Motivos para bater em quem segura o timão do Estado não faltam. O que falta, quase sempre, é pontaria. E, sobretudo, método.
Vivemos tempos curiosos: a ignorância deixou de ser um embaraço privado e passou a ser uma atividade pública, militante e, por vezes, generosamente remunerada em “likes”. Aos antigos palpiteiros de café juntaram-se agora os chamados “soldados da internet” — essa infantaria ligeira da opinião instantânea — reforçados por ilustres personalidades, intelectuais de primeira água, especialistas em generalidades e doutores em tudo o que respire.
Criticam com fervor quase revolucionário, debitando conclusões apressadas como verdades absolutas, propagadas com uma leveza que só a irresponsabilidade permite.
A todos eles — e incluo-me, preventivamente, no grupo dos falíveis — recomendo o exercício que procuro praticar antes de opinar sobre o que sei mal ou não domino: investigar, ouvir quem sabe, confirmar dados e tratar cada palavra como se fosse vidro fino. Opinar não é atirar pedras; é construir frases capazes de suportar o peso da verdade. Deveria ser, aliás, uma regra elementar de higiene intelectual.
Confesso: estou saturado. Saturado de ouvir disparates declamados da tribuna da sapiência por quem ostenta diplomas universitários e carreiras lustrosas, muitas delas em áreas onde se esperaria prudência, responsabilidade e vocação para construir pontes — e não para incendiar margens. Pontes que tanta falta nos fazem para reforçar instituições frágeis e colmatar um défice cultural agravado por uma preocupante ausência de leitura no percurso académico de grande parte da nação, incluindo, ironicamente, parte da nossa elite intelectual.
É tempo de mudar de vida. De baixar o volume do ruído que abafa a mensagem e reconhecer que, por detrás de muitas “análises” inflamadas, se esconde apenas combate político mal disfarçado de preocupação cívica. A verdade, essa, surge maquilhada conforme convém ao figurino do dia.
Gosto de acreditar no debate público. Mas cansa ouvir gente enfatuada a dizer o primeiro disparate que lhe ocorre, apenas porque criticar quem governa se tornou um desporto nacional — de baixo custo e alto rendimento simbólico.
Passemos, então, aos factos. Esses eternamente entediantes.
Os bilhetes de avião de e para São Tomé são proibitivos. Caros, caríssimos, obscenamente caros para a distância percorrida, para o número reduzido de voos e para o escasso leque de operadores que exploram essas rotas.
As taxas aeroportuárias — igualmente desproporcionadas — foram aumentadas pelo anterior governo constitucional, alimentando um conflito que culminou na sua demissão. Trata-se de um facto histórico recente, não de uma opinião.
Também é verdade que, hoje, as viagens continuam tão caras — ou mais — do que no mesmo período do ano passado. O que raramente se esclarece é que os aumentos mais estranguladores foram entretanto revogados, embora o processo não tenha sido imediato, por depender de procedimentos administrativos internacionais de registo.
Menos ainda se explica que quem pagou taxas entretanto anuladas tem o direito de solicitar o respetivo reembolso às companhias aéreas, que eram obrigadas a cobrá-las e que, por sua vez, ficaram dispensadas de as entregar às autoridades aeroportuárias de São Tomé e Príncipe após a revogação.
Mas o ponto crucial — aquele que quase ninguém quer discutir — é outro.
As viagens estão caras porque as companhias aéreas que operam essas ligações parecem abusar de uma posição dominante. Simples. Desconfortável. Verdadeiro.
E aqui chegamos ao busílis da questão: como se combate isso?
É precisamente neste ponto que reside a falha maior. Não na agulha, mas nas mãos que deveriam saber tricotar.
O trabalho que não está a ser feito cabe a quem é pago com dinheiro público para o fazer. O INAC — Instituto da Aviação Civil de São Tomé e Príncipe — entidade dotada de autonomia institucional e financeira, deveria exercer uma supervisão efetiva sobre os programas de exploração apresentados pelas companhias aéreas e monitorizar, de forma permanente, a evolução dos preços.
Não o fazendo, todos berram, ninguém tem razão e o passageiro paga ou não vem.
O turismo, verdadeiro motor da economia, guincha, esfarrapa-se, baba oleo e perde rendimento à medida que o esforço aumenta.
Enterradas que foram as ilusões do petróleo e esgotadas as ajudas ao desenvolvimento em que assentou a economia das últimas décadas, impõe-se que as políticas públicas passem a usar óculos — e não vendas.
No fim de contas, por melhor que seja a agulha, não serve de nada insistir em espetá-la na direção errada. Talvez esteja na altura de aprender a tricotar — antes de continuar a acusar o novelo.
Escrevo sobre o que aprendi a fazer melhor. Não para ensinar ninguém, muito menos para salvar o país, mas para tentar pôr alguma ordem no meio de tanto ruído. Se esta opinião servir apenas para substituir um palpite fácil por uma pergunta séria, já terá cumprido a sua modesta — e crítica — função.
Eugénio S. M. Lopes Pereira (Genito)
20 de Janeiro de 2026