apenas mais uma forma de exploração disfarçada de desenvolvimento. A ausência de diálogo com as comunidades locais enfraquece qualquer projeto, por mais bem-intencionado que seja. A disparidade entre os salários dos técnicos santomenses e dos expatriados é gritante. Muitos profissionais locais são humilhados pelas condições de trabalho, mesmo sendo essenciais para a execução dos projetos. Isso perpetua uma lógica colonial de subalternidade que não tem lugar num modelo de desenvolvimento justo. O controle quase total das praias pelo investidor levanta uma questão ética: por que os habitantes locais devem pagar para usar o que é seu por direito? Concordo que zonas de exclusividade podem ser delimitadas para garantir sossego e segurança, mas o acesso livre e digno às praias deve ser garantido — sem taxas ou barreiras simbólicas. A crítica ao aproveitamento político é válida, mas não pode servir para absolver a falta de transparência e inclusão por parte do governo regional. A arrogância institucional e a ausência de prestação de contas alimentam tensões e desconfiança. A gestão da ilha precisa ser mais acessível, participativa e comprometida com o bem comum. A saída da HBD é má. É hora de reavaliar os modelos de desenvolvimento, fortalecer a capacidade técnica nacional, garantir justiça social e proteger os bens comuns. O Príncipe merece um futuro construído com os seus — e não apenas para os seus.
António Enca
15 de Outubro de 2025 at 14:12
O fim do paraíso – O que se segue, não será diferente de tudo o que se tem feito para destruir África.
É provável que surjam interessados nacionais que explorarão a ilha até à destruição total e depois haverá busca por novos investidores estrangeiros.