A grande parte dos leitores do Telanon já estará “a fazer de tijolos”. Em 2075, apenas 15% dos nascidos hoje povoarão as Ilhas. Incluindo os bebés de colo, recém-saídos do conforto uterino das mamãs, alguns já atrofiados pelo excesso de álcool que respiraram ainda no ventre.
As ruas e os vídeos que (hoje) circulam nas redes sociais mostram um território povoado de “doidos”. Mas também de indivíduos aparentemente sãos, agarrados a vícios que os consumem. Estima-se que meio milhão de pessoas habitará as Ilhas, mais de 90% ainda a defecar no mato. A não ser que, por obra do Espírito Santo ou de qualquer outra graça divina, os santos António e Tomé se compadeçam das mentes enevoadas pelo álcool e iluminem o caminho da sociedade, pouco mudará.
Enquanto isso, na vizinha Nigéria, meio bilião de almas se acotovelam em escolas que não ensinam e nas ruas de uma sociedade impreparada. Milhões vindos de hidrocarbonetos, minério e terras raras não chegam para conter a fome, e não há quem aponte o caminho do desenvolvimento.
Ontem, no Hotel Praia, em São Tomé, inaugurou-se um ciclo de conferências promovido por Somos+, transmitido em streaming pela “Plataforma Sombla”. Projetou-se o País em 2075. Hoje, multiplicam-se os vícios. Não saímos da bolha que nos castra e sacia apenas nossas ânsias momentâneas, mantendo-nos como fetos adormecidos no ventre de mamãs embriagadas. Esquecemos que o útero nos expulsará para uma realidade dura — uma realidade que teremos de abraçar.
Enquanto a conferência se desenrolava ao som do “pitu dochi” do Tchiloli, o País dançava freneticamente o “bulawê” e se exaltava em coreografias de “djambi” sobre a brasa viva que assava os pés. Talvez fosse hora de acordar.
Se é País o que queremos, o que estamos a construir? É urgente propor:
- Reforma curricular com ênfase na educação transformadora, não apenas no número de escolas ou professores.
- Saúde pública integral, incluindo higiene, prevenção de doenças e combate à adição.
- Programa nacional antiálcool e de apoio social, incluindo assistência digna ao envelhecimento.
- Investimento em infraestruturas sanitárias.
- Revisão das políticas de comunicação pública.
- Redirecionamento de investimentos: abandonar estradas comunitárias para votos e apostar em vias estruturantes que favoreçam produção e riqueza.
- Olhar para o mar como território coletivo, explorando oportunidades da economia azul.
- Promoção de uma cultura de trabalho intensa, combatendo a preguiça e o ócio. O esforço constante deve ser executado de forma inteligente, disciplinada e estética — porque, se vamos sofrer, que seja com estilo. Ainda não inventaram a vacina do sucesso sem empenho no trabalho.
Escrito ao estilo do Mé n Pián de Kléquê, este texto exige atenção aos detalhes: vigie onde pisa para não sentir a dor do alfinete.
Manuel Alfinete Mé n’ Pián di Klêkê
11 de dezembro de 2025
Desestruturação familiar(pobreza,fome, miséria)/Instituições Fracas
11 de Dezembro de 2025 at 15:38
Sem conhecer a realidade nada se modifica
É conhecer presenciar a realidade para a modificar
Excelentes pontos de projeção, faltando acrescentar o papel da justiça na sociedade, modernização eficiência aplicabilidade efectiva.
Mé Pián di Klêké, o autor
12 de Dezembro de 2025 at 8:17
Num dos foruns em que estou, alguém comentou referindo-se à enceuziljqda e ao quase déterminismo justificado na obra de Franz Fanon, respondi:
Caro …
“Bo quiê n’ pián”!
É precisamente desse engano que precisamos de nos curar.
Nem tudo o que lemos reflete o nosso contexto social; precisamos de um olhar adaptado na leitura das obras de temática generalista.
Para entender São Tomé e Príncipe é preciso mergulhar na origem ancestral dos grupos populacionais que coabitam as Ilhas há mais anos. Precisamos de desmontar o passado colonial, esse participado por muitos dos nossos antepassados que aproveitaram, de igual modo, um sistema de produção baseado na monocultura do cacau e do café, com recurso à mão de obra essencialmente arrancada das profundezas do Continente e, mais tarde, com o “sopro” dos cabo-verdianos que chegaram fugidos do infortúnio da fome provocada pelas sucessivas secas que assolaram o território deles.
É questionável a colonização de São Tomé e Príncipe com a abordagem revolucionária que se atribuiu ao conceito. Os angolares não eram colonizados e os forros e muitos luguíés foram colonos ou pura e simplesmente vivam quase em liberdade plena.
Nenhuma sociedade se desenvolve sem trabalho (muito) e sem uma “burguesia nacional”. O modelo de exploração das roças, embora mantido no pós-independência, caiu de podre porque não tínhamos como segurá-lo, devido ao contexto e à sangria dolorosa protagonizada nos meses que mediaram o 25 de Abril de 1974 e a data da independência. Num território pequeno, gerido por parcos quadros de 3ª e 4ª linha, por muita boa intenção, esforço e abnegação, só poderia resultar no que resultou.
As lágrimas não limpam a vergonha; logo, reergamo-nos.
O contacto com outros povos, ainda que no contexto de São Tomé e Príncipe (antes da independência), não é forçosamente uma desgraça, é uma oportunidade. Não há povo no mundo que não tenha vivido sob a subjugação temporária de outros povos; essa foi a fortaleza da regeneração de muitas sociedades.
Ergamo-nos, tal como a Ásia o faz e a América Latina começa a despertar.
O desafio é transformar o grupo (a classe favorecida), como aquele em que veiculamos hoje os nossos pensamentos, num verdadeiro modelo dinâmico, ao invés de um exército de reumáticos.
Não gosto da abordagem determinista de Franz Fanon, perdoa-me. Estou consciente de que com este escrito estarei também a abalar muitas convicções; perdoem-me, a diversidade também descobre outras verdades.
O texto, o comentário do Amig9 que apreciei e agradeço, e a minha réplica constituem um desafio; venham as tréplicas.
A nação precisa de se desassombrar antes que alguém se julgue revolucionário e desmonte o pouco — ou quase nada — do que se estruturou, quando ainda estão a “eclodir os ovos má bissu” da revolução precedente.
Reflitam com particular incidência no último parágrafo, o que precedeu a este,
“a partir de hoje é nosso”
Abraço fraterno