Caro cidadão,
Escrevo-vos de longe, sem ter precisado de gravitar em torno das fontes do poder, pois, à distância, às vezes, ilumina melhor as sombras. Diz-se que é uma oportunidade quando se bate no fundo. Pois bem, se estamos mesmo no fundo, talvez só nos reste esperar pela subida — como quem espera um barco que nunca atraca.
Enquanto isso, brindaram-nos com mais um título, será ouro de tolo?: a inclusão da Ilha de São Tomé na rede mundial da biosfera coroa São Tomé e Príncipe, o primeiro país totalmente integrado na rede. Palmas, foguetes e o eterno aplauso que a fome não mata.
Anunciamos agora o milagre do século: adeus às turbinas termoelétricas, viva a eletricidade das folhas verdes! Sim, leram bem. Falamos da bioeletricidade fotossintética — algas, cianobactérias e folhas a destilar sol em corrente elétrica. Quem precisa de painéis solares quando a matabala e a bananeira balançam por todo o lado? Até a “choca” e o charuto deixado por preguiça no pseudocaule da bananeira hão de servir de bateria improvisada.
Não temam: em breve exportaremos eletricidade para o continente, de tão embriagados que estamos com as nossas próprias promessas. Faturaremos divisas para comprar aspirinas (AAS), driblando assim as dores que, sentados, tanto nos incomodam.
E, no entanto, plantas, algas e sol nunca nos faltaram. O que nos falta é o suor de trabalho no rosto, que hoje, lavado em lágrimas, e a coragem para largar a adição e as festanças que nos entorpecem o ânimo. Embalados no doce canto da preguiça, nós, satisfeitos, continuamos a dançar nas trevas.
Escrevo-vos saturado dos aplausos à ilusão, na contracorrente, amadurecido, só consigo escrever torto — talvez por ser essa a única forma de dizer a verdade num país onde a realidade dura e os sonhos embriagadores se misturam numa ressaca interminável.
— Manuel Alfinete
(Mé Pian di Klêklê, quá di t’xilá bixou)
@lisboa1outubro2025
In: Ao trabalho porque se faz tarde.
Carta aberta aos são-tomenses
Caro cidadão,
Escrevo-vos de longe, sem ter precisado de gravitar em torno das fontes do poder, pois, à distância, às vezes, ilumina melhor as sombras. Diz-se que é uma oportunidade quando se bate no fundo. Pois bem, se estamos mesmo no fundo, talvez só nos reste esperar pela subida — como quem espera um barco que nunca atraca.
Enquanto isso, brindaram-nos com mais um título, será ouro de tolo?: a inclusão da Ilha de São Tomé na rede mundial da biosfera coroa São Tomé e Príncipe, o primeiro país totalmente integrado na rede. Palmas, foguetes e o eterno aplauso que a fome não mata.
Anunciamos agora o milagre do século: adeus às turbinas termoelétricas, viva a eletricidade das folhas verdes! Sim, leram bem. Falamos da bioeletricidade fotossintética — algas, cianobactérias e folhas a destilar sol em corrente elétrica. Quem precisa de painéis solares quando a matabala e a bananeira balançam por todo o lado? Até a “choca” e o charuto deixado por preguiça no pseudocaule da bananeira hão de servir de bateria improvisada.
Não temam: em breve exportaremos eletricidade para o continente, de tão embriagados que estamos com as nossas próprias promessas. Faturaremos divisas para comprar aspirinas (AAS), driblando assim as dores que, sentados, tanto nos incomodam.
E, no entanto, plantas, algas e sol nunca nos faltaram. O que nos falta é o suor de trabalho no rosto, que hoje, lavado em lágrimas, e a coragem para largar a adição e as festanças que nos entorpecem o ânimo. Embalados no doce canto da preguiça, nós, satisfeitos, continuamos a dançar nas trevas.
Escrevo-vos saturado dos aplausos à ilusão, na contracorrente, amadurecido, só consigo escrever torto — talvez por ser essa a única forma de dizer a verdade num país onde a realidade dura e os sonhos embriagadores se misturam numa ressaca interminável.
— Manuel Alfinete
(Mé Pian di Klêklê, quá di t’xilá bixou)
@lisboa1outubro2025
In: Ao trabalho porque se faz tarde.