Opinião

Homem de cabeça perdida na justiça penal

Na esquina do pavilhão comercial da cidade, uns passos do poder camarário, abeirei-me do letreiro retangular no vidro – sem mais que fazer -, para oferecer ao cérebro a realidade factual dos olhos famintos. É pena não beneficiar que seja de um só holofote na testa para respirar o ritual tropical do sol ilhota. Meio radiante, de pernas apressadas e rotineiras, ia adormecer ao colo das montanhas beijadas pelo espetacular céu azul. Senti o coração frágil a solidarizar-se para com os cegos.

As palavras, não sendo inocentes, suscitavam dúvidas a qualquer curioso mesmo não entendendo patavina da justiça. Por cima e maiores, «Anúncio». Mais abaixo e em duas linhas, «Homem de cabeça perdida na justiça penal». Não é comum, os anúncios públicos ativarem dúvidas aos leitores ou ouvintes. Pelo contrário. A clareza deixa ao mais “bernabé” da comunidade disponível, de esforço contribuitivo e sempre motivado a ajudar desde que a oportunidade venha a estar ao seu alcance. Por que raio assaltaram o verbo? Sei lá! É do Estado! Baralhei a mente.  

«Procura-se o homem de cabeça perdida na justiça penal.» Ficou mais ao pé de uma comunicação. Ajeitei-me à hipótese avançada pela esperteza de caçador de palavras que me fazia companhia na tarde de sexta-feira. «Já se encontrou o homem de cabeça perdida na justiça penal.» Testei a segunda hipótese, na realidade, a que melhor ajustaria à tranquilidade dos familiares e amigos da coitada criatura, antes sequestrada na justiça. Como desfazer do imbróglio? Eu é que levantei a espinhosa questão à mim mesmo. Espreitando taberna adentro! Foi o que me propus de tornar mais leve e explícita a tarde vagabunda e ansiosa pelo fim de semana.

Os indivíduos, incluindo o balconista, entretinham-se com uns copitos de uma espécie de bagaceira da cana-de-açúcar com que imaginei as avós da infância, incluindo minha, a “sióra” Tilha, lá no quintal da Baixa com o cachimbo ardido a refinar o sangue de reformadas por janeiro. Não havia muitas ofertas nas prateleiras para vender que pudessem servir de empecilho aos copos. «É para aquecer veias à tarde. Vai um? Hum! Homem de cabeça perdida! Não é?» Foi a honra acalorada da casa à imediata saudação de punhos cerrados. Nem lhes permiti tempo de retirar as máscaras com que divertiam, vendo o bobo que, demoradamente, esteve perdendo tarde a ler, reler, interagir e interpretar desfecho ao quebra-cabeça do homem de cabeça perdida. Me caiu por cima, a desgraça!? Sem antever, o desdentado mais preciso que o barbado. «O doutor anda de cabeça perdida!»

Engoli a isca. Ficou desfeita a suspeita que despertou mais dúvida. «O senhor anda a meter pernas na sua senhora!» Endureci o olhar pelo atrevimento. Que frescura? Mas que ousadia!? Como o velho careca pode ir tão longe na conspiração à felicidade!? Indaguei. «A idade, o perfume e as rosas não se combinam consigo.» Garantiu o velhote de bengala. O silêncio perdurou como que as horas estacionassem ali a advogar por mim. «A experiência da vida.» Replicou comigo calado na expetativa da nova reação do tipo da dança de barba. «Apenas quando os pretos traem as esposas, levam flores, perfume e surpresas à casa. O nosso amigo anda de cabeça perdida!»

O quê de concreto estes reformados pretendem tramar à mim? Encostado à parede, ficou mais amarotado o rosto sem juízo e voluntariado a ser pano de pancada de uns velhotes. Eu!? Homem de cabeça perdida!? As flores para domingo, o mais próximo daquela tarde, isto é, 8 de Março, dia da Mulher, rápidas, esmoreceram todos os beijos antes de festejarem os pés românticos em casa.

Lá veio o cálice de “cacharamba” transparente, aconselhada de natural e boa qualidade como das poucas que me predispus a meter o nariz ao primeiro gole, em seco, através do apelativo cheiro de visita. Paguei a rodada e pedi cola ou gengibre para ativar o aparelho digestivo em pausa desde o meio-dia. “Pôcha!” A fogueira incendiou a língua até os miolos, mas da combinação com o álcool, o roto da química caiu bem ao estômago.

«O doutor está uma complicação danada. O defensor da legalidade judicial, um senhor de fato e gravata, agora presta biscate a quem lhe der mais cacau?» Sem aparo judiciário, fui apanhado em fora de jogo pelo da bengala. A boca me abriu às atrevidas moscas da cidade. «Após o ilustre mamar os vinte mil euros ou quase da participação solidária da sociedade civil. Obra, en!?» Fiquei perplexo com o barbado, mas concentrado ao que o careca, aos goles da cana-de-açúcar destilada, embriagasse as palavras. Talvez agisse com alguma acuidade. «Vê lá! Similar aos políticos, estamos a introduzir os pés pelas mãos da justiça!» Não reagi. A tarde tramou ao meu destino.

O careca, sem qualquer destreza, repescou o diálogo. «A defesa das vítimas de 25 de Novembro, agora troca pés à embriaguez dos conceitos do Direito Constitucional, Direito Penal, Direito Administrativo, Direito Tributário, Direito Ambiental, Direito das Crianças, Políticos, Sociais e patavina, só para inventar moda que ninguém consegue mais dançar uma só “rumba” das normas jurídicas e da verdade que regulam a vida em comunidade? Tá a ver? “Issé trabalho!?”» Deitei-lhe o olhar matreiro como que na expectativa de dança da chuva refrescante no zinco da noite, de surpresa, caía trovoada animada pelo ronco das mudanças climáticas.

O desdentado, rápido e de gargalhada contagiante roubou-lhe as palavras. «A venda atrapalhada da cidadania para investimento e doação abalada pelo mau lençol do conselheiro sueco do presidente da República, replicado na concelhia chilena do 1º ministro através da boleia do presidente do parlamento, não viu a dupla financeira estrangeira tramada pela justiça internacional? Mas nada disso tem sido café da justiça nas manhãs no restaurante da Avenida. Nem o momento político de ouro de atrair preciosos votos, veja só, traz frio ou calor à oposição. Aqui na terra, tudo vai descampar no homem de cabeça perdida na justiça.» Desabafou sem papas na língua.

O ambiente social ficou mais embaraçoso. Coisas do álcool. Eu não entendia da política que num estalar de dedos se diluiu na economia, justiça e diplomacia, mas não me podia queixar de estar no sítio errado e na hora errada. Desde miúdos e no quintal da Santíssima que me viu tornar grande, levávamos com a tareia para efetuar tudo ao direito. Contrariamente, crescidos, deveríamos ao máximo evitar de sujar no direito, porque na maioria das experiências, os titulares do diploma, levados pelo excesso de estudo, eram homens sem cabeça. As mulheres não seguiam pelo rumo.

«Tudo agora, as jeitosas leis, personalidades de socorro e os novos rumos no Estado democrático do Direito, está errado!? Perante a consciência jurídica até pode existir contra-curvas perigosas na forçada jurisdição da luta pelo poder, porque o doutor entende bem, debate e vende de borla, como poucos, o direito direitinho. Não deve compactuar, aos seus olhos, que pisem nos princípios das Leis e da Constituição da República. Certo!? Mas a linguagem verbal desprestigiante e inquietante às personalidades; o botar abaixo nos contraditórios; os recuos; as contradições e as suspeições no ar até na fila de crentes viciados às suas lições, não vê que deixaram o homem de cabeça perdida? O amigo é surdo ou cego?» Levei com palmadas desdentadas no ombro esquerdo.

Para não ser “pestú” e abandonar o amistoso ambiente, mudo, surdo e cego, já que a “bagunça” da república assim obriga e reclama um pé prudente até ao homem de cabeça perdida na justiça penal, acendi luz à esperança. «O senhor doutor, como prometido, ainda vai apresentar-se de toca e consciência jurídica no tribunal para a legítima defesa da inocência das vítimas de 25 de Novembro de 2022!»

Sóbrio, despedi-me da malta com a tarde do quarteto da sabedoria bem passada, veias temperadas e juízo em dia. Nem de longe, nem de perto, alguém que lesse a alegre atmosfera que ficava para trás, iria retirar ilações precipitadas de que a inesperada presença não tivesse caído bem aos interlocutores. A esforçar a memória consequente ao desafio do dístico do pavilhão, jamais imaginei que os velhotes, tão iluminados pelo algodão que lhes floresce a idade, mas sem a mínima apetência de vasculhar as redes sociais – compreensível -, me iriam trair com a faca nas costas.

Ninguém de bom senso acertaria na falsidade humana. As peças do xadrez da vida também pregam ao intelecto partida. Sendo esta quarta-feira, o dia de aniversário, 30 anos nos ouvidos de Lisboa à África e ao mundo, a velha história, é bastante velha. Qualquer coincidência com a realidade, deve-se à data de hoje; Dia das Mentiras. RDP África, Parabéns!

Entretidos com os goles, não tivemos tempo de refinar quem era quem. Sendo o meu saudoso pai, um mestiço, herdeiro secular de portugueses e escravas negras, eu não era a figura ideal de pagar as favas do homem de cabeça perdida na justiça penal. Lá embriagado pela fresca ventania vespertina, apenas me vi a encolher os ombros de deceção por nada entender do golpe da velhice dos copos da tarde e vindo pela viva voz do sujeito da bengala. «Os mulatos são traidores da pátria!»

José Maria Cardoso

1 de Abril de 2026

1 Comment

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  1. Justino

    7 de Abril de 2026 at 13:33

    Sem comentários para tanto lixo escrito de uma maneira vergonhosa. Tenham noção e deixem de ter este indivíduo que julga que escreve bem. Pedante e cabotino. Um horror.

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