Há três anos, São Tomé e Príncipe acordou ferido.
Não foi o canto do mar nem o murmúrio das ilhas que nos despertou, foram disparos, rumores, uma encenação grotesca que nos quis fazer acreditar num golpe inexistente.
Momentos depois, o país parou diante dos ecrãs dos telemóveis: um pivot com ar sério e à desportiva anunciava que “tudo estava sob controlo”.
Mas não estava. Nada estava.
Porque, nos bastidores daquele teatro macabro, um ódio sem rosto e uma sede de poder sem limites transformavam a mentira em sangue.
E aquilo que se preparou como espetáculo tornou-se massacre.
Quatro homens indefesos,
Arlécio, Armando, Into e Isac, nomes que o país sussurra com dor,
foram torturados, humilhados, mutilados, executados à luz do dia,
enquanto gargalhadas ecoavam sobre a vida arrancada.
Foi o dia mais sombrio das ilhas do Nome Santo desde a Independência.
Um dia em que se matou não apenas cidadãos, mas a própria dignidade da República e bom nome das Forças Armadas.
Hoje, ao fechar os olhos, ousamos sonhar.
Sonhamos que o país acorda finalmente em paz.
Sonhamos que:
– O mandante foi identificado, julgado e condenado.
– Os executores enfrentaram um tribunal competente e imparcial.
– As famílias tiveram finalmente o direito ao funeral que há três anos lhes foi roubado.
– As crianças ficaram sob proteção do Estado que lhes deve amparo.
– O sobrevivente, Lucas, respira o ar da liberdade ao lado da sua família.
– O povo, reconciliado com a verdade, encontra cura para as suas feridas.
– A justiça, enfim feita, fecha um dos capítulos mais trágicos da nossa história.
Ufa…
É apenas um sonho.
Um sonho que o país repete em silêncio, com lágrimas guardadas.
Porque a verdade é dura:
eles não querem resolver este caso.
Eles preferem o esquecimento, o silêncio, o adiamento, a confusão.
Preferem que o tempo apague aquilo que o dever deveria esclarecer.
Mas como podem eles dormir tranquilos?
Mas há algo que nem eles conseguem matar.
Podem atrasar a justiça,
mas não podem matar a memória.
Podem calar os relatórios,
mas não podem calar o povo.
Podem esconder documentos,
mas não podem esconder a verdade.
Porque Arlécio, Armando, Into e Isac não estão mortos.
Não. Eles vivem e viverão sempre na alma deste povo que se recusa a esquecer.
Eles estão vivos:
– na consciência dos que constroem o país com honestidade;
– no espírito dos que acreditam num futuro mais justo;
– na coragem dos que levantam a voz enquanto outros tentam calar;
– na fraternidade de um povo que, mesmo ferido, insiste em amar a sua terra.
A justiça ainda não foi feita.
Mas o país está desperto.
E um povo desperto nunca mais volta a dormir
enquanto a verdade não se cumprir.
Porque há feridas que não cicatrizam com silêncio.
Cicatrizam com um a justiça.
E a justiça é tudo o que pedimos e tudo o que merecemos.
Pela memória.
Pela dignidade.
Pela nação mais ditosa da terra.

Olinto DAIO
25 de novembro de 2025
Célio Afonso
26 de Novembro de 2025 at 8:54
Não há interesse do estado em resolver este caso porque altas patentes militares, governantes e ex governantes estão envolvidos até ao pescoço no mesmo.
É por esta razão que o processo desapareceu do gabinete, dentro do quartel.
Eles, sim, são tão inteligentes e nós todos somos “bobos” como se diz por la.
Isso é para ver que para se aceder ao poder em STP, os políticos São-tomenses são capazes de tudo!
Santo
26 de Novembro de 2025 at 10:15
Mas o que é preciso se fazer, para que a justiça seja feita? Está parecendo uns cães de donos pobres, que foram mortos.
3 anos se passaram, que até agora os criminosos e seus mandantes, estão por ali, como se nada teria acontecido. Dizia-se que o tardar da justiça tinha haver com o ex-procurador da justiça, mas foi nomeado um outro procurador, que desde que tomou posse, não tugiu, nem mugiu.
Mas o que é que está acontecendo? As esperanças nos homens fazedores da justiça estão se esgotando. Só resta a justiça divina que tarda de chegar, mas certamente não falhará…
Jorge Trabulo Marques
29 de Novembro de 2025 at 0:27
Concordo inteiramente com as suas palavras. De quem se recusou a pactuar com Patrice Trovoada, que tem mais de estrangeirado, de gabonês, que santomense, onde nem nasceu nem cresceu. Lamentável é que o Presidente, venha com a desculpa esfarrada de qu
e o processo se perdeu, sendo ele o representante das forças armadas. Não o quer julgar nem beliscaar. A demissão foi mais uma farsa para se livrar das criticas, que o assolavam para não o afetarem na corrida eleitoral. Mas não tenho a menor dúvida, que, se ele for reeleito, não tardará a dar-lhe carta verde para regressar e voltar a faturar e engordar a sua riqueza e o povo a empobrecer.