Em 12 de julho de 1975, nascia uma nova nação no coração do Golfo da Guiné. Sobre duas pequenas ilhas de origem vulcânica, moldadas pelo Atlântico e cobertas por uma das mais extraordinárias florestas tropicais do planeta, erguia-se um país chamado São Tomé e Príncipe. Depois de séculos de colonização, um povo inteiro via abrir-se, pela primeira vez, a possibilidade de decidir o seu próprio destino.
A liberdade deixava de ser apenas um sonho sussurrado entre gerações para se tornar uma responsabilidade comum. Naquele dia, não mudou apenas a bandeira; mudou a consciência de um povo que passava a chamar sua à terra onde nasceu.
Mas a independência não chegou envolta em abundância. Chegou de mãos dadas com a incerteza. O novo Estado herdava uma economia quase totalmente dependente da monocultura do cacau, instituições ainda frágeis e uma dramática escassez de quadros nacionais. Conta-se que existia apenas um médico para servir todo o país. Talvez esse número pertença tanto à memória quanto à História, mas pouco importa. Ele tornou-se símbolo de uma verdade maior: São Tomé e Príncipe começou praticamente do zero. Herdou uma terra extraordinariamente rica em beleza e recursos naturais, mas profundamente carente de tudo aquilo que transforma um território numa nação plenamente desenvolvida.
E, no entanto, valeu a pena acreditar.
Não havia fórmulas mágicas. Não existiam modelos perfeitos, nem caminhos previamente desenhados para uma pequena nação insular perdida no meio do Atlântico. Havia apenas homens e mulheres comuns que decidiram fazer algo extraordinário: construir um país onde os seus filhos pudessem nascer livres; um país onde cada cidadão pudesse sentir que aquela pequena porção de terra também lhe pertencia; um país onde a dignidade deixasse de ser um privilégio para passar a ser um direito.
São Tomé e Príncipe é pequeno apenas para quem o observa no mapa. Quem o conhece descobre um país imenso. Imenso na generosidade do seu povo. Imenso na imponência das suas montanhas, onde as nuvens parecem repousar sobre o verde infinito do Obô. Imenso na riqueza da sua biodiversidade, reconhecida como uma das mais valiosas de África. Imenso na cultura que nasceu do encontro de povos, de dores, de resistências e de esperanças. Poucos países possuem uma identidade tão profundamente enraizada na natureza como estas ilhas que aprenderam a fazer do oceano a sua fronteira e, simultaneamente, a sua ponte para o mundo.
Durante décadas, foi a terra que alimentou os sonhos de prosperidade. O cacau, conhecido como o “ouro negro”, transformou São Tomé e Príncipe numa referência internacional. As roças tornaram-se o coração económico do arquipélago e milhares de vidas foram moldadas pelo ritmo das colheitas, pelo cheiro das sementes a secar ao sol e pelo som das folhas agitadas pelo vento. O cacau não foi apenas um produto de exportação. Foi parte da nossa identidade. Foi sustento, memória e esperança. Mas a História raramente segue os caminhos que imaginamos. Os mercados mudaram. Os preços internacionais caíram. As dificuldades acumularam-se.
O desenvolvimento revelou-se muito mais exigente do que parecia naquele luminoso 12 de julho de 1975. Vieram limitações estruturais, crises económicas, oportunidades adiadas e desafios que ainda hoje persistem. Houve momentos em que o futuro pareceu caminhar mais devagar do que os sonhos de quem acreditou na independência.
Ainda assim, São Tomé e Príncipe nunca permitiu que as dificuldades definissem a sua identidade.
A verdadeira riqueza destas ilhas nunca esteve apenas no cacau, nem nas suas florestas, nem no mar que as rodeia. Sempre esteve nas pessoas. Nas mães que, com enorme sacrifício, fizeram da educação dos filhos a sua maior herança. Nos pais que trabalharam uma vida inteira para oferecer à geração seguinte oportunidades que eles próprios nunca tiveram. Nos professores que ensinaram quando faltavam livros. Nos profissionais de saúde que salvaram vidas quando os recursos eram escassos. Nos agricultores que nunca perderam a confiança na terra. Nos pescadores que continuam a desafiar diariamente o mar. Nos jovens que partiram para estudar ou trabalhar, mas que nunca deixaram de levar São Tomé e Príncipe dentro do coração.
Talvez por isso o nome da nossa terra encerre um simbolismo tão profundo. São Tomé foi o apóstolo que precisou de ver para acreditar. O nosso povo percorreu o caminho inverso. Quantas vezes acreditámos antes de ver? Acreditámos quando quase tudo estava por construir. Acreditámos quando os recursos eram insuficientes. Acreditámos quando os sonhos pareciam maiores do que as possibilidades. Acreditámos porque desistir nunca fez parte da identidade deste povo.
A independência, afinal, nunca foi um ponto de chegada. Foi apenas o primeiro capítulo de uma obra que continua a ser escrita todos os dias. Escrevem-na os investigadores que procuram soluções para os desafios do país. Os professores que formam novas gerações. Os agricultores que continuam a cultivar a terra. Os pescadores que regressam ao amanhecer.
Os médicos e enfermeiros que cuidam da vida. Os empreendedores que acreditam no futuro. E cada jovem que decide colocar o seu talento ao serviço desta nação. Hoje, cinquenta e um anos depois, o maior património de São Tomé e Príncipe continua a ser o seu povo. Um povo resiliente, pacífico e profundamente ligado à sua terra. Um povo que aprendeu que a verdadeira independência não se celebra apenas com discursos ou cerimónias. Conquista-se todos os dias através da educação, do conhecimento, da ciência, da boa governação, da justiça social, da preservação da natureza e da capacidade de transformar desafios em oportunidades.
Celebrar o 12 de Julho é, por isso, muito mais do que recordar um acontecimento histórico. É prestar homenagem à geração que ousou sonhar a liberdade e a todas as gerações que, desde então, têm carregado a responsabilidade de transformar esse sonho numa realidade cada vez mais justa. É reconhecer que ainda há muito caminho por percorrer, mas também que poucas nações possuem um património humano, natural e cultural tão extraordinário quanto o nosso.
Que nunca nos falte a coragem para continuar a construir este país. Que nunca nos falte a lucidez para reconhecer os nossos erros. Que nunca nos falte a humildade para aprender com o passado. E, sobretudo, que nunca nos falte a esperança.
Porque foi a esperança que fez nascer São Tomé e Príncipe.
E será sempre ela a conduzir o seu futuro. Viva São Tomé e Príncipe.
Viva o 12 de Julho.
Hugulay Maia – 12 de julho de 2026, cidade de Angolares, distrito de Caué.