Opinião

Pau-mandado, diáspora eleitoral e triagem presidencial (Téla Nón, 22.04.21 – Reedição)

A arriscada Maioria, a medir a sua sepultura na selva de má gestão-comunicação, olhar ao próprio umbigo e restrições sanitárias, económicas e sociais de Covid-19, prescindirá da engenharia do futuro inquilino presidencial, Carlos Vila Nova…

A chuva de Abril, de tempo em tempo, desfere aos são-tomenses duros golpes em mais de 100 km/hora, suficiente de abalar o leve-leve, destruir casas, bens agrícolas e perigar a vida humana, não tendo sido animadoras as últimas imagens. Na boleia, os políticos e aventureiros, de cinco em cinco anos, acham-se engravatados e em vendaval absurdo de brincar a cabra-cega com os eleitores deixando cair a máscara num faz-de-contas da democracia.

Não cabe no entendimento da liberdade de escolha, a análise coerente, sem que das dinâmicas, independentes, os partidos sejam aliados, daí que o poder a abusar do leque de quadros, dispersa os votos por uma dezena de anunciantes, enquanto a oposição confronta-se com o abanão de inconformados e contestatários a forçar uma segunda volta e, óbvio, oxigenarem um eventual Chefe do Estado, a emergir-se da Nova Maioria. Ainda assim, a haste torce para a oposição, já que até a formalização de candidaturas, algumas ”vuvuzelas” acabam por ceder às estratégias ou perder o fôlego, contrárias as da corrente governativa que em finca-pé e sustento financeiro, pretenderão negociar o respetivo terreno eleitoral do cativante dia 18 de Julho.

Da vintena de pré-candidatos, ambição nada primária, Delfim Neves, Guilherme Posser e Carlos Vila Nova gozam de patrono a animar às expetativas para que Maria das Neves, Elsa Pinto, Aurélio Martins (vencidos de 2011), Vítor Monteiro, Carlos Neves e Jorge Amado engasguem os estafetas de governação e, na falta de gás, Elsa Garrido, Júlio Silva, Abel Bom Jesus (agricultor por excelência e ativista-chato ao governo), Lázaro Afonso, Eugénio Tiny, Moisés Viegas e os demais, a engrossar o mosaico da banalização presidencial, ilustrem aos são-tomenses de que na deriva, santos e pecadores, Somos Todos Presidentes. Só que, não basta querer ser (quantidade), nem o endurecimento dos itens de concorrência, mas sim, há que saber ser (qualidade) o candidato ideal ao palácio cor-de-rosa.

O país nesta altura, a auxiliar à sujeira de desigualdades sociais, impunidade, assaltos, bandalha, delinquência e desemprego – mais de três mil jovens habilitados na fila pela vaga de cem ingressos na Polícia Nacional – vê-se enfermo nos desígnios da Humanidade, por um lado, Direitos da Criança com a criminosa avalanche de violação sexual de criaturas indefesas e, por outro, Direitos do Homem com o assassinato (traumatismo craniano) pelo Estado do cidadão, Nelson Rita “Lady”, à sua guarda.

O silêncio viscoso à sociedade civil liderada que, recentemente – aplausos – esbracejou aos microfones internacionais contra o fedorento abuso sexual infantil e violência doméstica, agudiza a consternação com a demissão dos diretores da Penitenciária e Judiciária, Lázaro Afonso e Aurito Vera Cruz e, no mais recente, a impressa, Tela Non, alertar de que três policiais, Anderson Teixeira, Olinto Deus Lima e Jackson Oliveira, os suspeitos de mãos de sangue do defunto e detidos preventivamente pelo Estado, em contínua violação dos direitos elementares, mergulham “a vida no meio de água fétida, que transborda dos esgotos e das fossas cépticas do edifício da Polícia Judiciária”.

Dos pretendentes presidenciais, por mais sofisticados que sejam os currículos, a sociedade, dependente de profecias, deveria estar a ser vacinada de pronunciamentos adjudicados, já que o mais alto representante da República, não deve limpar as mãos de Pilatos perante os bárbaros crimes à Nação.

Vencido de 2011, o Delfim Neves, do PCD, antigo ministro, a ensombrar ao Carlos Neves, UDD/MDFM, antigo embaixador nas Nações Unidas, na repartida barafunda governativa do XVII Governo constitucional com o MLSTP, animado portrapalhadas de competência e negociatas da cadeira do presidente do Parlamento, o protagonizante do ridículo refrigerante “Ocê ké luta, un!?” – nada abonatórias à pretensão presidencial – mendigo atroz pelo projeto de nova sede parlamentar num país luxuoso em mente tacanha, topo de gama vis-a-vis à lixeira de Penha, mãos estendidas, saúde assassina e os dois únicos hospitais na vergonhosa ruína, deveria poupar aos são-tomenses na intenção ao palácio do Povo.

O seu rival, líder da ADI, depois do terramoto de 2006, perdido ao favor do “amigo” Fradique Menezes, mediu o regresso, maturo, num mediático duelo da geração pós-Cívica, mas precavidos, os adversários de Patrice Trovoada, o antigo ministro e recordista nacional, por três vezes Primeiro-ministro, retiraram-lhe o direito de cidadão elegível por culpa viciada de servir-se de São Tomé e Príncipe e não o expetável como a Nação assistiu, impávida, o seu silêncio financeiro e desleixo na cativação de parceiros, fundos e bens essenciais ao “povo pequeno”, largado à sua sorte, nas estranguladas medidas sanitárias e anti-sociais de luta contra a Covid-19.

No show anunciante do “submisso”, a olhar à si mesmo pelo espelho da anterior liderança autoritária, divisionista, despesista e egoísta na maioria absoluta do XVI Governo, ao invés da prometida despedida, deu a entender aos são-tomenses de que dos políticos profissionais, as palavras não são de registo, se revermos a sua promessa em 2014: «Não poderei ter maior satisfação do que, ao deixar o palco político, nas vésperas dos meus 60 anos, olhar tranquilamente para o meu país entregue a uma classe política de jovens compatriotas, solidários, mais competentes e preocupados com a Nação, diversos, modernos, criativos, tolerantes, competentes, orgulhosos, livres e verdadeiramente democratas ».

Oportuno, o “chefe vitalício” à espreita da chacota do MLSTP/PSD na opção de um antigo Primeiro-ministro à corrida, seguida de alocação absolutista aos funcionários públicos, na contra-mão da democracia, em obedecerem a decisão de Jorge Bom Jesus e a desprestigiante “bagunça” de outros cinco pré-candidatos, uma vez mais depois de Fradique Menezes (escapuliu-se e fundou na presidência o MDFM) e Evaristo Carvalho (“água-subiu ô água-desceu”, marcou o próximo sufrágio sem o vírus de demissão de governo), impõe um pau-mandado ao desafio da suprema magistratura.

O Guilherme Posser, político moderado e mobilizador de consensos, dentre os da geração intelectual da Cívica que se engajaram na brilhante viragem referendada em 22 de Agosto de 1990, se a história de um povo fosse retilínea, do seu MLSTP, apenas Manuel Vaz Fernandes, algures, de impulso avesso e discurso rígido, desafiaria-lhe quando achassem o “timing” certo de concorrer ao mais alto cargo da Nação.

Porém, o usufruto contagiante do liberalismo democrático em que se empenhou por uma escola ilícita, usurpadora da democracia do direito em detrimento da democracia do povo “di barriga panzu-panzu a chuchar un cacharramba e droga” e aos desmandos com que todos naufragaram o conhecimento, a saúde e a justiça social, o “Advogado” deveria ter a noção de aritmética e amargas tentativas presidenciais anteriores de Alda Bandeira, Filinto Costa Alegre (vencido de 2011) e Carlos Tiny, de que a par da geração, falharam Todos e São Todos Parentes de cartas fora-de-baralho.

Uma disputa estratégica, se o partido virasse à ótica nacional de médio prazo e na eventualidade do líder e dos “camaradas” munirem-se do trabalho de casa, a aposta de remediar – no receio de confiarem num outro santo-de-casa ou algum ilustre da sociedade civil – recairia, na valorização de géneros, numa das duas militantes saídas “di cantxim di cama”, as antigas Primeira-ministra e ministra, respetivas ou no menos poluente, o Coronel na reserva, Victor Monteiro, antigo ministro, prestativo à Nação e a inspirar-se pelo brio militar, almejaria da cadeira presidencial o contributo na transição de paradigma dentro dos parâmetros constitucionais.

Pelo contrário, a desmedida ganância com que os profetas da praça, fingindo de santos, mascaram a democracia, extrapolando conceitos e melhoria de vida do povo, sujeita à governação a oferecer, de bandeja, a vitória presidencial ao candidato da oposição. Todos vão ao tempo de marcha-atrás, debate político, económico e social e acima de tudo o necessário projeto viável à sociedade para a melhor gestão da expetativa presidencial.

Assim, do Abril caudaloso (sem a bacia de retenção) e “kumbu” partidário, resta um vencedor na sombra, beneficente de faca e queijo de catapultar os eleitores a ser o refinado para o exercício presidencial 2021/26. Beneficia de três performances: pessoa discreta e bem sucedida na aposta privada, pescador favorito da contestação popular e dispersão dos votos da Nova Maioria. Tem ainda ao seu prazer, a serventia nos XIV e XVI Governos constitucionais, carecendo em termos de mando político, brilhar com a própria “cachimónia”, a mais exigível no mastro constitucional de ponte, consenso, magistratura de influência, diplomacia e intervenção no rumo ideal do país, mas goza de suficiente sabedoria, modelos e eventual concelhia de não vir a ser do mesmo.

A arriscada Maioria, a medir a sua sepultura na selva de má gestão-comunicação, olhar ao próprio umbigo e restrições sanitárias, económicas e sociais de Covid-19, prescindirá da engenharia do futuro inquilino presidencial, Carlos Vila Nova, para arrumar com o governo e precipitar a ida eleitoral legislativa ou socorrer-se de um elenco ao prazo que, na infeliz alternância de faz-de-conta e para a penitência rotativa de erros, acertos de conta e desprestígio democrático, devolver o executivo à ADI para os cronistas, comentadores e jornalistas despojados do quarto poder e na partilha do bolo, degustarem-se no quarto do poder rasgando as ruins e retóricas memórias.

Para efetivar o direito democrático de oportunidade e não de exclusão do Mar, a maior riqueza do país, a sua diáspora, economizar em passeios dispendiosos ao erário público e evitar a fantasiada participação dos filhos no estrangeiro, milhares de cidadãos em idade votante, nas opções do país, os legisladores na legalidade e igualdade, sem medo de fantasmas, devem no proveito das novas tecnologias, sem demora, implementar e codificar de forma segura, o registo e o sufrágio eletrónico, como um dos pilares de uma promissora reforma eleitoral.

Sustenta-se de que em França, a sirene da Comissão Eleitoral Nacional, não passou disso mesmo, embora alguns curiosos e ativistas, à beira de dois meses, se disponibilizaram, mobilizaram e enviaram às instâncias consulares, pela primeira vez e sem o “feedback” exigível, as identificações pessoais e mais informações da idade eleitoral. A pandemia viral, Covid-19, baralhou ao mundo, mas semeou uma experiência preciosa, a presença física e os gabinetes de aglomeração passaram a ser algo arcaico, dando lugar à ferramenta “on line”, a empreitada que São Tomé e Príncipe, no meio do mundo, deveria servir de modelo à democracia mundial.

Por fim, a África para lá de solidariedade aos deslocados moçambicanos, quase um milhão, no traumático contexto de viver a pobreza no chão da riqueza, deveria ser intimada a refletir na teimosia dos dirigentes manterem-se vitalícios nos cargos, na proteção de interesses das potências internacionais, o que ontem, fatalmente, custou a vida ao presidente do Chade, Idriss Déby, de 68 anos, no poder há trinta e um, renovado nas eleições de 11 de Abril – apesar do boicote dos opositores – para mais seis anos, agora assegurado pelo Conselho Militar, para 18 meses (?) e chefiado pelo seu filho Mahamat Idriss Déby Itno, o jovem General de 37 anos.

José Maria Cardoso

21.04.2021

 

    Comentar

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Topo