Opinião

Pinto da Costa na camisa-de-forças, sem amnistia da Democracia

Não será demasiado insistir e insistir que sem mudança de atitudes e de comportamentos dos cidadãos em geral, e da classe política, em particular, não haverá progresso nem bem-estar neste país, pois os seus recursos humanos e naturais nunca serão devidamente aproveitados. Volto teimosamente e repetidamente a insistir, (Diálogo Nacional) porque a situação atual de São Tomé e Príncipe ultrapassa a normalidade.

Os são-tomenses, em específico a juventude perdida na “puíta” de natalidade descontrolada e sem futuro, quererão lá saber da “rumba” de Diálogo Nacional, quando no seio dos Nacionalistas e antigos jovens da Cívica, no balanço de gestão ruinosa do país, não se vislumbra a convergência nessa rumaria?

“De relembrar, que no Fórum de 1998 o Presidente Miguel Trovoada, lançou um apelo em relação à necessidade de se criar um clima de consenso nacional. Outros Fórum, Diálogos Nacionais, Conferências dos quadros técnicos foram realizados e até agora sem sucesso desejado. Já chega de palpites e de improvisações. Em 46 anos de independência ainda não fomos capazes de acordar um Plano que formulasse em bases sólidas, o que os santomenses desejam para STP.”

Miguel Trovoada, no ano de 2013, numa entrevista à RDP-África, a estação pública portuguesa dedicada à lusofonia africana, em que detetar Pinto da Costa, mesmo ao expor-se, é ariscar-se, sem êxito, a agulha rasurada no palheiro, o antigo presidente das Forças de Mudança, em reação aos saudosistas e putos, estes desconhecedores do custo de sacrifícios dos fundadores da Nação e do povo, com marco hediondo no Massacre de Fevereiro de 1953, centenas de assassinados, ao ponto de pedirem à Portugal, a receber de volta São Tomé e Príncipe, era perentório:

«Não! Non creio! Não creio, (na preguiça intelectual e retórica deles) porque então, eu diria que estamos todos loucos!»

Nas presidenciais de 2006, Pinto da Costa apoiou Patrice Trovoada de ADI contra Fradique Menezes, o vencedor do MDFM. Com o primeiro, partilhou o quarto pessoal do miúdo, em Gabão, aquando da luta nacionalista, enquanto o empresário, foi o embaixador e ministro dos Negócios Estrangeiros do regime ditatorial. Com o gesto de apoio ao filho do amigo de infância e nacionalista, não acreditava enterrar o machado da guerra?

Na verdade, as brigas entre os Partidos políticos santomenses não resultam, nem das diferenças das inexistentes estratégias programáticas de desenvolvimento para STP, nem, muito menos, das diferenças ideológicas. Resultam principalmente das cargas subjectivas pessoais não superadas do passado, da ambição do poder e do desejo de desforra.

No “pronto-a-vestir”, mantém a confiança que o Chefe do Estado me partilhou, no Mouro da Trindade, de que o seu amigo Trovoada, não carrega recalcamentos do passado? O filho, o pouco período em que fizeram a dupla, 2011/2012, Presidente da República e Primeiro-ministro, este sempre fugiu o aperto das mãos, não permitindo entenderem no melhor rumo para STP? No seu livro “Patrice Trovoada – uma voz africana”, de 2014, ele não direcionou a visão para o país, sem espicaçar Pinto da Costa.

“… a DEMOCRACIA, na maioria esmagadora dos países europeus do Ocidente, não caiu de pára-quedas. Foi o resultado de um longo processo de evolução cheio de contradições, com guerras e revoluções. O caminho foi longo e ainda hoje com alguns espinhos. É evidente que, nas actuais condições do mundo moderno, os países outrora colonizados não terão nem que declarar guerras nem fazer revoluções para chegarem à DEMOCRACIA.”

No ano de 2012, os parlamentares são-tomenses trocaram a camisa de força, pela arriscada camisa-de-forca. A bomba-relógio derivada de egoísmo, ódio, rancor e nepotismo na relação de forças para o poder, transformou a nobre sala da Democracia de Vila Maria, a obra dos chineses da 1a. República, no palco de pugilismo e quase deitou no lixo a auto-estima de um todo povo.

É urgente acabar-se com esse tipo de brigas entre os Partidos políticos santomenses, com reflexos altamente negativos nas comunidades do país. Cria e alimenta conflitos nas nossas comunidades. STP precisa de um rumo consensualmente traçado.

Com 37 anos de idade, assumiu, em 1975 e manteve 15 anos no comando da Nação de Amador. Após as tentativas falhadas em 1996, para com Miguel Trovoada e 2001, no confronto com Fradique Menezes, os dois com o apoio de ADI, é o eleito pelos são-tomenses, como independente, Presidente da República, em 2011, derrotando Evaristo Carvalho, também de ADI. Este vinga-se, em 2016, sendo o eleito ao mais alto cargo da República. Qual o complexo de criar a réplica de assumir, consciencializar e direcionar São Tomé Príncipe ao desenvolvimento?

Será que a regular realização das eleições autárquicas, legislativas e presidenciais, é suficiente para se ter uma democracia saudável? Nas condições atuais porquê não decretar 2022 o ANO de REFORMAS em STP? Não será que temos estado a agir teimosamente, mais e com frequência, sobre os EFEITOS e adormecidos sobre as CAUSAS dos fenómenos?

Nem os meninos descalços e rotos dos “luchans”, nem os cabo-verdianos, angolanos e moçambicanos largados em 1974/75, por Portugal à sorte das sanzalas, que jamais mastigaram a qualidade equitativa do fruto da independência e, mais, a Democracia no desmembramento das antigas roças coloniais, a rejeitar-lhes ao abandono e à pobreza, depois de uma vida de abnegação ao cacau, café, à copra e ao sustento da economia nacional, gozam de autoridade sentimental daqueles que diretamente foram vítimas do regime pintista.

Por mais lindas que possam ser as prosas, os sobreviventes da ditadura, jamais perdoarão o responsável (único) dos 15 anos. Passado trinta e um anos do uso da camisa de força, numa bipolarização, armadilhada, desperdiça-se o país em duas beldades, numa ilustração dos santos são-tomenses, DELE, Miguel Trovoada, filho e ADI e, os são-tomenses pecadores, DELES, Pinto da Costa, MLSTP e companhia.

Não acha urgentíssimo e prioritário, sarar as feridas do passado? Num encontro de porta fechada ou aberta, com os sobreviventes, muitos deles quadros reputados, o antigo ditador, agora democrata, deveria cerrar as mãos do amigo Miguel Trovoada e todos os outros, pedindo-lhes Perdão Público. Não seria o primeiro passo para o Diálogo Nacional?

“… mas é possível percorrê-lo através do DIÁLOGO entre todas as partes políticas e não políticas, entre instituições e destas com a sociedade, entre os partidos e suas direções. DIALOGAR para a mudança, na situação em que o país se encontra neste momento, tem de ser interpretado como um APELO autêntico e genuíno que vai para além de uma mera declaração voluntária de boas intenções.

No final do ano passado, os sul-africanos curvaram-se e o mundo imitou-lhes o gesto perante a morte de Desmond Tutu, o Homem e Arcebispo que, depois de luta contra o Apartheid e prisão, conjuntamente com Nelson Mandela e outros, reconciliaram os negros, indianos e brancos. São Tomé e Príncipe, é a exceção nos PALOP. Os insulares com pouca fé, ainda não deram cartas religiosas suficiente à Santa Sé para que um filho da terra, fosse ordenado Bispo.

Em Outubro passado, o país perdeu dois abnegados filhos de causas de libertação de São Tomé e Príncipe, o nacionalista, médico e Paludólogo da OMS, Guadalupe de Ceita e o ex-Cívica, antigo ministro e professor de Direito, Manuel Vaz. O MLSTP não foi recomendado pelo presidente Honorário, a reagir para que os são-tomenses e o mundo seguissem-lhes em homenagem de perda eterna dessas personalidades e outras mais de reconhecimento intelectual para lá das ilhas? O democrata e saudoso Carlos Graça, bem dizia: “Na política, não há gratidão!

Ocorre-me, neste momento, a constatação feita pelo ilustre Dr. Armindo de Ceita do Espírito Santo no seu artigo publicado no TELA NÓN, com o título “Fatos e dados históricos.” Segundo o ilustre professor “ os erros que têm existido nessa matéria (História) e noutros têm uma origem : os políticos, pelo menos uma boa parte deles, acham-se os donos do país e da razão e excluem-se da decisão sobre assuntos vitais, o papel dos técnicos, dos académicos e dos cientistas. Põem-se de costas à ciência e à técnica e consequentemente ao desenvolvimento”.

No uso do populismo barato, consegue-se atingir ao cérebro do povo, governando o país de dentro, fora ou em viagens extraordinárias, com o custo exorbitante ao tesouro público. Por mais miséria do dia-a-dia das populações, basta o banho eleitoral e a inauguração de um chafariz e cabos elétricos, sem água, nem luz da EMAE no dia seguinte, construir umas barracas habitacionais de madeira, sem WC, remendar uns buracos de estrada dos mil em um pela capital e pelo país, construir uma escola ou coisa mínima, sem enquadramento arquitetónico e de desenvolvimento. Nojento, é assistir os diretos da diáspora nas capitais desenvolvidas, a bater palmas aos respetivos governantes.

“Os processos históricos de mudanças não são conseguidos por este ou aquele líder, mas pela força do coletivo. São as massas que ajudam a mudar o mundo e sem elas os líderes bem podem clamar as suas vias para transformar o futuro que eles serão intransitáveis por falta de seguimento.”

Finalmente! Vale tarde que nunca. Após as “Entre Vistas” com “Camaradas do MLSTP/PSD traíram ao pensamento de Charles Koumba”, 2013, “Pinto e seus refractários atentaram contra Trovoada”, 2015, “Dívidas de um povo ao seu Médico, Doutor Guadalupe”, 2015, dentre outras, como da água de saciar a sede, carecia no expositor, a conversa com Pinto da Costa, o antigo ditador de mutação democrática, carregado no colo ocidental nos finais do ano oitenta e início de noventa, a reclamar “Uma Vez Mais o Diálogo Nacional?

O caminho para esse máximo denominador comum, não é fácil…

A inovação das redes sociais na comunicação e informação, permite a ginástica de introduzir dinâmica nos pensamentos espelhados nos livros, nas entrevistas e opiniões, embarcando os prós e contras da opinião pública, a uma viagem ousada desfrutando ainda “As três camisas de Força” na tertúlia do antigo Presidente da República. Nunca é demais revisitar o passado para mobilizar o presente de modo, a chegar o futuro com a base sólida na História Universal.

Ao longo da História universal as potências dominantes impuseram aos territórios africanos conquistados, TRÊS TIPOS DE CAMISAS DE FORÇA: ESCRAVATURA, COLONIALISMO e, depois da independência, a DEMOCRACIA…

A nova força social então dominante, a BURGUESIA estava mais interessada na compra da força de trabalho de “homens livres”, desprovidos dos meios de produção e possuindo como único meio de sobrevivência, a sua força de trabalho. Entretanto nos territórios africanos, aos escravos libertos “mudaram-lhes a camisa”e passaram a trabalhar com o estatuto de CONTRATADOS, uma forma deslavada da escravatura.

Em 1917, com a revolução bolchevista na Rússia, as potências dominantes do Ocidente sofreram um primeiro abalo. E com a derrota da Alemanha nazi e o surgimento do novo bloco de países socialistas, o mundo bipolarizou-se, favorecendo assim a criação de condições objectivas e subjectivas favoráveis à intensificação da luta de libertação nos territórios então colonizados.

Por mais que o caminho seja de pedregulho, vale ao homem africano à inteligência de interpretar os momentos e acertar os passos de cada camisa de força.

A TERCEIRA CAMISA DE FORÇA é, sem dúvidas, um instrumento de estratégia das potências dominantes que aprenderam com a prática, que os intermináveis golpes de Estado, tantas vezes incentivados e apoiados por elas, já não eram suficientes para manter no poder regimes favoráveis a manutenção dos interesses vitais da Metrópole. A implantação da TERCEIRA CAMISA DE FORÇA “pronto-a-vestir”, nos países do chamado terceiro mundo, sobretudo em África, tinha como principal objectivo amarrá-los ideologicamente.”

Um pouco mais da História Universal que não se ensina nas escolas europeias e ao que parece, não faz parte dos conhecimentos da juventude, mesmo concluida os estudos em África.

Conquistada a independência, os novos países africanos, a maioria, com o acordo tácito das próprias potências coloniais, optaram por um regime de Partido único. O Poder colonial estava esperançado nos efeitos destabilizadores das “prendas”envenenadas que deixava como herança ao novo Poder, às forças nacionalistas.

Com efeito, durante a colonização, as potências coloniais manipularam e fomentaram artificialmente rivalidades tribais, com o objectivo de dividir para melhor reinar. Como consequência dessa operação, até a data, na maioria dos países africanos, o sentimento de pertença tribal ainda prevalece sobre o nacional, o que vem dificultando sobremaneira, na maioria desses países independentes, o indispensável entendimento entre as forças políticas nacionais, de modo a estarem mais bem preparadas para enfrentar com sucesso a luta contra a pobreza, pelo desenvolvimento nacional.

A verdade é que, sob pressão da luta de libertação, não restava às potências coloniais, no mundo bipolarizado, outra alternativa.

Ainda não tinha estado com um livro direcionado, reclamação viva, uma entrevista ou um artigo de opinião do nacionalista que me afirmou, já na terceira camisa de força ocidental, de que na Cimeira dos PALOP, na década de oitenta, ter tido uma atitude insólita. Na época, fez saltar das cadeiras presidenciais, os seus homólogos, todos sentados no sofá da África socialista.

Abalou aos seus pares, Aristides Pereira, de Cabo Verde, José Eduardo dos Santos, de Angola, Nino Vieira, da Guiné-Bissau e Samora Machel, de Moçambique de que iria vestir-se e ao seu povo, a camisa de força, a tão propalada Democracia, traduzida em 1991na derrota do MLSTP, menos sofrida perante o PCD e o regresso ao poder, três anos volvidos, ao contrário do PAICV, que correu mais que as pernas e foi estrondosamente derrotado pelo MPD.

Ficará registado na História que o processo de democratização da sociedade santomense teve o seu início desde 1985 no interior do próprio partido único, o MLSTP, com a introdução, no seu estatuto, do DIREITO Á TENDÊNCIAS.

Não é obra do acaso, a opção deste dia, 20 de Janeiro, Dia também do nascimento de Francisco José Tenreiro, um dos brilhantes cérebros da terra, para a conversa. A fadiga dos discursos políticos e a corrupção ligada a pouca crença, no país, nem a data do batismo da “Mudança”, 1991, nem a do nascimento, 22 de Agosto, Dia do Referendo Popular, 1990, que selou a promessa, os são-tomenses comemoram e refletem a camisa de força, e mais, por resultados envenenados, os críticos dos nacionalistas, não se orgulham da viragem histórica.

Ao contrário, os cabo-verdianos para que nenhum outro povo africano lhes roube a Democracia, têm mostrado serviço e comemoram 13 de Janeiro com unidade nacional e júbilo de 1991 com foco permanente no Amílcar Cabral, pai fundador da independência da Guiné-Bissau e Cabo Verde.

Socorrendo-se dos resultados da aturada análise feita pelo Comité Central do MLSTP sobre a evolução da sociedade santomense desde 1975 até 1985, por um lado, e atento às mudanças então em curso na cena política internacional, com o desmoronamento do campo socialista e o consequente reforço do mundo unipolar, por outro, o Bureau político do MLSTP/PSD decidiu auscultar o povo.

O galardão na eleição presidencial cabo-verdiana, de 17 de Outubro passado, ao antigo Primeiro-ministro (15 anos) José Maria Neves, do PAICV, que vestiu os primeiros 10 anos de camisa de força, na oposição, como recompensa ao engenheiro de infraestruturação das ilhas de “morabeza”, é o testemunho indiscutível e de embaraçar a antiga colónia que para lá do Campo de Concentração e de morte lenta de Tarrafal, jamais apostou no desenvolvimento do arquipélago.

Em contra-mão, os são-tomenses, desde 1991, com a alternância do poder, em golpes palacianos, contra-golpes institucionais e eleições sazonais, trocaram o cérebro da geração brilhante do início do século XX que conduziu os ideais dos africanos, na antiga metrópole, pelo bem material e nenhum só salvador, vê-se inibido de corrupção, uma das razões e sentida dos insucessos da camisa de força, mas com o champanhe anual das instituições internacionais dando crédito ao descrédito.

O que é verdade incontestável, a democratização é um processo universal. Resta no entanto saber se, na maioria dos países do “terceiro mundo,” estariam criadas condições objectivas e subjectivas suficientes que lhes permitam vestir, sem percalços, a terceira camisa “pronto-a-vestir.

Após o naufrágio histórico, político e social, um olhar à economia insular de manufatura. A corrupção é abusiva, o roubo de areia e a destruição da floresta, são propriedades privadas, em conluio com os governos e, o “bolo-de-arroz-de-Japão”, ao invés de servir ao desenvolvimento, tem sido um pesadelo, bem sucedido aos dirigentes, dentre os vários crimes contra o povo para não citar o paradeiro atlântico da fumaça da zona petrolífera conjunta e dos blocos petrolíferos.

Os nacionalistas confiaram a Praia Pomba aos americanos de VOA, a Praia Emília e o Ilhéu Bombom ao Herlinger, mantendo o património natural e a beleza paisagística. Os democratas, de governo ao governo, no desastre ambiental, destruíram as praias virgens, quilómetros e quilómetros de areia dourada, desde o aeroporto até a Lagoa Azul. Praia Juventude, Micoló, Fernão Dias, Magodinho, Praia das Conchas e outras, não dão gosto de ver aos olhos, nem ao banho tropical para além de minguar a carta territorial.

O atual Chefe do Estado, Carlos Vila Nova, enquanto Comandante Supremo das Forças Armadas, sem o apoio do Ministério Público, não deveria enviar os militares ou o próprio Corpo de Segurança do Estado, a controlar as praias? O país não dispõe de um juiz a altura dos sul-africanos que mantém na prisão o antigo Presidente, Jacob Zuma, implicado no desmando da coesa pública? Ou no uso das duas máscaras, o país reclama mesmo a reencarnação do Tenente Pinho?

As respostas a essas e às outras preocupações, já não devem ser deixadas unicamente à reflexões e decisões da classe política nacional.

A corrupção, é um ativo institucinalizado pela Democracia e, de tempo em tempo, os eleitos prometem mãos duras de aniquilação. Não acha a tática rotineira seja intencional de distrair os são-tomenses na proliferação dos novos ricos, apontando insistentemente a bala em direção contrária?

“O mais preocupante, é que as sucessivas gerações vêm sendo mecânica e sacrificadamente envolvidas nessas brigas, quantas vezes, sem alternativas, só para garantir a sobrevivência pessoal, num país deveras estatizado, onde se assiste a um aumento exponencial da população e a um acelerado decréscimo da produção de riquezas.”

Os hospitais e serviços de apoio sanitário, belas arquiteturas coloniais, foram todos destruídos, à exceção do Hospital Central Ayres de Menezes, em São Tomé e o Hospital Quaresma Dias da Costa, no Príncipe, a gritar pela própria saúde envelhecida e degradada, sem tecnologias e medicamentos básicos, a dividir os espaços com bactérias, lixo e pragas. O combate à Covid 19, tem sido dificultado por falta de estruturas sanitárias, enquanto Edgar Neves, o ministro da Saúde e os médicos, brigam na praça pública pelo absentismo profissional e roubo dos medicamentos.

Novos bairros residenciais nas periferias da capital e para lá, a ferir a harmonia arquitetónica, sem acessibilidades de vir a facilitar a ação dos Soldados da Paz, os bombeiros, dividem paredes e meias com as cubatas. Não se tem tido em conta, infraestruturas e serviços básicos de apoio, drenagens, esgotos, estradas, passeios, WC e jardins públicos, comércio, educação, saúde, laser e outros. Os muros de vedação mais altos que os palacetes e as câmaras de segurança previnem de assaltos e “olho cheio-cheio”, mas não impediram que a enxurrada de 28 e 29 de Dezembro último, deixasse ao nu a fragilidade mental da elite da praça.

Mais uma hora de pluviosidade, os pântanos a proliferar os mosquitos, em reivindicação de vitória palúdica contra a Saúde Pública, em desrespeito aos esforços dos chineses de Taiwan, um novo negócio, estaria em prova, com o aluguer de canoas para a mobilidade nos novos bairros luxuosos da capital.

As desigualdades sociais que jamais criaram riqueza e empregos, têm sobrecarregado o Estado, sem norte e, germinado assaltos violentos, violência de géneros, violações infantis, de mulheres e idosas, preguiça, desrespeito, desordem e mais males desviantes como o uso de drogas que alteram a tranquilidade e convivência sã, tudo devido ao aperto da camisa de força que amarrou os membros e o cérebro dos são-tomenses.

De relembrar que os principais partidos nascidos depois de 1991, ou foram criados ou albergam nos seus órgãos executivos antigos dirigentes deslocados e desavindos do velho MLSTP, do partido único. E quase todos os dirigentes dos Partidos da chamada “família da mudança” foram militantes ativos do velho MLSTP. Cada um transportando consigo, como herança, cargas negativas do passado oportunisticamente catalogadas de divergência política e ideológica.

A conquista da independência política, declarada pelo Presidente da Assembleia Constituinte, Nuno Xavier, às zero horas do dia 12 Julho de 1975, com as lágrimas emocionais a arrear a Bandeira portuguesa e hastear a da nova Nação africana, momento único e de História Universal, seguiu-se a independência económica no histórico comício na Praça Yón Gato, no dia 30 de Setembro, aonde a multidão eufórica, assinou por baixo, em grito vitorioso “É nossa!” as roças coloniais de monocultura.

Após ao falhanço das nacionalizações e de gestão estrangeira, Monte Café e Santa Margarida, a Reforma Agrária transformou-se no talhamento e apropriação das terras agrícolas e edifícios, belos palácios, tornando negócios pomposos dos vários governos da Democracia, incluindo o atual de Jorge Bom Jesus. São acusados de desalojar os descendentes agrícolas ou distribuir-lhes terras, imediatamente, açambarcadas pela classe política e pelos altos funcionários públicos, numa inflação exagerada, que são depois vendidas até pelos próprios, os detentores ministeriais, aos estrangeiros.

Quem não tem cão, caça com gato!” Critica-se de que a prática se alastrou aos governos distritais com a venda antecipada de metro e meio de descanso eterno pelo valor de milhares de euros nos cemitérios de São João da Vargem e Trindade. O Direito do território de defunto, é uma herança cultural, deixando os mais vulneráveis revoltados quando os seus entes queridos, são sepultados fora das respetivas freguesias do testamento.

Aos filhos que saltaram a água em busca da vida e, muitos, têm sido a retaguarda familiar, folgando ao Estado das responsabilidades para com os idosos, reformados e familiares, lhes restarão um pedaço de terra de dar gosto de viver, em São Tomé e Príncipe?

Pertenço felizmente à geração da UTOPIA… o activista político brasileiro, Eduardo Moreira, entrevistado por um jornalista, que lhe perguntou se ele tinha a esperança de que o seu filho iria viver num Brasil melhor?

… O ativista respondeu-lhe: “Se não houver frutos, valeu a beleza das flores; Se não houver flores, valeu a sombra das folhas; Se não houver folhas valeu a intenção das sementes.

Bravo! Para os optimistas vencerem na vida, há um príncipio assumido, “tudo que é mau, tem algo de bom!” incluindo o SARS-COV 2 que acelerou as investigações e em tempo recorde, a Ciência colocou ao serviço da Humanidade a nova vacina de combate ao novo coronavírus. Na alta maré de constatações e feito o retrato, há que descortinar soluções para São Tomé e Príncipe.

A CARTA seria um conjunto de normas consensuais de conduta susceptíveis de tornar mais eficaz a aplicação de qualquer disposição legal, mais patentes e acentuada o sentido de responsabilidade, individual e coletiva e, proporcionarem oportunidades de participação mais consciente do cidadão na vida nacional. Medidas concretas seriam apontadas para diferentes domínios da convivência social, nomeadamente EDUCAÇÃO, Prevenção da corrupção, Boas maneiras e Lealdade, Competência e Profissionalismo, Administração Pública, Defesa e Segurança, Ordem e Segurança Pública, Cooperação Internacional, Meio Ambiente, Cultura, Nacionalidade e Identidade Nacional.”

Portanto, não valerá a pena o bla-bla-bla dos vergados ao antigo colonizador de vir buscar a terra de escravatura, colonialismo e indignidade do homem negro, que perdurou mais de Cinco séculos da história colonial europeia, em África?

Valerá sempre a pena lutar e lutar para transformar São Tomé e Príncipe num cantinho da TERRA onde dê gosto viver.

Quase-quase no derradeiro instante da “Entre Vista”, não é de resistir a questão. As presidenciais de 2021, foram das mais indecentes, diria mesmo, criminosas, da camisa de força. O Estado de Direito Democrático, foi  vergonhosamente perturbado pelo candidato derrotado, Delfim Neves, banho e seu defensor, o Juiz presidente do Tribunal Eleitoral, Pascoal Daio. Uma vez mais, a ADI com Carlos Vila Nova venceu, na segunda volta, ao candidato do MLSTP, Posser da Costa.

Passado as eleições, o candidato derrotado na 1a volta, dos quase duas dezenas, reassumiu a cadeira legislativa de Presidente do Parlamento, o juiz na cadeira suprema constitucionalista e o país sujo de banho, segue o rumo leve-leve, como se, de nada gravíssimo tivesse ocorrido. Valem as eleições, a corrupção anexa e as alternâncias do poder para a Democracia são-tomense, estar reconhecida nas instituições internacionais como das mais sólidas da África?

O senhor Presidente da República vai ter que agir com a habitual serenidade porque, repito, o sistema democrático santomense corre sérios riscos de perder credibilidade e, por conseguinte, a legitimidade. Valerá mesmo a pena continuar a sonhar, continuar a insistir, continuar a lutar? Será que um dia todo esse esforço dos santomenses será coroado de êxitos? Que perguntas!? Eu acredito que sim.

Apesar da Democracia ser um edifício de lindos mosaicos, alguns conceitos consumados pelo ocidente, não devem ser tocados, porque ferem sensibilidades, embora retirem a liberdade de pensamento ao africano, sob o discurso permanente deste cuspir no prato, em que alimenta o dia-a-dia.

Submetidos durante séculos a várias formas de opressão, os povos dos países do “terceiro mundo” saberão escolher com segurança, sem guerras nem revoluções, o caminho da LIBERDADE. Só têm que proceder a múltiplas reformas de modo a estarem em devidas condições estruturais e políticas para poderem usufruir dos benefícios da DEMOCRACIA.

As mulheres são guerreiras nos desafios familiares, sociais e económicos e, maioritárias, grandes cérebros nos desempenhos de Saúde, Educação e outros, mas muitas são criticadas por axfixiarem-se no feiticismo, obscurantismo e nas novas igrejas, aprovando que os homens lhes deixem adormecer “un cantxin di cama”.

Três ilustres figuras femininas, intelectuais e de gabarito internacional, apenas uma serviu ao regime ditatorial de 15 anos e enviada ao exílio, uma carrega a perda do pai, morto às masmorras de segurança pintista e a terceira, mais jovem, todas vêm trilhando um caminho de orgulhar os são-tomenses DELE e DELES.

A embaixadora Maria Amorim, a professora Inocência Mata e a jornalista Conceição Lima, uma delas, convidaria para dirigir os homens são-tomenses na arquitetura do Diálogo Nacional, com pilares sólidos de apaziguar, cerrar as mãos e direcionar o país ao porto seguro de desenvolvimento?

Na conjuntura atual, este processo de Diálogo Nacional, tem de ser iniciado e liderado por uma individualidade sobre quem recai constitucionalmente a responsabilidade de garantir a unidade do Estado e assegurar o regular funcionamento das Instituições.

Parece-me sensato e vivamente recomendável que os assuntos de natureza estratégica e de interesse nacional a serem apresentados num debate público ou fórum devem ser previamente identificados e preparados por uma equipa de técnicos, de académicos e cientistas, partidariamente libertos, escolhidos e nomeados pelo Chefe de Estado após consultas no CONSELHO DE ESTADO.

Sun Pinto, podamu kunfiança!” Temos de fechar a longa consciencialização para que o país, de mãos dadas, sem excluídos, atinja os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável do PNUD. A primeira década do regime pintista foi rasurado, indecorosamente, de condenação da diáspora, especialmente, a residente em Portugal, conotando-a de reacionária e inimiga do povo são-tomense.

A diáspora já é de visibilidade política-autárquica, académica, científica, musical, desportiva, dentre várias outras ousadias, a carregar no peito e com orgulho a Bandeira de São Tomé e Príncipe. O Dia Nacional, 12 de Julho, não deveria ser de reencontro dos políticos e os que saltaram a água?

Após a crise sanitária pandémica, o mundo já não será a mesma coesa com o país, a necessitar do turismo para o relance da economia, bastante influenciada pelos turistas nacionais de visita às origens. Justifica que a Democracia são-tomense, passado mais de três décadas, de buzinão em buzinão, os governantes e parlamentares, apesar das ajudas financeiras e outras, ao invés de premiarem a diáspora, optem por reativarzangas constantes para com os filhos em “côbô d’awá”, especialmente, os residentes na Europa, devido o usufruto do direito constitucional de liberdade do pensamento?

“A História não anda para trás!

José Maria Cardoso

20.01.2022

7 Comments

7 Comments

  1. Gilberto Pedroso

    20 de Janeiro de 2022 at 16:04

    Caro amigo José Maria Cardoso !
    Escreveste muito. Mas muito mesmo.
    Não me refiro em termos da dimensão do textos, da quantidade de paragrafos. Refiro-me aquela muito que se usa na nossa giria “falou e disse”.
    Por isso, acredito que os leitores desse “mega texto/artigo” precisarão de muito, mas muito tempo para o ler, para o interpretar, para o entender e quiça, só depois poder se pronunciar.
    No entano, a matéria é mesmo para reflexão.
    Se me permitir levarei o texto a universidade Lusiada-Portugal, para abordagem e discussão.
    E já agora, procura obter a reacção do Pinto da Costa em relação ao seu artigo.

  2. carla cardoso

    20 de Janeiro de 2022 at 19:40

    Meu caro José Maria Cardoso,
    Na Geórgia, nos Estados Unidos, o “tribunal eleitoral” ordenou a recontagem dos votos. Será que qualificas de criminosa a ação do Presidente TRUMP, que pediu a recontagem manual dos votos?
    O problema está na permanente utilização de período eleitoral e das eleições para acumulação de valores monetários. Então, a estratégia do MLSTP consistiu em “forçar” obrigatoriamente a presença do Guilherme Pósser da Costa na segunda volta das eleições, para permitir a entrada do dinheiro, mesmo estando convencidos a priori que Pósser perderia as eleições.

  3. Lucas

    21 de Janeiro de 2022 at 16:16

    Cansei

  4. SEMPRE AMIGO

    22 de Janeiro de 2022 at 17:23

    Dona Carla Cardoso!A senhora sabe muito.Sabe demais!Por não ser do rebanho???

  5. carla cardoso

    26 de Janeiro de 2022 at 12:13

    É verdade, SEMPRE AMIGO, Dona Carla Cardoso sabe muito!!!. Al GORE, Candidato do partido democrata, requereu a recontagem de votos em Florida nas eleições contra George Bush em 2000. Sabem disso…
    Quando é STP, vocês acham que tudo é anormal, porque o vosso conhecimento é curto.

    Saudações académicas.

  6. carla cardoso

    30 de Janeiro de 2022 at 9:36

    Bom dia primo Cardoso,

    Primo esqueceu das renhidas eleições presidenciais de 2001 em Cabo Verde entre Pedro Pires e Carlos Veiga. Procedeu-se a recontagem de votos e a diferença entres os dois candidatos era de 12 votos.

    Saudações académicas

  7. carla cardoso

    5 de Fevereiro de 2022 at 6:22

    Também podes consultar os resultados das recentes eleições legislativas em Portugal. Em SANTARÉM, o PSD pediu a RECONTAGEM dos votos. Vocês têm um olhar vesgo, com desvio dos olhos, quando analisam os fenómenos políticos em São Tomé. São extraterrestres!!!

    Fui

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