O verdadeiro “marisco” nas Ilhas é o “concó”, servido grelhado, temperado com sal, lima, malagueta e azeite, anima os fins de tarde dos bares que, ao ar livre, enganam o insuportável calor equatorial que ensopa as camisas ou blusas, molha a roupa interior, deixa-as fétidas quando despidas para o banho que se torna obrigatório, pois, para conciliar o sono, é preciso libertar a pele dos odores corporais que atiçam e deixam os mosquitos num frenesim, cuja sinfonia embala para noites completamente em branco.
Enquanto se saboreia a sensação de bem-sucedido, quando a cerveja é gelada e uns trocos sobram no bolso, o “fogi di concó cu dessu-lombô sò”, a textura dos seus dois únicos lombos lembra os da lagosta, a carapaça, o desafio de desmembrar uma sapateira, um híbrido de aspeto pré-histórico que arranca prazeres por entre o desafio de desmontar-lhe a carapaça, o suco ou molho que nos escorre por entre os dedos infinitamente lambuzados no tão pouco de carne que, também por entre ossos e duras cartilagens, nos delicia.
Nas Ilhas, o tempo tem outra dimensão, por isso, não importa o tempo que se gasta, mas sim o bem que nos sabe.
Em Portugal
É no regresso das caravelas enquanto se teme uma nova cruzada, desta vez, de asiáticos e africanos que nos cruzam a fronteira, armados de braços, enchem-nos as paragens dos comboios suburbanos, o metro na hora de ponta, os autocarros prenhes de gente escura (estranha), de hábitos e às vezes religiões diferentes, que lutam com as armas que têm, para, ímpar, lavar, apanhar, descascar, despejar, entregar, os que servem no trabalho que ficou deserto porque quem o fazia subiu no elevador social e/ou migrou para outras paragens onde o menor esforço é infinitamente melhor remunerado.
Porra, dirão os mais impacientes, o que terá a ver a migração com o raio de um petisco servido à laia de marisco numas Ilhas longínquas do meio-do-mundo que muitos não conhecem, não querem saber e de onde os próprios nativos fogem como o diabo da cruz? Lugar onde hoje não se encontra mão de obra para as funções mais básicas!
Em São Tomé e Príncipe
Lembra-me um diálogo absurdo com um canalizador que procurava há semanas e que aqui reproduzo:
— Há dias que o procuro, de candeia numa boite escura como o breu! —Eu sei que me procura, não tenho podido é responder a tudo. Amanhã passarei pela sua porta (respondeu o canalizador com graça e um sorriso de orelha a orelha).
Aliviado, quase contente, retorqui: —A que horas (pergunto)? —De manhã muito cedo, estarei a caminho do aeroporto (responde-me ele).
E não conseguindo disfarçar a satisfação, parecendo à expectativa de ver a fuga de água que me inundava a casa e moía os miolos há semanas a fio, retorqui: —Se passa à minha porta, estarei à espera para que me resolva o problema.
Ele retorquiu: —Nãooo, não poderei, estarei de viagem para Portugal! —O quê?! Vai emigrar?!—Simm! (respondeu-me ele)
Eu, espantado, rematei: —Se é o último canalizador que sobra na Ilha, como fica o País?
Ato contínuo, ele respondeu: —Ficam os dirigentes, aprenderão a reparar as fugas de água!
De volta a Portugal
É que longe dos holofotes da AIMA ou raio que lhe queiram chamar, os que controlam os fluxos migratórios, há muito o que escapa por entre a fina malha do controlo fronteiriço
Os “Ogcocephalus parvus” chegaram à Europa pelo Mediterrâneo, viajaram arrasrando-se nas profundezas do oceano, sabe-se lá, provavelmente, a fugir do infortúnio da predação no lugar de onde são oriundos.
Perguntar-me-ão, mas por que raio um parvalhão se faz infiltrar sob um cognome absurdo, com cabeça em forma de gancho e um aspeto pré-histórico, causando alarme (social) aos pesquisadores que, dedicados ao estudo aturado das espécies, o classificaram de inofensivo?
Apanhado na fronteira, sem passaporte, o raio do bicho ganha outro nome, é registado como “peixe-morcego” e, para tranquilidade dos portugueses, acrescenta-se que essa espécie invasora não representa perigo.
Não prolifera excessivamente, logo, não preencherá as vagas que faltam nas maternidades, que obrigam muitas crianças portuguesas a nascerem em ambulâncias e/ou tomadas em parto na rua por avós a fazerem-se de parteiros, cortando os umbigos à moda antiga, ao qual falta acrescer o enterro com cerimónia da placenta em lugar assinalado.
O raio do peixe que anda pelos mares do Algarve e do Mediterrâneo, não é perigoso, dizem os cientistas-biólogos no artigo que aqui partilho: https://greenvibe.pt/cientistas-intrigados-com-a-sua-forma-de-andar-no-fundo-do-mar-e-com-a-sua-armadura-assim-e-o-peixe-morcego/?fbclid=IwY2xjawKyH5tleHRuA2FlbQIxMQABHgTg7FS0JFHPtU6CcbY4IXpaP_yAnk-OshQUHwamR615pzs4uTwg1SdlCUSZ_aem_9_AWWm0cGDaVpnTZ_xwTcg&sfnsn=wa
O que não sabem ainda os portugueses é que este novo fluxo migratório está carregado de sabores. É verdade, as sardinhas, sapateiras, percebes e/ou lagostas portuguesas poderão passar a ser ignoradas, trocadas pelo “concó” aportuguesado de “peixe-morcego” e, com a mudança de hábitos alimentares, se perder a identidade.
Não estranhes, por isso, se numa qualquer marisqueira do Algarve te for colocado no prato um peixe de aspeto pré-histórico, estranho, prova-o, que entranha!
O melhor será desde logo assegurar-lhe a nacionalidade portuguesa. Pelas minhas contas, o cardume terá deixado as Ilhas a nado/por arrasto no processo de “descolonização”, entre o 25 de Abril de 1974 e 11 de julho de 1975, logo, ainda durante o domínio português das Ilhas de São Tomé e Príncipe. Arrastando-se, é o último dos “retornados” que regressa ao berço da grande nação lusitana.
Peço apenas que lhe guardem o apelido “concó”.
Esta parte é dirigida apenas aos filhos das Ilhas.
Esta sim é notícia!
Até o nosso “concó” se mudou para o Mediterrâneo, a evadir-se do infortúnio das Ilhas, refugiou-se no Algarve, adotou outro nome, “morcego”, para fugir à predação dos são-tomenses.
O Cola Manga-Bassu a sugerir um novo pitéu. Este de nacionalidade portuguesa, luso-descendente, o último retornado da epopeia marítima portuguesa.
@lisboa13setembro2025
Genito Pereira