Opinião

Guilherme Galiano, adeus a voz da RDP-África

Com o outono apressado, final do verão europeu, as folhas em amarelo e irresistíveis, deixando as árvores de peito nu, foi um valente susto da santa ventania dominical por algo estranho, mas natural, o luto. Apagada a voz de timbre do cristal, num contexto em que pé ante pé, no acerto das pedras suadas, imobilizadas e rodopiadas pela água dançarina nas cantigas misteriosas à natureza insular, qualquer observador, aconselharia tranquilidade, sensatez e lucidez para não me afogar na água dos olhos.

No silêncio ensurdecedor e qualitativo à curvatura com o ruído do coração que somente a dor da alma podia ser escutada para certificar a veracidade da notícia de domingo, 14 de setembro, – lá nas ilhas, apenas gente de coração decente cala para sempre, aos domingos – a ruim de todas, havia que resistir à sentença divina, isto é, a morte de Guilherme Galiano.

Na fala inconfundível, sujeitei num pé embriagado, a difícil viagem para a circunstância, mas acautelado para não infantilizar os olhos adultos molhados, até um dia qualquer da semana útil, lá atrás, quando o itinerário nos cruzou num nobre hotel de Lisboa.

A pujança sonora, única e não reciclada, lançou-me a cerrar a mão de um homem mais alto, negro, sorridente, pés seguros no chão e olhos aguçados, que não precisou de reinventar para consolidar o que há anos, os ouvidos bestiais de rádio, ainda na África, enviavam ao cérebro besta. Tudo pelo delito juvenil resguardado nas ilhas, na época, para lá de Luanda, das avenidas decapitadas e dos miúdos com a esperança despedaçada pelo gasóleo da guerra, eu não tinha a perceção do mundo adulterado que me veio a caber, estupidamente, nas palmas das mãos.

Aconchegante, quando se escuta aquela caixinha mágica que dá formato, cor, luz, cheiro, picante, vida e brio à voz no feminino e masculino, de crianças aos adultos, o imaginário viaja às personagens grandes, não raras vezes, figurantes pequenos. Calhou-me à primeira, uma palanca negra, o grandalhão angolano. Era ele, pessoa em carne e osso, o Guilherme Galiano dos ouvidos daqueles abraços da rádio.

Qualquer fado ao redor lisboeta, naquela manhã -, nem recupero a primavera ou o outono -, pelo precedente casual de “kizomba” e “semba” dos “musseques” de Luanda, em miniatura cadenciada da “rumba”, debaixo da língua insular, não hesitaria da pujança africana com que tiramos pé solto, num misto de nostalgia e diálogo de dois forasteiros que se estreavam pelos olhos. Era, no embaraço dos ombros, como se as informalidades tivessem sumido às formalidades do hotel lisboeta.

Conta curta, o sumiço seguido do silêncio por conta das manhãs de rádio da África e contas soltas ao anúncio dominical de eterna partida, o jornalista, eventualmente, teria assinado naquele hotel de Lisboa, no calendário de 2009, o regresso à Luanda, obviamente, para as contas acertarem nas contas da vida familiar e, por ousadia africana, muito mais contas paralelas.

Ao antigo jovem basquetebolista, só podia justificar a altura avantajada, foi necessário roçar a fronteira de três décadas de distância para regressar prudente e sem dívidas para com os corações da lusofonia. De volta às origens para a espetacular partilha, ofereceu mais de uma década de elevação à primeira estação televisiva privada de Angola, a TV Zimbo. Guilherme Galiano, na dinâmica que lhe era peculiar enquanto construtor, promotor e caçador de músicas e talentos, no interesse social e na informação equilibrada e competitiva “sempre a subir” com todos os angolanos e para todos, em trabalho de equipa, deu conta na direção da televisão, contagiou novas gerações e voltou a conquistar o mundo, deixando as saudades por África, e não só.

Na deontologia que lhe era caraterístico, desde o embrião na Rádio Universitária do Tejo para a travessia pela Rádio Comercial e Rádio Clube Português, não permitiu dúvidas ao pé de dança na divulgação da música africana e angolana, em especial. Nem um pouco de rasura na “Voz do Kilimanjaro” ao “Kandandu”, esta arquitetura com que celebrou a perfeita núpcia da RTP e TPA.

Enquanto chancela da equipa fundadora da RDP-África, nas derradeiras badaladas de ouro do século XX, de doçura magistral, chocalhava o mata-bicho de prazer com o colega são-tomense, o jornalista Carlos Menezes, para que das dezenas de vozes empenhadas no projeto aos ouvidos bailarinos da lusofonia, foi a que mais notabilizou a manhã informativa do leve-leve da rapidez cadenciada, visão didática e melhoria do sentido cívico da sociedade africana espalhada pelos cantos do mundo. Não só!

Da peculiar imaginação e na plena convicção, redescobriu o seu cantinho do Equador no coração das ilhas maravilhosas de São Tomé e Príncipe, como quem ousasse carimbar que, tempo corrido, elas haveriam de ser reconhecidas na verdejante-azulada turística, conservadora ambiental e cultural, neste ano, no mesmo mês e nos curtos dias, após o último fôlego do jornalista, o primeiro país da Terra, totalmente, cartaz simbólico da UNESCO para a pobreza humana e o desleixo institucional, transformarem os desafios patrimoniais em oportunidades de desenvolvimento da Reserva Mundial da Biosfera.

Num momento de crise de equivalência jornalística, nublada pela revolução digital, em que a democracia desvairada do sustento do Direito Internacional, sucumbe aos saldos, ao fanatismo intolerante e à subserviência intelectual, caso no Além Eterno, numa grande Assembleia Divina, apanhando o Senhor desatento e em sigilo com um dos Apóstolos, quiçá, o Tomé, pudesse permitir o contraditório, há uma questão de poderio democrático e decorrente da língua dos amantes da concórdia, moral, ética e sã convivência global para o equilíbrio humano.

Deus! Por nenhum impulso e no mais imparável argumento da falsa narrativa de Estado do Direito, pensamento criativo e liberdade de expressão, em conexão com a justiça cega, finalmente justa, aos povos que sacrificam a cruz no quadradinho sazonal, como dilatar o prazo de vida aos humanos notáveis que vivem tão pouco!?

Gravado na tela da avenida da humanidade pelo legado à memória futura, a voz de riqueza comunicativa, merecia muitos mais anos de vida saudável, que a saúde fragilizada não permitiu mais uns dias, junto aos seus e com quem granjeou simpatia, para que ao menos abrisse o champanhe dos Sessenta e Quatro anos do menino de Benguela. Para a tristeza da locução suculenta que ecoa nos ouvidos, mudando de lugar; da Basílica da Estrela, pequena, em cortejo fúnebre da multidão anestesiada, ao pó da terra de Benfica, em Lisboa, foi devolvido os restos mortais do jornalista.

Aos familiares, jornalistas e à grande família da RDP-África, o pensamento de luto, é tristemente sentido e extensivo na hora da dor da alma africana ao Eterno Descanso do grandalhão.

Paz Eterna à Alma de Guilherme Galiano!

José Maria Cardoso

04.10.2025

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