Sem reação de confronto, tinha chegado a difícil ousadia familiar. Transportar as saudades silenciadas, disfarçadas e afogadas nas respetivas malas de viagem de frutas, tubérculo, folhas, azeite de palma, peixe seco, “bobô-fito”, licores e a distinta rainha da terra, a farinha de mandioca (saborosa e rica em fibras), adquirida das “palaiês”, na venda pé em pé e por portas de Mé-Zóchi. A troca comercial internacional, foi aceite por prendas, medicamentos, bacalhau, azeite-doce, bebidas diversas e festivas, cacahuète, nozes, amêndoa, caju e aromas para a culinária e de proveniência europeia.
Salvo as exceções, deixamos o lindo país conduzido em contra-mão e na escuridão. Pelo facto, os habilitados à rodovia, numa incrível imitação à classe política, não ilustram a mínima noção de que nas rotundas, obedece-se a regra de trânsito. «Rodas por dentro, em primeiro lugar, gozam de prioridade». Nas rotundas, raras vezes, apenas quando sinalizadas ou orientadas por semáforos ou sinaleiro, aguarda-se pela distante prioridade. A nova rotunda de São Pedro que, a abandonar a capital esburacada e de saúde mental alarmante, obriga os humanos aos três principais destinos; hospital, cemitério ou aeroporto, isto é, socorro, enterro ou sonho, é de levantar saia à cabeça, derivada de violação, dia e noite.
Muitas das viaturas e motorizadas, em fuga para a capital, como que os automobilistas fugindo da invisível cruz, desviam a rotunda. Optam pela via da esquerda, isto é, seguem pela perigosa contra-mão, em escapadela de alto risco, para chocarem de frente com os veículos que vêm da cidade, como que à vista de todos, não houvesse a alteração na rodovia. Faz falta uma outra rotunda, uns metros mais adiante, ou seja, no cruzamento da bomba de gasolina de São João, ora vedada de zinco, que similar, sempre foi de difícil visibilidade e perigosidade aos motoristas que vêm de oração da Igreja da Conceição ou de praguejo do gabinete do Primeiro-ministro.
Onde para a Polícia de Trânsito para que, numa primeira fase e como garantia de salvaguardar as vidas humanas e, não menos, os bens materiais, devia educar os motoristas e numa segunda, caçar receita ao tesouro público para que a Câmara Distrital de Água Grande possa varrer o lixo e as moscas da cidade e tapar os buracos que assaltam e envergonham o que resta da beleza da capital?
Com a Reforma Administrativa da ministra Vera Cravid, financiada pelo balúrdio da cooperação internacional, não falta receita ao Estado para aguardar-se por 15 dias úteis pelo pedido de uma procuração. O país fechado por três semanas, é de imaginar a aflição de utente da diáspora necessitando do seu cacau, mas impedido de movimentação da conta bloqueada no BISTP. A declaração de residência passada pela Câmara Distrital, também obriga espera de semanas, mas há sempre curvas financeiras de encurtar os prazos. O caricato, algo que os imigrantes lutaram para pôr fim, em Portugal, agora corta-febres em São Tomé e Príncipe. Deve-se «recorrer a dois vizinhos para testemunharem com as assinaturas pessoais», o forasteiro no bairro residencial. Minha gente, issé moda feia e inadaptável ao país!
Ainda da titular da Justiça do XIX Governo, quem me foi apontado o rabo da viatura na Vila Maria -, diz a voz baixinha – ela anda de piquete em piquete com os deputados e juízes militares, estes adquiridos em saldos de baixa intelectual e jurídica pelo anterior executivo, a vincar o cunho pessoal na aceleração à pressão tardia do presidente da República, Carlos Vila Nova, ao julgamento de 25 de Novembro. No uso do poder de mulher jurídica e cúmplice da contra-mão da Justiça, o mais perigoso cancro do país; a ministra Vera Cravid (cega aos órfãos), está de consciência livre, apostada a atropelar os familiares e quatro mortos, estes assassinados pela hedionda fúria, imbecil e tortura desumana para salvar ADI, seu líder e chefias militares de mãos criminosas manchadas de sangue de civis.
Neste dia, há 35 anos, festivo, histórico, democrático e de esperança iluminada -, o povo derrubou o poder totalitário dos 15 anos do MLSTP, decidindo pela maioria absoluta do PCD – me chegou o Acórdão dos juízes do Tribunal Constitucional, na pretensão de derrubar as conquistas democráticas. Propósito intemporal, duvidoso, conflituoso, incendiário e escandaloso, inventando moda de desinteresse nacional, somente um ano após a solicitação de oponentes ao decreto presidencial de queda do anterior executivo e a consequente tomada de posse do XIX Governo, surge um ato de jurisprudência, mas em contra-mão à ética, imparcialidade e ao direito constitucional!? Terreno de descrédito, deu lugar a “post” de guerrilha de cidadania e jornalista, este sempre voluntário a puxar brasas à sardinha. «Mas issé trabalho!?»
Apanhado em contra-mão, desprestígio político e pouca lucidez constitucional, a isca de Roberto Raposo e pares, foi engolida pelo demissionário de 6 de janeiro de 2025, o anterior 1º ministro (antes de 2008, ministro e quatro vezes, desde essa época, o chefe de executivos). Na imprensa, de piquete e audiência, deu os evidentes sinais de que anda desempregado e para tal, tem as malas feitas de regresso à gestão do país abandonado, sempre que não goza de merenda governativa. Ansioso, menos de meio ano para a realização dos escrutínios, aguarda pelo convite do Presidente da República, para assumir – agora e já -, o quinto governo. Pretende retomar a roubalheira como testemunha o contrato de Tesla STP. A empresa produzia 4 megawatts e faturava, mensalmente, o correspondente a 10 megawatts para que nos 25 anos de contrato energético, a sociedade empresarial viria a encaixar de corrupção legalizada, mais de 100 (cem) milhões de euros que tanta falta fazem aos hospitais e centros de saúde, sem Saúde. Apenas um dos muitos desempenhos, altamente lesivos aos são-tomenses.
Ainda assim, juntando à graduação e benesses às chefias militares, em contra-mão às deliberações acusatórias do Ministério Público, o povo (guiado por intelectualidade partidária) só quer saber de energia, água e barriga cheia. Está faminto dos festejos da recente e indecorosa governação; excesso de poder; atropelamento constitucional; destruição da legalidade democrática; desvalorização parlamentar e respetiva oposição; representação indevida do Estado; deslealdade institucional (inclusão do presidente da república no contrato de corrupção do porto) e protagonismo deselegante para com o mais Alto Magistrado da Nação, o presidente Carlos Vila Nova, que foi subserviente, paciente e excessivamente vagaroso na demissão do XVIII Governo.
A propósito do hediondo massacre de 25 de Novembro de 2022, não tive a oportunidade em conhecer Miques Bonfim, o advogado das vítimas da “inventona”, quem em setembro passado, após a libertação política à vida familiar e social, o jurista recebeu um exemplar da obra Ellyzé – Autópsia da Alma, de Dias Cardoso, à venda na FNAC, enviado desde “plé-mundu”, isto é, estrangeiro. Na mesma perspetiva, não conheci os familiares do Lucas (indulto presidencial precioso à recandidatura, vai tarde, talvez 3 de Fevereiro), que por humanismo e Direitos Humanos, tudo fiz para visitar o sentenciado na injusta cadeia política do XVIII Governo, em conluio com o atual poder. O país bloqueado por semanas, impediu a burocracia de abraçar por lá, também o cantor de Milagrosa, Ailton Dias.
Troquei telefonemas e mensagens com Nilson Viegas que pretendia juntar leitores no auditório Guimarães Rosa, no Largo Bom Despacho, mas a detenção de Gegé Amado Vaz, por palavrões às mais altas autoridades do país de impunidade e em contra-mão, obrigou a sua sua máquina digital à cidadania democrática. Afinal, o ativista social, é da Trindade! É neto de kumadre Genha Bobô, título adquirido aquando da parturiente oferecer em casa, na Rua Baixa, luz à Fati, a colega pessoal.
Apesar da tentativa de ajustar às respetivas agendas, não pude inaugurar o cheiro de abraços à titular, por excelência, “das pastas de Trabalho e Assistência Social” que desde Covid, merecia graduação pública dos governos da república. A ministra esteve, uma vez mais, atarefada nos almoços e cabazes de Natal aos idosos e às crianças deixadas para trás pelos sucessivos governos. Última hora, o país foi anestesiado pela intervenção e ajuda oportuna da solidária ministra, Noemy Medina, com o engajamento da diáspora para salvar Aline, a menina de 7 anos, violada sexualmente por mais um assassino à solta que lhe apedrejou o físico, a mente e transtornou a vida deixada para trás pelo XIX Governo.
Para a inevitável saudade, deixamos o país arrastado pela geografia social de duas velocidades, a proliferar crianças pedintes na rua. As senhoras, nos volantes de todo-o-terreno, como que deliberação da Convenção das Mulheres, pouco querem saber da política confiada à contra-mão dos maridos enjoados na noite de corno oficial, a antiga sexta-feira dos homens. Em dias diferentes, mesmo defronte a Ckadô e Continental, fiz sorriso natural a dois amigos de Riboque e Quinta de Santo António, sem direito a infância, ou seja, marginalizados e abandonados para trás pelo executivo de Américo Ramos.
Li a mais fiel sinceridade neles, mas sem solução pessoal de erradicar o desespero infantil. Pediram um quilo de arroz e óleo para a avó e a respetiva tia. O coração ardeu e as lágrimas das cicatrizes, ultrapassaram o canto dos olhos molhados do menino que fui, criado por san Mosa, a guerreira, mãe e pai, em simultâneo, mas, «os filhos proibidos de pedirem, seja a quem fosse»; conhecido ou desconhecido.
Fiz o possível, repartindo o suor da diáspora com as variedades de sacos (arroz em volume de 5 quilos), latas e garrafas que, na modéstia, vergaram pescoços às duas crianças, de 12 anos, especialmente, a de mãe falecida e abandonada pelo pai de Guadalupe. Senti traído e fragilizado pelas lágrimas, que apesar de ter avançado as notas para o “motoqueiro” e a bolacha para adoçar aquela infância, do segundo dia -, segunda-feira, feriado doado ao domingo anterior do Rei Amador – fiz meio-giro à consciência e transportei o menino à porta de casa, em Santo António, passando pela TVS e curvando à esquerda, antes da Universidade Pública de São Tomé.
Um grande edifício, por sinal uma igreja -, das novas espalhadas em cada esquina do país, disputando gritos, cânticos e d’j́ambis, dia e noite – fazia concorrência à uma outra deserta, mas de pastor, esposa e filhos, em salvação da alma, é testemunha da esburacada rua do meu novo amigo da Quinta de Santo António, preenchida de crianças e adolescentes em disputa das dobras da lavagem de viaturas, através da água corrente na rodovia e indispensável ao habitat dos mosquitos do paludismo.
José Maria Cardoso
20.01.2026