Opinião

Somos + ou Menos: Espelhos de Um País Que Se Olha Pouco

Entre a brasa húmida e a fumaça que encobre o real, ergue-se o retrato de um país cansado de se enganar. São Tomé e Príncipe não vive uma crise súbita — vive o prolongamento de um engano coletivo, alimentado por décadas de descuido, preguiça e vaidade intelectual. Acostumámo-nos a apontar o dedo: ao Estado, aos políticos, aos vizinhos, à pobreza, ao passado colonial, ao destino. Mas esquecemo-nos de olhar para o espelho e reconhecer o rosto cúmplice da nossa própria desistência.

Fizemos da miséria um argumento político, da inveja uma estratégia de sobrevivência, e do silêncio uma forma de comodismo. Cultivamos flores de plástico onde deveria haver trabalho e conhecimento. Falamos de progresso, mas erguemos sobre areia as instituições que deveriam sustentar o futuro. E enquanto as chamas ardem lentas, os inocentes continuam aplaudindo o espetáculo que os queima.

Não há inocentes.
Há um povo inteiro habituado ao improviso, que confunde esperteza com inteligência e vive do eco de discursos que já ninguém acredita. Há elites que alimentam a ilusão de servir, quando apenas se servem. Há forças que, em nome da ordem, ferem a justiça. E há jovens que, sem horizontes, acreditam que o fumo é o fogo — quando o fogo há muito se apagou.

Mas há também quem insista em não desistir.
Os que acreditam que é possível reconstruir, ainda que o caminho passe pela dor da autocrítica e pela coragem de recomeçar. Talvez precisemos, como se disse, de uma travessia técnica, ética e cívica — um tempo de transição onde governem os competentes e não os convenientes. Um pacto nacional que convoque todos: Estado, Forças Armadas, universidades, sociedade civil, diáspora e juventude. Que devolva à política o sentido de missão e não de profissão.

Porque ressuscitar São Tomé e Príncipe não é um ato de fé — é um ato de responsabilidade.
Exige desaprender o hábito da desculpa e reaprender a humildade do trabalho.
Exige romper com o clube do bem-estar que vegeta sobre o povo e fazer da justiça uma exigência, não uma promessa.
Exige, sobretudo, que cada um expie as suas próprias culpas — não para se absolver, mas para começar de novo.

No fim, talvez o rio da aldeia volte a correr, não para a montanha, mas para o mar aberto das possibilidades que nos recusamos a ver.
E só então poderemos dizer, com verdade: somos mais — e não apenas menos.

“Cola Manga-Bassu”

Extraído do livro “A minha aldeia onde os rios correm do mar para a montanha”. É um ensaio literário em contracorrente, ninguém o vai ler por receio de se ver ao espelho e concluir que, embora novo, envelheceu feio e desdentado.

A antever o dia dos Finados, o cemitério do Alto de São João foi mandado limpar. Pergunto: não merecerão os nossos finados um lugar mais digno durante todo o ano? Aplica-se esta reflexão a tudo o que vive ou sobrevive num território que teima em ser país.

30 de outubro de 2025.

Genito Pereira

10 Comments

10 Comments

  1. Genito Pereira Junior

    31 de Outubro de 2025 at 10:40

    Seu sorriso é enganoso. Quando apontamos um dedo para fora, aos outros, quatro dedos da māo se apontam para nós. Pense!

  2. SEMPRE AMIGO

    31 de Outubro de 2025 at 12:21

    Estou de acordo com o Genito Pereira, quando escreve,eu cito:”Mas há quem insiste em não desistir. Porque ressuscitar São Tomé e Principe não é um acto de fé-è um acto de responsabilidade”. “Mas há também quem insiste em não desistir.Os que acreditam (e eu sou um deles )que é possível reconstruir,ainda que o caminho passe pela dor da autocrítica e pela coragem de recomeçar.Talvez precisemos,como se disse,de uma travessia técnica,ética e cívica- um tempo de transição onde governem os competentes e não os convenientes.Um pacto nacional que convoque todos:Estado,Forças Armadas,universidades,sociedade civil,diáspora e juventude.Que devolva á política o sentido de missão e não de profissão”.

  3. CHARROCO

    1 de Novembro de 2025 at 10:06

    Um dos reflexos de que ainda nossos concidadãos, nossos politicos somos condicionados pelo processo de colonização,…pobreza mental, se condicionar inferiormente

    Socialmente ver estes comportamentos

    Quando em presença de um cidadão ou cidadãos europeus, de pele mais claras (derivados de somente pouca presença de melanina, na sua pelo, brancos de louros de olhos azuis são albinos europeus)…,cidadãos nacionais Africanos, têm o habito de ser demasiado simpático, prestáveis, para se poderem sentir mais, ou mais integrados, ou deferenciar dos seus conterrâneos irmãos africanos de pele escura,…aqui em São Tomé e Príncipe acontece, bem como na Europa, na Ásia ou na América com mais acerbo,…

    Frequente quando namoram ou vivem junto com cidadãs europeias, asiaticas, ou americanas, sentirem-se mais, quer homens africanos, quer mulheres africanas.

    É preciso ter consciência deste comportamento, libertar-se és cidadão de África, irmãos Africanos agi normalmente em pé de igualdade

    A nivel politico, aqui em São Tomé e Príncipe, na África, quando os dirigentes agentes políticos vão a uma conferência, vão assinar um acordo de financiamento, ou de ajuda ao desenvolvimento, perante agentes dirigentes politicos, de cooperação, europeus, asiáticos, americanos, baixam a cabeça, vénias em demasia, sorriem demasiado, reflexo e comportamento condicionado,…

    É necessário mudar esta atitude, ter consciência que tens um território, uma população, uma administração à desenvolver, povo com fome, ma miséria, na pobreza, motivos jamais tens de sorrir, a tua primeira instituição, a família africana, a sociedade africana, os africanos, fomos escravizados, explorados, roubados, situação que levou, os territórios, populações, administrações africanas a estarem como estão, dependentes, portanto pouco motivos a a sorrir, a quando da assinaturas destes acordos,…pois que continuamos a ser explorados,(ninguém da nada a ninguem sem esperar receber em troca),…

    Há que ter esta consciência mudar de atitude, ter comprometimento com as causas do teu território, do teu povo, da tua administração,…

    • Genito, o autor do texto que comentou

      8 de Novembro de 2025 at 9:54

      Caro concidadão,
      Agradeco-lhe os comentários que teceu que me dá a oportunidade de recomendar-lhe, que repita a leitura deste meu artigo e outros livros, não se fique apenas apenaas pela cartilha do “Manual de fervor revolucinário”.
      Amigo, a revolução ficou lá muito tempo para trás, é tempo do amigo abrir-se ao mundo, despir-se dos complexos que a sua escrita carregam e avançar, sem medos. Não crie medo infundado e uma resistência na aceitação do outro, ainda que estrangeiro, asiatico, branco ou azul às riscas. Procure retirar ensinamentos no contacto com o outro, ainda e principalmente, se vem de fora, sim, porque nas Ilhas, vivemos em circuito fechado, o homem não aprende sozinho. Muito mais lhe poderia transmitir para o ajudar na cura, acabará de encontrar o caminho, se o
      procurar.
      Abraço fraterno

  4. MANGLÔLÔ

    1 de Novembro de 2025 at 10:37

    Um dos reflexos, condicionalismos, do colonialismo, do neocolonialismo, capitalismo, globalização economicos e financeiros dos paises ditos em desenvolvimento, pela falta visão,…comportamento estático, paralitico, dos Africanos, mais concretamente de nós São Tomenses

    Preferes importar comer arroz todos os dias, farinha de trigo, quando tens varias espécies de bananas, que hoje mediante tecnologias IA adequadas, já permitem produzir farinhas para fazer pão e usar na culinaria,…embora possas produzir arroz e trigo ao mesmo tempo.

    Importas e compras farinha de Cerelac, papas para crianças, teus filhos aqui em São Tomé e Príncipe, quando o teu território/país produz milho três vezes ao ano, mediante tecnologias/maquinarias, IA, podes transformar o milho em farinha, flocos, amido, etc…para usar na alimentação e culinária.

    Importas compras atum enlatados, salchichas, chouriços, queijos, roupas, leite, massa tomate, pimentao doce, frutas, carnes, vegetais, chocolate, azeite, coco ralado, leite de coco, quanto tudo isto poder produzir e transformar aqui,…

    Ama a tua terra, queira bem a tuas gentes, ajuda a desenvolver o teu território, a tua população/administração, ..

    Ama a tua família, a tua esposa, o tei marido, os teus filhos

    Trabalha, estuda, inventa, investiga, cria empresa,…

    Pratiquemos o bem

    • PáPê

      2 de Novembro de 2025 at 7:14

      Assim os igualmente os serviços, os pareceres técnicos, a consultoria, os projetos, já temos cidadãos bem qualificados para o efeito, até podemos também vender o nosso saber e conhecimento,…

      Falta organização, rigor, e ultrapassar aquilo que ainda nos condiciona, …o dividir para reinar, que nos foi imposto anos, sobre anos de exploração,..quando vimos a perceber isto,…valorizamos o que é nosso.

    • Genito, o autor do texto que comentou

      8 de Novembro de 2025 at 9:59

      Caro Mangloló,
      Carrega um pseudónimo com graça 🙂
      A receita para o mal que enferma é curada com os mesmos medicamentos receitados ao “peixe” (charroco) anterior.
      Não me leve à mal o humor, precisamos de o praticar para tornar a vida mais leve.
      Um abraco

  5. IA

    2 de Novembro de 2025 at 10:01

    IA também produz milho? Nossa! Precisamos começar a pensar.

    • IA

      4 de Novembro de 2025 at 14:15

      Ensina a produzir, como no futuro em todas as aéreas e sectores, desde que filtrada a informação coerencia

  6. Genito, o autor do texto que comentou

    8 de Novembro de 2025 at 10:05

    Ai como me doem os olhos
    Caros cidadãos
    Sem qualquer arrogância de que me distancio, e por isso, vos escrevo, recomendo que pratiquement todos, eu incluído, mais leitura e que não seja o “Manual de Fervor Revolucionário”
    O País está carente de saber, o que condiona o Estado na nação.
    Ler mais e mais e de espírito aberto, recomenda-se.
    Obrigado pela leitura, a luta continua.

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