O povo são-tomense decidiu-se, mais uma vez. O Presidente Carlos Vila Nova foi reeleito para um novo mandato.
Apresento-lhe as minhas sinceras felicitações pela vitória alcançada e desejo que este novo mandato seja colocado ao serviço da unidade, da justiça, da estabilidade e do desenvolvimento de São Tomé e Príncipe.
Terminada a eleição, impõe-se agora uma pergunta fundamental: E agora?
Num artigo anteriormente publicado nesta página, “Liderança Inspiradora”, intitulado “A nova bipolaridade em São Tomé e Príncipe: o 25 de novembro como fronteira social”, escrevemos:
“Hoje, essa lógica de polarização ameaça renascer sob outra roupagem. Não já baseada na velha disputa bipartidária, mas na forma como cada cidadão se posiciona em relação aos acontecimentos trágicos de 25 de novembro de 2022. De um lado, os que exigem justiça e verdade; do outro, os que, por medo, interesse ou conveniência, preferem o silêncio ou a negação.”
Estas eleições demonstraram que uma parte significativa do povo são-tomense deseja justiça, verdade, equilíbrio institucional e respeito pela vida humana. Foi essa preocupação que aproximou partidos políticos, dirigentes, cidadãos independentes e diferentes setores da sociedade em torno da candidatura do Presidente Carlos Vila Nova.
Mas a vitória eleitoral não resolve tudo. Cortar a cauda da serpente não garante a sua imobilidade. A serpente continua viva e possui várias cabeças. Na verdade, derrotar uma determinada expressão política não significa eliminar os problemas profundos do país. Mudar os governantes não muda automaticamente as instituições. Substituir os titulares dos cargos não transforma, por si só, os comportamentos, os hábitos e as mentalidades.
Como tenho afirmado, as eleições presidenciais e legislativas de 2026 podem representar o fim de uma etapa e o início de um novo ciclo de reconstrução nacional.
Na história da nossa República, identifico três grandes momentos. Em 1975, unidos, conquistámos a independência. Em 1991, unidos, conquistámos a democracia. Em 2026, estaremos unidos para reconstruir o país e garantir prosperidade para todos? Essa é a verdadeira questão.
Depois das eleições legislativas, teremos maturidade política suficiente para preservar esta unidade e enfrentar as sete cabeças da serpente que bloqueiam o desenvolvimento nacional?
A primeira é a corrupção, que transforma os recursos públicos em benefícios particulares.
A segunda é a impunidade, que faz acreditar que existem cidadãos acima da lei.
A terceira é o deixar andar, que normaliza atrasos, incumprimentos e ausência de resultados.
A quarta é a improdutividade, que confunde presença com trabalho e discurso com execução.
A quinta é o nepotismo, que substitui a competência pelo parentesco, pela amizade ou pela fidelidade partidária.
A sexta é o desrespeito pelos valores, que normaliza a mentira, desvaloriza a palavra dada, tolera a irresponsabilidade e legitima o abuso do poder.
A sétima é o wuêxaismo, a inveja destrutiva que procura diminuir quem trabalha, bloquear quem cresce e desacreditar quem ousa fazer diferente.
Estas cabeças não existem apenas nos partidos políticos adversários. Podem existir nos partidos vencedores, nas instituições públicas, nas empresas, na sociedade civil, nas famílias, nas igrejas e em cada um de nós.
Por isso, a reconstrução deve começar dentro dos próprios partidos.
Não podemos condenar a corrupção dos adversários e tolerar a dos nossos amigos. Não podemos denunciar o nepotismo dos outros e praticá-lo quando chegamos ao poder. Não podemos exigir justiça quando somos vítimas e defender a impunidade quando os envolvidos pertencem ao nosso campo político. A verdadeira mudança exige coerência.
A unidade nacional também não significa que todos devem pensar da mesma maneira. A democracia precisa de oposição, crítica e diversidade de ideias. Unidade significa discordar sem destruir, competir sem transformar o adversário num inimigo, governar sem excluir e fazer oposição sem prejudicar o país. A união construída apenas contra alguém será sempre frágil. Por isso, é necessário transformar a convergência eleitoral numa convergência nacional em torno de um projeto de país.
O novo mandato do Presidente Carlos Vila Nova e o novo Governo que resultar das eleições de setembro não devem inaugurar um tempo de revanche ou de perseguição. A justiça não pode ser confundida com vingança, mas a reconciliação também não pode servir de desculpa para o silêncio e o esquecimento.
São Tomé e Príncipe precisa de justiça sem perseguição, reconciliação sem amnésia e paz sem impunidade.
Por conseguinte, a verdadeira maturidade política será testada depois das eleições legislativas.
Serão os partidos capazes de colocar o país acima dos seus interesses imediatos? Terão coragem de escolher pessoas competentes, mesmo quando não pertencem aos seus círculos? Conseguirão responsabilizar os seus próprios membros quando estes violarem a lei ou os valores que dizem defender?
A reconstrução nacional exige lideranças construtoras, instituições inclusivas e uma mentalidade criativa.
Lideranças construtoras não vivem apenas de discursos. Formam equipas, resolvem problemas, assumem responsabilidades e apresentam resultados.
Instituições inclusivas aplicam as mesmas regras a todos, valorizam o mérito, protegem os direitos e impedem que o Estado seja capturado por interesses particulares.
Uma mentalidade criativa não se limita a lamentar aquilo que nos falta. Procura transformar os recursos disponíveis, a nossa cultura, a juventude, a diáspora, a natureza e a nossa pequena dimensão em oportunidades de desenvolvimento.
O nosso hino apresenta São Tomé e Príncipe como a “nação mais ditosa da terra”. Mas, se não cortarmos as sete cabeças da serpente, poderemos transformar esse sonho num pesadelo para os nossos filhos e para as futuras gerações.
Certamente não queremos deixar-lhes um país marcado pela pobreza, pela ausência de oportunidades, pela injustiça, pela corrupção e pela perda permanente de esperança.
Por isso, a pergunta permanece: E agora?
Agora é tempo de transformar o voto em responsabilidade, a esperança em ação, a unidade eleitoral num compromisso nacional e a democracia em resultados concretos.
Em 1975, conquistámos a independência. Em 1991, conquistámos a democracia. Em 2026, poderá abrir-se uma oportunidade histórica para iniciarmos o processo de reconstrução nacional. O desenvolvimento será a consequência dessa reconstrução, e não o seu ponto de partida.
Agora é tempo de reconstruir o país.
Primeiro São Tomé e Príncipe.
Olinto DAIO
Pela nação mais ditosa da terra.
21/07/2026