Sótxi di flimá cu sôtxi di flimá, a sorte de crescer moldado pelo chicote, o que muda na vida do flimado (adulto)?
Nos arrabaldes da Madre-de-Deus*, a vida corria lenta como o tempo nas marés de gravana (txibi-txobó).
Era um tempo em que cada casa era quintal aberto, cada vizinho um parente.
As árvores eram mães de todos: pitangueiras, goiabeiras, tamarineiras. Davam sombra, fruto e traquinice. Nos galhos delas, a infância se empoleirava, rindo do vento e saboreando o doce-agridoce que hoje ainda guardamos na memória.
Havia, porém, o outro lado da infância: o da disciplina partilhada. Ninguém escapava à correção, fosse filho de pobre ou de senhor. As mães tinham tamancas de aviso ou um pedaço de lenha (pó nhá) à mão que nos alcançava (em formato de vúgu-vúgu), os professores varas de ameaça, e os vizinhos, sempre atentos, chamavam a rede quando o caso se tornava mais sério.
Era então que se armava o sôtchi di flimá. O banco ou a esteira vinha para o centro da sala, o ramo, escolhido com rigor – pitanga para firmeza, goiabeira para marcar, tamarino de assustar.
O “Sô Mé Plétu”, homem de avançada idade, sem filhos, parecendo um deus de ébano: alto, magro, ágil. O “migo Mé Plétu”, como carinhosamente o chamavamos, era mestre de múltiplos ofícios. Limpava palmeiras e, das folhas e ramos inertes, costurava cobertas (pávu) e painéis (vá’n plégá) com que se erguiam as casas tradicionais de gente modesta. Dava vida a instrumentos musicais – canzá ou dicanza, chocalhos de vime de palmeira – e, em tempo de festas, construía quispás para bailes, bares e lojas em volta da igreja. Com as suas mãos secas, de veias salientes e dedos finos, tecia o vime e os enfeites que coroavam os figurinos do Danço-Congo.
Eram lindas as casas de pávu, cobertas de folhas (andala) de palmeira, lembrando as casas da Madeira, trazidas pelos primeiros povoadores junto com africanos arrancados da costa do grande Golfo da Guiné – do Senegal /Gorée, da Guiné ao antigo reino do Daomé. Humildes ou requintadas, todas tinham quintal e, à porta, uma velha pitangueira, companheira de goiabeiras ou tamarineiras úteis para tecer e moldar o pequeno cidadão.
O Mê Plétu, mestre de cerimónias presente, chamava-se o infeliz pelo prefixo “Sumu” ou “San” seguido nome, e o coração deste/a em pranto caía antes mesmo do primeiro golpe.
Mas havia também um código silencioso, uma ética no meio da dureza: ao deitar-se o castigado de bruços, tomava-se todo o cuidado para não lhe expor nem magoar os genitais. A correção fazia-se com a barriga cheia, pois, não se castigava ninguém com fome, o lugar, a nádega, nunca naquilo que podesse desonrar o corpo ou mutilar-lhe o futuro. Era como se, entre as chibatadas, houvesse um limite secreto de humanidade.
As primeiras chicotadas eram espaçadas, acompanhadas de uma ladaínha em forma de sermão: a vergonha para a família, a lição para o futuro. Depois vinham as rápidas, sem intervalo, até perfazerem a conta. Se uma falhava, repetia-se. O castigado contava em voz alta, com lágrimas e uma ponta de vergonha à mistura
No fim, erguia-se, compunha as calças ou roupa interior, juntava as mãos em foma de prece e agradecia: “Sumu podamu”.
E a vida seguia, entre pitangueiras e açoites, entre doçura e dor.
Hoje falamos contra os castigos, acreditamos na educação da palavra. Mas, quando lembramos aqueles tempos, fica-nos a dúvida: fomos moldados pela violência, ou foi ela, também, que nos costurou à comunidade que fomos num tempo que parece longíncuo?
Na dùvida, o “flimado”, o Cola-Manga Bassu, se empoleira e fica no muro a ver a banda passar.
Cola Manga-Bassu
“Nas vésperas de aniversário (50) do mal de todos os males, “a partir de hoje é nosso”!
@lisboa29setembro2025
…