Opinião

A guerra Rússia–Ucrânia e o rastilho à África

Num cenário em que a Rússia e os antigos países do Pacto de Varsóvia, versão militar oponente à NATO, instalassem o seu potencial bélico no México, a fronteira americana ou mesmo na Venezuela ou em Cuba, como se comportariam os Estados Unidos da América e os aliados? Os americanos e os ocidentais se confluiriam todos na Praça de São Pedro, no Vaticano, a rezar conjuntamente com o Papa Francisco?

Na liberdade de pensamento, ministrada pelo ocidente, soa mal ouvir o lado da invasão e dos bombardeamentos eclodidos pelo presidente Putin? No mínimo, estas três questões deveriam sustentar a cabeça-fria de qualquer reflexão em torno desta guerra, em pleno século XXI e no solo europeu, aonde a civilização confronta-se, mata milhares de seres humanos indefesos, destrói cidades, aeroportos, pontes, hospitais, escolas, igrejas, prédios em zonas habitacionais e mil e uma infraestruturas de utilidade pública, ao ponto de ameaçar seis reatores nucleares de Zaporíjia, a maior central atómica da Europa. No escalar do conflito, sobra o ódio racial contra os negros e aniquila o Direito Internacional de existência de Estados soberanos.

O recurso à ameaça ou ao uso de força contra a integridade territorial ou contra a independência política de um Estado, está vedado pelo artigo 2 da Carta das Nações Unidas, daí a invasão da Ucrânia pela Rússia, deixa evidente que esse princípio, violado uma vez mais pelo poderio militar, foi rasgado por um membro do Conselho de Segurança da organização criada para a Paz Mundial e não para a guerra.

Partindo desse pressuposto, é necessário alguém, cidadão comum, não beneficiar de razoabilidade psíquica para estar ao lado do presidente Vladimir Putin, o agressor, contra as vítimas ucranianas, defendidas heroicamente pelo presidente eleito, em 2019, Volodymyr Zelensky, por mais que vala ao imperador, os sublimes fundamentos de defesa do seu país contra o perigo de armamento e ameaça nuclear dos países limítrofes, alimentados pelo ocidente.

Para a defesa da Humanidade, houve a necessidade da Resolução que condenou a invasão à Ucrânia, aprovada pela Assembleia-Geral das Nações Unidas, no dia 2 de Março, que ainda assim, demonstrou de que a Rússia não está sozinha. Conseguiu votos de 4 países, Bielorrússia, Correia do Norte, Eritreia (África) e Síria, os votantes contra a deliberação. Uma ampla maioria de países, 141, votou ao favor da Resolução, dentre eles os países da CPLP, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde, Portugal, Brasil e Timor Leste.

Abstiveram-se 35 países, dentre os quais, a terceira via, a China que tem interesse na mediação, parceira da Rússia e inimiga comercial dos EUA. Nesta lista condenável pelos especialistas e pela imprensa internacional, associaram-se três países da CPLP, Angola, Guiné Equatorial, produtores de petróleo e Moçambique, em vias de produção do gás. Enganem-se aos que apontem o dedo acusador à, eventual, farsa da democracia desses  países quando está em jogo os interesses e a estratégia da carta internacional.

Para que a História não seja retratada de uma só corrente, mais países africanos não foram na rumaria do Concerto das Nações e constam da balança do equilíbrio de neutros: África do Sul, Argélia, Burundi, Congo, Guiné Equatorial, Madagáscar, Mali, Namíbia, República Centro-Africana, Senegal, Sudão, Sudão do Sul, Tanzânia, Uganda e Zimbabué.

A Guiné-Bissau, fugiuda sentença internacional contra a Rússia, a 11a. Resolução, desde a criação da Organização, em 1945, que pretendeu no fundo, condenar o invasor russo, silenciar as armas e exigir a retirada imediata das suas tropas da Ucrânia. A justificação para alguns dos oito africanos ausentes da sala, deveu-se a falta de pagamento do sustento da ONU. São Tomé e Príncipe, desta vez, honrou a contribuição para a sobrevivência e o funcionamento da organização e direcionou o seu voto internacional. 

Numa das propagandas desta guerra Ocidente/Leste, a remover dos escombros, a Guerra-Fria, sepultada em 1989 e a cedência da ex-União Soviética com o desmembramento em novos Estados, correram nas redes sociais, na semana passada, a imagem da ativista de 90 anos, levada presa, simpaticamente, pela polícia russa e as mais famosas imprensas internacionais apoiaram-se do incidente contra a idosa para dar o “show” dos manifestantes, especialmente em Moscovo e São Petesburgo, que pedem para que Putin pare a agressão contra os ucranianos. Tudo bem!

A mesma comunicação social de peso internacional, vem sendo surda, cega e muda ou seja, ignora e não noticia ou simplesmente, simulou a discriminação das vidas humanas de africanos e asiáticos, muitos com “papel e foto europeu”, médicos, bolseiros e cidadão comum, impedidos de passar a linha vermelha das fronteiras de Ucrânia, sob a ameaça dos soldados ucranianos atirar a matar se pusessem os pés nos comboios da vida, em direção aos países vizinhos da guerra. Na memória, para não citar aos demais, ainda sobressai o tratamento, de há 2 anos atrás, aos africanos na China, apanhados na pandemia de Covid-19.

O caricato foi escutar dos conceituados jornalistas e comentadores ocidentais, três argumentos de defesa do absurdo europeu. O nacionalismo e a unidade dos ucranianos, em primeiro lugar. O perigo dos africanos serem mal recebidos (apedrejados) do outro lado da fronteira, hostil aos refugiados. O dever moral dos refugiados africanos darem a própria vida à Ucrânia como o gesto de pagamento de hospedagem e acolhimento.

Vale recordar que para dar a própria vida, quem não tem arma, usa qualquer chama, um empresário de restauração em Portugal publicitou na ardósia do seu restaurante, destinada a lista de pratos do dia, o seguinte alerta de guerra: “Russos fora daqui!”

A África fustigada por guerras de Norte ao Sul, inclusive num dos países dos PALOP, Moçambique, levadas ao cabo pelos terroristas com armamento sofisticado e drones usados pelo Estado Islâmico com que vão usufruindo da fragilidade dos Estados e vulnerabilidade das populações para a invasão, semearem mortes de civis, crianças, mulheres e idosos e, elevarem o número catastrófico de milhões de deslocados pelo continente, os seus povos têm a noção na pele o sentimento dramático por que passam os refugiados ucranianos.

Ainda assim, qualquer africano ao hesitar neste drama humanitário europeu, não é de hoje e sustenta-se nos dois pesos e duas medidas da ONU que, em 2011, fechou os olhos ao bombardeamento “legal, necessário e justo”, segundo a NATO (França, Estados Unidos da América e Reino Unido) contra a Líbia, o seu povo e a África, sob o falso manto do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Quantas Líbias existem hoje nas batalhas de controlo do petróleo de ouro? Quantos africanos são escravizados e assassinados pelos grupos armados, pagos pelo ocidente para manterem os refugiados, lá longe da Europa? Quantas milhares de vidas africanas, passados mais de dez anos da Primavera Ocidental/Árabe, ainda são sepultadas no Mediterrâneo e agora também no Atlântico?

As sanções (as atuais, “uma declaração de guerra”, segundo Putin) só são dirigidas em sentido dos que contrariam a agenda específica ou simplesmente, impedem a expansão ocidental? Já são oportunas as violações do direito penal internacional, a ser processadas contra o regime de Putin? Não havia crimes de guerra ocidental e contra a Humanidade perpetrados pelos poderosos do mundo, Nicolas Sarkozy, Barack Obama, David Cameron e os seus aliados, senhores de matança do presidente Kadhafi, com quem já tinham a normalidade comercial e o antigo presidente francês, é acusado de ter recebido avultadas somas de dinheiro para tal, ainda hoje, responde na justiça francesa? “Menino, não fala política!

A antiga chanceler da Alemanha, Angela Merkel, respeitada por Putin, não participou na chacina contra a África, daí, não era possível poupar vidas africanas no estrangulamento da prosperidade líbia, aniquilação da unidade continental e monetária africana, devido a apetência ocidental de ocupação da zona de influência chinesa e russa no Magrebe?

Ah, não! Cada caso, é um caso. Como ser pensante, a capacidade declina-se pela Paz e, é tocante as lágrimas, o desamparo e as mortes ucranianas, inocentes da guerra que já provocou mais de 2 milhões de refugiados, na maioria mulheres, crianças e idosos e, óbvio, também militares e voluntários, a partir dos 16 anos, apanhados no meio do conflito armado da geopolítica, em que os países, de tempo em tempo, testam os seus arsenais militares.

Hoje e estando em jogo a sobrevivência da Europa e o equilíbrio do mundo, já valem todos os argumentos de que a intervenção militar da Rússia contra a Ucrânia, deixa ao nu o instinto destruidor do “Homo sapiens”, o desrespeito pela Humanidade e a banalidade do Direito Internacional dos princípios que prezam a ONU apanhada no jogo de interesse da geopolítica internacional? Com toda a militarização dos países vizinhos e atuais membros, porque razão, a NATO não avança no ataque ao inimigo comum?

Desde 2014 com a anexação da Crimeia, para não anteceder a invasão à Geórgia, em 2008 e Chechénia, em 1999, que Moscovo deixou transparente nos vários acordos de que os seus vizinhos deveriam manter-se neutros, nem de cá, nem de lá. Nem da Rússia, nem da NATO.

Na guerra, não há vencedores e os russos, já reconheceram mais de meio milhar de seus militares, impostos a combater, mortos na carnificina. Os ucranianos falam em mais de doze mil russos abatidos. A 2a. ronda de negociações de quinta-feira da semana passada, 03.03., entre Moscovo e Kiev, não foi para lá de cessar-fogo temporário para o corredor humanitário de retirada de civis, feridos e enfraquecidos nos abrigos da cidade portuária de Mariupol e Volnovakha, no Sul da Ucrânia, até então, uma semana depois, sem grande efetivação prática, devido aos continuados bombardeamentos que abriram uma luz ao fundo do túnel, na última terça-feira, 08.03, na cidade de Sumy para a partida do primeiro comboio humanitário dentre autocarros e viaturas civis.

No mesmo dia, o presidente Biden que tem enviado milhares de combatentes e armamento de precisão aos países limítrofes da Rússia ou de antiga influência soviética, quer enviar os seus novos caças à Polónia, em troca do envio deste país à Ucrânia dos antigos caças Mig-29 do leste, fácil de monobrar pelos pilotos ucranianos. O presidente americano decretou também o embargo ao petróleo russo que significava apenas 8% do comércio do produto com a Rússia e viu-lhe imitar o Reino Unido que fará o mesmo até ao final do ano.

Não é entendível a submissão europeia, a uma guerra, como habitual, longe dos Estados Unidos da América, quando a Europa depende da Rússia em 30% do petróleo e cerca de 45% do gás. Mais. Os inimigos entendem-se para enfrentar o inimigo. Os Estados Unidos da América, já tem a diplomacia no terreno para a compra do petróleo à inimiga Venezuela.

A África no seu afro-pessimismo, pena, mais uma vez apanhada numa guerra distante, mas a fatura de pagamento, já lhe é exigida com a subida dos preços e será muito mais alta, por dependência e saque, quando cada parte do conflito for sacar ou melhor perpetuar nos dividendos africanos de atenuar os custos da guerra e de sanção económica contra a Rússia.

Não obstante esta agenda global, a União Africana que largou os africanos, incluindo os bolseiros, à sua sorte, a apanhar qualquer boleia no meio da guerra europeia, (Angola, a exceção, enviou a TAAG à Polónia, salvar os africanos) não soube agir, nem falar numa só voz. Vale ainda assim, saudar a decisão do lado da razão de Angola e Moçambique e demais países africanos que estiveram bem a votar neutros nas sanções contra a Rússia. O Israel também não votou ao favor das sanções contra o parceiro russo.

Os países africanos, neutros, deram matriz suficiente de virem dar as mãos ao presidente Emmanuel Macron, na presidência europeia (já vai no 4o. telefonema com o presidente Putin, após a invasão no dia 24 Fevereiro) na mediação, se necessário, do conflito armado Russo-Ucraniano e a partir da África uma luz acenda no xadrez da Diplomacia Internacional para o fim de mais uma matança humana e destruição da Europa, infelizmente, o solo das Grandes Guerras Mundiais.

Não estando isolando do mundo, não é de perder de vista a “guerra” que enfrenta os são-tomenses, eclodida pela enxurrada de 28 e 29 de Dezembro de 2021 com mortes, danificação de estradas e pontes e, infelizmente, na última quinta-feira, 03.03., mais uma tempestade inumdou o hospital regional e levou do que restava da ponte Ribeira Funda, que ainda permitia a ligação com o norte industrial de São Tomé, região que tem na capital, Neves, o abastecimento do combustível que alimenta vida e luz das ilhas.

A chuva, a bênção da Natureza que vai minguando em muitos países de outras latitudes, está a ser o exemplo de hostilidade às más políticas e de retrocesso nacional dos vários governos da república que, infelizmente, a praga sujeita o povo ao pagamento de altas faturas.

No plano do conflito internacional, não é expetável que a Rússia ceda, enquanto não derrubar o atual governo, obter o controlo da Ucrânia, o reconhecimento da soberania russa sobre a Crimeia e a independência dos territórios de Donetsk e Lugansk, exigências não atendidas pelos ucranianos. Todavia, não existe outra torcida, nesta quinta-feira, 15o. Dia de guerra, senão para que as partes inimigas, encontrem na Bielorrússia, Turquia, China, França ou África, a luz de Paz, mais de uma semana após ao início do diálogo entre os beligerantes russos e ucranianos.

Não é invenção de que o ocidente vem rasgando de folha em folha, o compromisso internacional para com a expansão arsenal e ameaça à Segurança da Rússia e hoje, o propósito de venda de armamento, uma realidade consumada para que as indústrias bélicas faturem milhões e milhões de dólares e sustentem o emprego dos seus cidadãos. Óbvio, que dá jeito à imprensa ocidental envenenar a opinião pública virando baterias contra a Rússia, o gigante euro-asiático, sem que se medite no fundo dos interesses repartidos da geopolítica.

Com a justificação do alastrar da invasão russa, Suécia, Finlândia, Roménia e Moldávia, vizinhos russos, estão a pedir a entrada, urgente, na NATO, o que vai atiçar os nervos, já ressentidos com a pressão económica ocidental contra o regime de Moscovo e introduzir mais lenha na fogueira para que a realidade visualize os sinais de internacionalização do conflito armado e o despiste do mundo para a ameaçadora IIIa. Guerra Mundial. Que a Humanidade não teste mais uma vez a (in)segurança do perigo nuclear.

O encontro tripartido, previsto para hoje na Turquia e na terceira semana do conflito, entre os ministros dos Negócios Estrangeiros, da Rússia, Sergei Lavrov, homem de confiança do Kremlin, desde 2004 no cargo e o seu homólogo ucraniano, Dimitro Kuleba, espera-se com as duas concessões da Ucrânia, o abrir de mãos territoriais e deixar cair o pedido de integração à NATO, possam haver espaço para a verdadeira declaração de cessar-de-fogo para o corredor humanitário e a troca de prisioneiros de guerra. Embora um longo caminho a percorrer, a Humanidade está expetante na faixa de luz para o cerrar de mãos, entre os presidentes Volodymyr Zelensky e Vladimir Putin para o fim da guerra europeia.

Nunca é demais, recordar de que a Ucrânia, reclamou na última terça-feira, o urgente regresso dos seus 250 militares, especialmente combatentes da Força Aérea, integrados nos Capacetes Azuis da Força Conjunta das Nações Unidas na República Democrática de Congo, num conflito armado que mata seres humanos e já leva mais de duas décadas.

José Maria Cardoso

10.03.2022

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