Opinião

Cosméticos da União Europeia na secular cegueira da África

O XIX Governo de São Tomé e Príncipe, com pompa, fato e gravata, representado pelo diretor-geral das Pescas, João Pessoa, num ato atabalhoado e divulgado nesta semana, convidou os são-tomenses -, ainda que fugidos das ilhas para a angústia de Talude-Loures, outras periferias de Lisboa e, não só, pelo susto da democracia sanguinária, desemprego galopante e pela ausência de perspetivas da qualidade de vida insular -, ao banquete da assinatura do Acordo de Pescas com a União Europeia.

Associado as gemidas gargalhadas de apertar costelas ao regresso da chacota, jamais distante, num pé de dança milionária com a alta funcionária da União Europeia, não faltou ao anúncio do Estado, vaiado pelas máscaras de desespero de 12 de Julho, os 50 anos da Soberania Nacional, “comeretes e beberetes” de borla, na medida em que o parceiro de cooperação, benevolente como espelha os panfletos ocidentais, garantiu cosméticos fantasmagóricos em bebedeiras excessivas de levantar poeiras aos são-tomenses esfarrapados de auto-estima. Que palhaçada!?

Na obra literária Ellyzé – Autópsia da Alma, disponível nas prateleiras da FNAC, o autor, um insular, navegante e calejado nas cocegas europeias, impávido aos milhares de cadáveres na travessia do deserto e Mediterrâneo que na fuga da riqueza africana e nas incertezas aos subúrbios da miséria europeia, dedicou um dos capítulos à controversa máscara com que a hipocrisia da diplomacia insiste em cobrir os olhos dos governantes africanos, sem a mínima benevolência aos censuráveis indicadores dos Direitos Humanos.

O cartaz brilhante e perplexo de sonhos com que o ocidente proclama nos rotineiros discursos de formatação da mente africana, não é nada mais que a luxuosa camisa-de-forca com que submete pessoa humana aos vexames constantes e desafios da emigração forçada, relegando os governos africanos a tristes espetadores de mãos estendidas à humilhação internacional que, ainda assim, abrem as garrafas de champanhes, com compras de conforto tecnológico e familiar no chão europeu, através de desfaçatez e proveitos provindos da corrupção negocial.

Com a simpatia e o grande esforço financeiro direto, à luz do dia, em pagar a fortuna de oitenta e cinco euros por cada tonelada de atum pescado, um dos peixes com o mais alto conteúdo nutritivo em proteínas, a UE, abriu boda à dourada bebedeira em fatias significativas. Redução do esforço de pesca; preservação dos recursos marinhos; reforço da sustentabilidade marítima; fortalecimento da gestão; fiscalização e apoio à pesca artesanal; ajuda às comunidades piscatórias. Que insulto!?

Como consequência imediata de fatias envenenadas, apesar dos acordos de décadas anteriores, os potenciais beneficiários, sem alternativas, nem subsídios, diariamente, em frágeis canoas, na difícil missão de ganharem o pão para o abastecimento do mercado de proteínas e calorias, se voluntariam a arriscar a vida no Atlântico, com o pescado em cada tentativa mais longínquo da terra, derivado da invasão desenfreada dos pesqueiros dos amigos de cooperação que arrastam tudo que cair na rede.

No acerto contratual com os invisuais de fato e gravata -, pena! O mestre e doutor em economia, o professor Armindo de Ceita do Espírito Santo, por esta altura eleitoral portuguesa, não dispor de tempo útil para elucidar a disparidade – o rescaldo, é doirado aos são-tomenses. Dos 32 navios, não sujeitos ao controlo, à vigia, nem fiscalização dos otários africanos, contrariamente aos anteriores 34 pesqueiros, durante os quatro anos de vigência do negócio, a União Europeia desembolsará pela mamadeira, ou seja, pela razia do diamante dos são-tomenses, algo irrisório e nojento.

Pouco mais de seis milhões de euros, correspondentes a seis mil e quinhentas toneladas de referência, ao preço unitário e nebuloso de cento e trinta e cinco euros, segundo as contas adulteradas e refeitas pelo assinante do Estado, o diretor-geral das Pescas, João Pessoa.

Ainda assim, o valor pactuado, o compensatório e a bebedeira à cegueira, na globalidade, servirão apenas para um mês de salário aos trabalhadores do Estado, o maior empregador da débil economia insular, impedida de tecnologia para o desenvolvimento pelos contratos similares.

Na gíria da terra, amigos como a União Europeia, para quê recusar os concorrentes e inimigos comerciais da Europa, como a China, que vai beneficiando da sua quota parte, mas inaugurando estradas e auto-estradas, aeroportos, pontes, infraestruturas escolares, hospitais e demais arquiteturas estruturantes de desenvolvimento, oferecendo emprego aos povos e lavando rostos da (des)colonização aos países africanos!?

Com a núpcia, claramente, favorável aos europeus e penitenciária aos são-tomenses, submetidos à maldição, indignidade humana, fome e precariedade, apesar de detentores da vasta riqueza marinha, vale relembrar os da direita e extrema direita europeia e respetivas amantes, bastante ativos em audiências televisivas e comícios aplaudidos por falsas mentes africanas, da pertinência de anotarem nos respetivos cardápios, a amorosa beijoca europeia à São Tomé e Príncipe.

Beleza! A União Europeia vai pagar nos próximos quatro anos, oitenta e cinco euros, outras contas, cento e trinta e cinco euros, por cada tonelada de atum pescado, longe do holofote do parceiro. Repare! Caso a UE pagasse cinco euros por cada quilo do precioso peixe, os 1000 quilos, para o aluno da primária, custariam cinco mil euros, isto é, valor por cada tonelada de atum e ainda serviria de brinde bastante favorável à economia da UE, mas devolveria às ilhas, os milhares e milhares de milhões de euros de assalto ao pescado das ilhas.

Como classificar esse negócio deprimente, num momento de escuridão da Tesla e “bagunça” no mastro de ADI, no poder, debandada dos soldados da Internet, em prontidão política e leiloados pela brasa calorífica de Basta e PUN, perante rosnar do MLSTP, partido completamente desnutrido de proteínas e calorias frescas do mar, tão pertinentes para os embates da próxima lua eleitoral?

Não é de levantar pó à cegueira, os cosméticos com que os amigos da cooperação brilham à bebedeira africana!? Por cada quilo de atum do Atlântico comercializado no mercado final, nas grandes superfícies comerciais europeias e adquirido pelos bolsos insulares, atrevidos, supera os vinte euros. Aritmética feita, bastam quatro quilos por mais de vinte euros, cada, para a União Europeia liquidar cada tonelada de atum saqueado aos são-tomenses. Que romance fantasiado!?

Qual o governo africano que paga ao fabricante europeu, por uma frota de viaturas todo-o-terreno, um valor simbólico, para depois, conforme conveniência, fracionar as restantes partes, em taxas de consumo e álcool? Taxas de produção e poluição. Taxas de circulação e conservação da natureza. Taxa de ignorância e subserviência. Finalmente, taxas de luxo e apoio social aos europeus.

A União Europeia devolvendo à São Tomé e Príncipe, o remanescente justo de cinco mil euros por cada tonelada de pescado de décadas, o aeroporto internacional e modernizado; o hospital de referência regional para evitar a evacuação de pacientes; as universidades e os centros de investigação científica; a armada militar sofisticada de controlo e fiscalização marinha. Há mais. A reabilitação turística dos desamparados palácios das roças de açúcar, cacau e café; a devida privatização da agricultura; o reservatório e a rede de canalização de água potável; a eletrificação e aposta nas energias renováveis; as novas rodovias e o porto acostável nas águas profundas, este capaz de satisfazer às exigências operacionais e ambientais traçadas pela União Europeia, serão realizações de curto e médio prazos para o emprego e a dignificação da pessoa humana.

Ainda da semana, o XIX Governo anunciou que vai, erradamente, leiloar a antiga estação da Voz de América. Insisto. Senhores governantes de ADI! Neste dia da Saúde Mental, pensem no uso coletivo desse património e construam naquele espaço, o novo hospital que já dispõe de infraestrutura habitacional, autonomia energética, acesso rodoviário e beleza natural.

Um piscar de consciência humana à Faixa de Gaza, noventa por cento destruída pelos bombardeamentos, fuzilamentos, pelo cerco sanguinário, pelas deslocações indignas e pela fome imposta por Israel com a ajuda dos EUA, republicano, que em dois anos, já sacrificaram quase setenta mil vidas, na maioria crianças, mulheres e idosos, e também jornalistas e pessoal humanitário, para lá de muitos mais milhares de feridos, como preço desumano para pagar, menos de duas mil almas israelitas -, toda vida conta – desde o condenável 7 de outubro de 2023, o desejo é de esperança e confiança pelo fim do genocídio de judeus contra o povo palestiniano.

Por humanismo, contrário ao esforço da força do poder das armas com que o presidente Trump, impunha ser ele o vencedor do prémio Nobel da Paz, valeu o bom senso do colégio norueguês no reconhecimento da competência combativa feminina pela defesa, promoção de direitos humanos, pelo empenho de transição pacífica e pela busca da democracia na Venezuela, à ativista social, a opositora do regime autoritário de Nicolás Maduro. Parabéns Maria Colina Machado!

Renascer São Tomé e Príncipe!

José Maria Cardoso

10.10.2025

2 Comments

2 Comments

  1. Jorge Semeado

    13 de Outubro de 2025 at 4:46

    Uma latinha conserva de atum de Marca: Blue Star, da Tailandia (Código de Barra: 8 886409 54….), com peso liquido: 160 gramas e peso escorrido: 112 gramas, custa o correspondente a €:1.50 (Um Euro e Meio). Ou seja 1 kg escorrido custa aproximadamente €:10.00 (Dez Euros, aproximadamente, por defeito). Consequentemente, 1 Tonelada escorrida do atum tailandês, da mesma Marca custa aproximadamente, por defeito, €:10,000.00 (aproximadamente, por defeito: Dez Mil €uros). Compreendemos que o esforço económico para tirar o atum do mar até chegar as prateleiras das superfícies comerciais é colossal. Mas não aceitamos que a diferença de custo de 1 Tonelada no mar (€:130.00) e 1 Tonelada na prateleira da superfície comercial (€:10,000.00) seja tão abismal de €: 9,800.00, por defeito. Resumindo, União Europeia compra 1 Tonelada do no nosso atum (no mar) por €:130.00 ( Cento e Trinta Euros por Tonelada) e compramos a Uniao Europeia,
    (ou a Tailandia ou outro pais qualquer), a mesma 1 Tonelada de atum em conservas por €: 10,000.00 (1 Tonelada de atum em conservas, por Dez Mil Euros).
    Agora vejam a parte mais assustadora e repugnante: por 6,500 Toneladas de Atum bruto, União compensa a STP com €: 6,000.000.00 (Seis Milhões de Euros). Em contra partida, a União Europeia “vende” as mesmas 6,500 toneladas de atum em conserva a €:65,000,000,000.00 (Sessenta e Cinco Mil Milhões de Euros, aproximadamente por defeito). Prova dos nove: 65,000 (toneladas) x €:10,000.00 (Dez Mil Euros por tonelada em conservas) = €: 65,000,000,000.00 – Sessenta e Cinco Mil Milhões de Euros).
    A burrice e a roubalheira dos nossos governantes e nossos representantes nas negociações dá raiva.

  2. Gebito

    13 de Outubro de 2025 at 7:40

    É o acordo possivel com um parceiro credîvel à partida. A UE não paga luvas, a resultante vai diretamente para os cofres do Estado. Neste caso, há verbas destinadas ao incentivo da pesca artesanal, é preciso assegurar a sua melhor aplicação. Poder-se-á dizer, “é poucochinho” Pergunto, há alguém a querer pagar tanto para pescar nas águas de STP?! Estes pagarão o que se compromotem para pescar.
    Aproveito para lembrar que as espécies pescadas bem para lá das 6 milhas náuticas, não tem qualquer influência no potêncial de captura da pesca artesanal. Lembro tb, que o que afeta a nossa pesca artesanal é o arrasto das redes nas baias, a pesca com malha fina, a captura do peixinho, o açoreamento das baías, o gasóleo da EMAE despejado sem dò nem piedade para o mar e o desrespeito pelos periodos de defeso.
    Em suma, tudo cresce sevalgem em STP tal como os cidadãos que cresceram quase analfabetos.

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