O mundo deixou de fingir.
O direito internacional, outrora apresentado como árbitro civilizacional, cedeu novamente lugar ao velho critério do alcance do canhão. A força fala mais alto do que o tratado — e os pequenos Estados sabem-no melhor do que ninguém, porque são sempre os primeiros a pagar o preço.
A queda de Nicolás Maduro não é um acidente histórico nem uma exceção moral. É sintoma. Sintoma de um sistema internacional em que a legalidade é contingente, a soberania negociável e o direito moldável à conveniência dos fortes. Quando o poder apodrece, raramente cai sozinho: é empurrado pelas dinâmicas que ele próprio ajudou a criar.
Como diz a sabedoria popular, “Omê di n’ dala na ká midjî cu ponta dê fá ê” — não se mede a casa do vizinho com a ponta da faca. No entanto, é exatamente isso que se observa hoje no palco internacional: fronteiras, soberanias e princípios são avaliados pela utilidade estratégica, pela capacidade de intimidação e por uma legalidade torcida até caber no interesse dominante.
Neste cenário, os recursos naturais transformam-se num paradoxo cruel. O petróleo — e outros recursos ainda por explorar — funciona como um isqueiro aceso junto de matéria inflamável. Aquilo que promete prosperidade expõe, simultaneamente, a fragilidade estrutural dos Estados pequenos. Onde há riqueza potencial, instala-se a cobiça; onde há cobiça, o direito torna-se flexível. A soberania deixa de ser um valor a respeitar e metamorfoseia-se numa concessão tolerada.
É neste contexto que o nacionalismo santo-principense entra numa encruzilhada histórica. Frequentemente imediatista, adormecido e mais simbólico do que estratégico, arrisca-se a tornar-se irrelevante se continuar a confundir soberania com proclamação e independência com imobilismo. “Non ça sónó San Zon cu opé bétu” — não é só São João que anda descalço. A vulnerabilidade não é exclusiva; a responsabilidade, essa, é intransferível.
Quando o povo avisa, convém escutar: “Bili ûê, ópé cû ça uê ça uê”. Não sigam pelo atalho. Quem ignora o caminho acaba inevitavelmente por tropeçar no óbvio. Persistir na crença de que o direito internacional, por si só, protege os fracos é ignorar as lições mais elementares da história contemporânea. O mundo real não premia a ingenuidade; penaliza-a.
Num sistema internacional em que o canhão recuperou força renovada em detrimento do tratado, a sobrevivência política dos pequenos Estados exige lucidez, estratégia e vigilância permanente. Tudo o resto é retórica — e a retórica não apaga fogos.
Esta reflexão nasce à moda do Cola Manga-Bassu, mordido pelo veneno do Mé n’ Pián di Klêkê, que lança a sua profecia incômoda:
a esperança outrora depositada no Falcão*, agora perfurado, será a faísca que nos incendiará ou o epitáfio de um sonho coletivo — “fugido ni zaqué pá bá môlê ni dadu”.
Ainda não é tarde para descer do pedestal dos sonhos e encarar a realidade agreste que se revela. É tempo de dar corda aos braços e aos sapatos, porque o trabalho que se adia hoje cobra sempre juros ao futuro — e esses juros, quase nunca, são simbólicos.
Concluo, embrulhado em duvida, se será um isqueiro no petróleo ou o chiqueiro.
- “Falcão” é o nome dado à zona perfurada do Bloco 10 da Zona Económica Exclusiva de São Tomé e Príncipe.
Anu myolado Kuma axi
“Cola Manga-Bassu”
6 de janeiro de 2026