“A partir de uma leitura do texto – As descobertas da descoberta ou a dimensão de uma mensagem poética’ de Frederico Gustavo dos Anjos”
A poesia de Conceição Lima constitui um espaço privilegiado de reflexão sobre a história, a identidade e os desafios de São Tomé e Príncipe. No poema “Descoberta”, a autora apresenta um sujeito poético profundamente comprometido com a realidade social do seu povo, transformando a palavra poética num instrumento de consciência colectiva, de questionamento e de esperança.
Logo nos primeiros versos:
“Após o ardor da reconquista
Não caíram manás sobre os nossos campos
E na dura travessia do deserto
Aprendemos do deserto
Que a terra prometida era aqui
Ainda aqui e sempre aqui”
o leitor é conduzido a uma reflexão sobre o período pós-libertação nacional. O sujeito poético faz o balanço do presente, mas simultaneamente projeta um futuro desejado, mais justo e mais próximo das aspirações alimentadas no passado. Há, portanto, uma consciência crítica diante das expectativas criadas pela independência e da realidade encontrada após a conquista da liberdade.
A expressão “não caíram manás sobre os nossos campos” desperta imediatamente a atenção para o desequilíbrio entre o ideal sonhado e o seu efectivo cumprimento. A independência política não trouxe automaticamente prosperidade, abundância ou resolução imediata dos problemas sociais. O poema desconstrói a ideia de que a libertação nacional seria acompanhada de milagres ou recompensas instantâneas.
O símbolo bíblico do “maná” representa justamente aquilo que é esperado como dádiva providencial. Contudo, no entendimento do sujeito poético, o desenvolvimento social e económico não depende de benefícios caídos do céu, mas do esforço humano, do trabalho colectivo e da consciência nacional. A reconstrução do país exige sacrifício, perseverança e responsabilidade.
É neste contexto que o sujeito criado por Conceição Lima assume claramente uma posição afirmativa diante da realidade nacional. Em vez da resignação ou da negação, opta pelo compromisso com a transformação social e com o bem-estar colectivo. O poema revela, assim, um sujeito engajado, cuja voz ultrapassa a dimensão individual para representar toda uma comunidade.
Tal perspectiva pode ser observada através do emprego do pronome possessivo “nossos” e das formas verbais na primeira pessoa do plural, como “aprendemos”. Esses elementos linguísticos demonstram que o “eu” poético não fala isoladamente; ele personifica um espírito colectivo, solidário com os problemas e os desafios do povo santomense. O sujeito poético transforma-se, desse modo, na voz de uma geração que reconhece as dificuldades do presente, mas que não abandona a esperança de construção de um futuro melhor.
Ao afirmar que “a terra prometida era aqui / ainda aqui e sempre aqui”, o poema reforça igualmente a ideia de pertença e responsabilidade nacional. Não existe outro lugar idealizado onde a felicidade será encontrada. O verdadeiro espaço de realização é a própria nação, com todas as suas fragilidades e potencialidades. Cabe ao povo desbravar, reconstruir e erguer o “padrão” nacional através do trabalho e da união.
Portanto, “Descoberta” apresenta-se como uma poesia de consciência histórica e social. Conceição Lima transforma a experiência colectiva em matéria poética e propõe uma reflexão profunda sobre o sentido da independência, do compromisso cívico e da reconstrução nacional. Mais do que denunciar dificuldades, o poema convoca os cidadãos à responsabilidade, à persistência e à valorização do esforço colectivo como caminho indispensável para o progresso social.
Prof. Man Fred
1985 — Empresa de Artes Gráficas de S. Tomé
