Opinião

Crise no Príncipe : hora de falar com o país, não apenas sobre o país

O anúncio da HBD de abandonar os investimentos no Príncipe é um sinal grave — não apenas para a economia da ilha e do país como todo, mas para o próprio modelo de relação entre Estado, investidores e comunidades.

Ninguém ganha com a rutura. Nem o investidor que vê anos de trabalho colocados em causa, nem o Governo Regional que se confronta com a fragilidade das suas próprias decisões, nem o país que precisa desesperadamente de confiança, estabilidade e visão de futuro.

Flá Vón Vón não se junta ao coro dos alarmismos nem àqueles que, a cada crise, procuram culpados imediatos. Considera, contudo, indispensável um gesto político e institucional de maturidade:

criar de imediato uma mesa de diálogo entre o Governo Central, o Governo Regional do Príncipe, a HBD e representantes das comunidades locais.
Não uma mesa simbólica, mas um espaço real de diálogo e de responsabilização mútua, onde se discutam factos, números e compromissos de parte a parte.

O país tem o direito de saber:

  • Quais as obrigações ainda em vigor nos contratos de concessão ou nos contratos-programa, e torná-los públicos.
  • Que investimentos foram efectivamente realizados e que contrapartidas sociais ficaram por cumprir?
  • Que garantias de emprego e manutenção das infra-estruturas serão asseguradas durante a prometida transição (se indesejavelmente vier a consumar-se)?
  • E, sobretudo, como se protege e se preserva o património natural e o domínio público que pertencem a todos os santomenses?

A posição do FVV é simples:
investimento privado, sim — mas com transparência, responsabilidade e compromisso social.

O Príncipe não pode ser nem vitrina de marketing verde, nem refém de entendimentos feitos à sombra ou em zonas cinzentas.

As comunidades, muitas vezes tratadas como figurantes, devem ser parte activa da conversa — porque são elas que vivem, todos os dias, as consequências do que é decidido em gabinetes e reuniões de políticos e das elites que os rodeiam.

Se a HBD enfrenta constrangimentos financeiros, operacionais ou estratégicos, o país tem o direito de conhecer as causas e participar na busca de soluções.

Se o Governo Regional ou o Central falharam em garantir previsibilidade e boa governação, é tempo de o admitir com humildade. E se houver mal-entendidos ou feridas políticas, o remédio não é o silêncio, nem a chuva de telefonemas e comunicados apressados — é o diálogo institucional.

O que está em causa é mais do que um projecto turístico:
é a credibilidade institucional de São Tomé e Príncipe perante os seus cidadãos e perante o mundo. Não é a primeira vez que o país assiste ao colapso de um investimento por falta de clareza e coordenação — mas pode ser a primeira vez que escolhe resolver o problema de forma adulta, serena e transparente.

“O Príncipe não precisa de mais comunicados — precisa de conversa séria, pública e responsável.”

Luisélio Pinto

1 Comment

1 Comment

  1. GANDU@STP

    16 de Outubro de 2025 at 4:19

    Bom dia STP,

    Esperemos que haja Homem em Principe!!!

    Estes “missionários do desenvolvimento”, nunca tiveram a populacção local como parte do seu projecto.

    O seu modelo de negócio deixa de ser rentável quando se tenta incluir o povo Nativo!!!

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