Como foi possível, de caneta cúmplice, sabedoria engravatada e consciência subserviente, se permitir o país do meio do mundo, chegar até aqui, mudo e num silêncio arrependido? Chegando, né!
A intelectualidade em São Tomé e Príncipe, de longe, é avaliada pela cifra de cadeiras que anualmente abarrotam o mercado de produção com perspetivas apontadas às dinâmicas do desenvolvimento. A prática, com as óbvias exceções, demonstra que não se identifica quadros à altura do esforço desprendido pelos mestres dos conhecimentos, nas mais famosas universidades do mundo, o que relega o título de «dotor», para o mal de confissão, à mera inutilidade pública.
Assim, sem qualquer fundamento para espalhafato, a esbelta plateia do IGR, momento de diferença, não esteve uma só representação diplomática de Portugal, China, nem Angola, cujos convites foram confiados em tempo oportuno, desde novembro. Numa lógica deselegante, (tudo que é bonito, os são-tomenses imitam na hora) permaneceram vazios os assentos dos presidentes dos Conselhos de Administração do BISTP, da CST e do diretor do Serviço de Migração e Fronteiras, instituições de relevo, também em novembro, sorteadas na rifa literária.

Ninguém deveria se esquivar do convite ao lançamento do livro Ellyzé – Autópsia da Alma, em São Tomé. Para lá de conversas diretas e boca-a-boca com as amizades digitais, todo mundo recebeu convites no jornal Téla Nón, na Rádio Nacional e pela via institucional do IGR.
Ainda assim, nenhum assessor da presidência da República; membro do XIX Governo; presidente interino do parlamento, deputado de Mé-Zóch; líder partidário, presidente camarário de Água Grande e Mé-Zóchi; nenhum conselheiro judicial, magistrado, juiz, advogado. Gentes de fato, gravata e alma purificada, ainda que convidadas, última hora, no mata-bicho da Avenida, vis-a- vis ao palácio presidencial, – juraram presença -, mas «requem passa», ou seja, nem sombra na cortesia literária. Engajados nos afazeres de rotina; no despacho democrático de purificar o ano; equilíbrio judicial e nos cabazes para que nenhuma família são-tomense deixada para trás, abrisse boca faminta ao vento da ceia do Natal, optaram por ficar à margem de Bom Despacho, quiçá, tomados pela expressão, «Kumadre, koisa muito, en!» com júbilo de encher barriga e espírito ao quotidiano.


As aconchegadas cadeiras da leitura de prazer de mulheres e homens, até reformados, que gozam de inspiração da escrita, ficaram às moscas zumbindo nas rotundas. Em pleno século XXI, estranhamente, a inteligência humana ainda se amedronta da bagunça da palavra muda dos livros!?
Meu Deus! Os são-tomenses pisaram 2026, de lágrimas do luto literário. Os primeiros minutos deste ano, chegaram com as ilhas de São Tomé e Príncipe, mais pequenas. A partida física de Francisco Costa Alegre, nas 72 gravanas, ocorrida ontem. Pedagogo, diplomata, ensaísta, poeta e escritor que tudo deu ao país e à memória coletiva, sem nunca exigir nada para si. Permanecerá vivo, o seu legado de lucidez. Em nome pessoal e da família, todo o pensamento, é dirigido aos enlutados. Professor Costa Alegre, descanse em Paz Eterna!
A obra Ellyzé – Autópsia da Alma, de Dias Cardoso, pode ser adquirida na FNAC, em Portugal, ou requisitada, em São Tomé, na esplanada de Sabores da Vilma, junto aos Três Poderes da cidade apedrejada pela vaidade do destino. Palácio presidencial, palácio da Justiça e Sé Catedral. O governo, à boca e nariz, tem no quarteirão circundante, o Ministério da Educação, Cultura, Ciência e do Ensino Superior.

O IGR, Instituto Guimarães Rosa, tem biblioteca informatizada. Beneficia do salão de exposição que, no dia 23 de dezembro, permaneceu requintado para o cocktail de delícias nacionais, francesas e até as garrafas do vinho de Porto, ajustadas nas malas da STP Airways. Quem lá esteve, mastigou e saciou apetite às conversas literárias do final da tarde de terça feira, ante véspera do Natal, bem nos olhos memoráveis do falecido pedagogo que se voluntariou à alfabetização dos são-tomenses, o brasileiro Paulo Freire. Lá, dispõe do luxuoso auditório de cinema, teatro, conferências e literatura que fica sem público nos dias de abertura e de acesso -, ninguém acredita -, sem custos à cultura geral.
Gente por cá, culta e estudantes nas universidades, desconhece o IGR, afeto à embaixada brasileira, no Largo Bom Despacho. Lá no sítio, tem a interação simpática da responsável brindada com o sorriso cativante e ar condicionado de matar calor à cidade cabisbaixa.
Os últimos convites, desde sábado, 20 de dezembro, que os livros aterraram em São Tomé, confiados em mãos, a pouco mais de duas dezenas de gravatas e fatos, afinal, todos confessaram desprezo aos mestres que impuseram leitura aos ministrados. As rádios, televisões e o jornal, na pista à informação, não perderam o despacho literário de Bom Despacho. Rádio Nacional, Rádio Somos Todos Primos, Rádio Jubilar, TVS, RTP África, Zunta TV e Téla Nón. A Rádio Nacional, apostada na divulgação literária, escancarou as suas antenas ao livro Ellyzé – Autópsia da Alma.
No auditório de letras, amplamente preenchido por familiares e abraços de afetos, dentre os dedos identificados de letrados, brasileiros e são-tomenses, uma luz na escuridão do país. O autor curvou-se à ilustre pedagoga, essa sim, brilhou todas as cadeiras dos ausentes; diplomatas, governantes, académicos, políticos e mais individualidades com que as palavras vão cruzando o leve-leve nas mil e uma explicações de despertar gargalhadas ao pó suado da cidade, a ré confessa da penúria de mulheres e homens abandonados, alguns jovens, despidos de roupa e mente, do jeito de cães vadios que lhes disputam o ambiente festivo, até no Ayres de Menezes, em permanente alarido de socorro.
A jornalista, poetisa, escritora, embaixadora e divulgadora por excelência das letras escondidas nas matas medicinais de São Tomé e Príncipe por Caetano Costa Alegre, Marcelo da Veiga, Francisco Tenreiro, Manuela Margarido, Alda do Espírito Santo e outros, na prossecução de tocar corações à humanidade, não permitiu solidão ao autor. A grandeza de São de Deus Lima, convidada no ponto de hora da cerimónia, talvez, inocentemente a reportar desde Londres, as tintas de Ellyzé – Autópsia da Alma, ofereceu arco-íris à tarde literária.
As honras da casa brasileira curtidas pela doutora Leila Quaresma; seguida da radiografia tão minuciosa, artéria por artéria, veia por veia, até que o sangue premiasse o coração de fôlego, realizada pela aplaudida professora Helena Afonso; a moderação da viagem literária pilotada pelas jovens, Dulcelene e Érica, estas confusas por formatação identitária de São Tomé, Lisboa, Côte d’Azur, Ex-Provence, Londres e Madrid e, o autor, minúsculo pela performance do governo feminino no palco, baloiçaram a valiosa energia de embarcar ao mundo, a orquestra Rizoma.
Os miúdos largados à sorte do mestre Clismar Carvalho, navegam pela amargura da prenda do ano findo, o despejo para este mês, do refúgio do Arquivo Histórico, antes ao abandono. Lá projetaram e investem dinheiro, atividade ocupacional e sabedoria musical ao país. Brasil vai-lhes graduando com as bolsas de estudos, lá na margem americana. Mais um bolseiro, está a caminho de Brasil.
São Tomé e Príncipe, não lhes querendo deixar para trás; da audiência do autor concedida pela ministra da Educação -, efusivos agradecimentos à professora Isabel Abreu -, sensível e comprometida, traduziu indicações de que a carta de despejo do salão do Arquivo Histórico para este janeiro, venha a ser rasgada. O XIX Governo busca à orquestra Rizoma um novo espaço e tutor cultural. Mais cedo que tarde, contas feitas, dezenas de crianças, adolescentes e jovens, em breve, já não irão entulhar alegria embriagada às avenidas da marginalidade de cinco mil famílias ajoelhadas no Natal aos tostões humilhantes das instituições financeiras internacionais.
No dia a seguir ao lançamento do livro, aceite em Lisboa pela crítica literária, sem que o obreiro imaginasse outra comédia, para lá da agendada à noite de 27, no Palácio dos Congressos, superlotado e enfeitado de figuras de gabarito político e executivo, portugueses e até duas chinesas, em que esteve sentado na bancada, chefiando uma delegação de treze miúdos e graúdos -, atempadamente, desembolsado as duzentas dobras (oito euros), por espetador VIP -, começaram a chover a elegância de gente mascarada, justificando o anormal institucionalizado como que o autor carregasse alguma cruz do pecado ou varresse o lixo delinquente apinhado no queixo de sonhos abandonados no Jardim do Pensamento.
Confiante na chave de ouro para encerrar as celebrações dos 50 anos da Soberania Nacional, nada impediu, nem o custo em milhares e milhares de euros da delegação familiar, o regresso ao sítio do primeiro amor para pincelar o perfume de Ellyzé – Autópsia da Alma. Não só! Autografou mais um exemplar terapéutico, agora, recomendado pela peculiaridade à psicóloga no Brasil. Bom voltar ao cheiro do chão e escuro dos beijos no mato, na sombra da lua cheia e no pitoresco da praia para a claridade da agonia aos olhos da cidade, como o Apóstolo São Tomé, crer nos tempos novos.
O amanhecer cedo, descalço, logo que o galo canta, tem sido no mato e debaixo da mangueira para matar-bicho de frutas (banana-prata madura, sape-sape, cajamangas e mangas-de-diamante) geladas pela ventania da noite que matam fome a décadas, longe da placenta, na exigência de descongelar o físico gelado de conservantes.
Saltar aqui, no solo sagrado, o ano de 2025, com os olhos encharcados na urna da jovem filha, algures no cemitério da Trindade, é ter os pés assentes nas ondas da democracia e liberdade do pensamento, apesar de praias, avenidas e ruas sangrentas de dor, luto e cicatrizes coletivas. Na ótica da tradição, hoje, o autor deve lavar o ano velho no mar sereno e purificar consciências sitiadas na comédia para que o prazer dos livros, depressa, se liberte do precipício e regresse manhã fresca às tardes da literatura.
Feliz Ano de 2026!
José Maria Cardoso
1º de Janeiro de 2026

Engrácio Neto
5 de Janeiro de 2026 at 14:00
Um trabalho bem conseguido e refinado. Como se diz na gíria, só faz falta quem está presente. Boicote? Conspiração?
O caminho se faz caminhando pois os ausentes todos eles temendo o brilho do autor, talvez tenham simplesmente por complexo de inferioridade fugido da luz como o diabo da cruz. Os “sô dôtor”…
Fosse na banda onde faço morada, inegavelmente seria interferência política mas em S.Tome, só sei que nada sei.