Opinião

25 DE NOVEMBRO: O dia que rasgou a alma do país

Há três anos, São Tomé e Príncipe acordou ferido.

Não foi o canto do mar nem o murmúrio das ilhas que nos despertou, foram disparos, rumores, uma encenação grotesca que nos quis fazer acreditar num golpe inexistente.

Momentos depois, o país parou diante dos ecrãs dos telemóveis: um pivot com ar sério e à desportiva anunciava que “tudo estava sob controlo”.

Mas não estava. Nada estava.

Porque, nos bastidores daquele teatro macabro, um ódio sem rosto e uma sede de poder sem limites transformavam a mentira em sangue.

E aquilo que se preparou como espetáculo tornou-se massacre.

Quatro homens indefesos,

Arlécio, Armando, Into e Isac, nomes que o país sussurra com dor,

foram torturados, humilhados, mutilados, executados à luz do dia,

enquanto gargalhadas ecoavam sobre a vida arrancada.

Foi o dia mais sombrio das ilhas do Nome Santo desde a Independência.

Um dia em que se matou não apenas cidadãos, mas a própria dignidade da República e bom nome das Forças Armadas.

Hoje, ao fechar os olhos, ousamos sonhar.

Sonhamos que o país acorda finalmente em paz.

Sonhamos que:

– O mandante foi identificado, julgado e condenado.

– Os executores enfrentaram um tribunal competente e imparcial.

– As famílias tiveram finalmente o direito ao funeral que há três anos lhes foi roubado.

– As crianças ficaram sob proteção do Estado que lhes deve amparo.

– O sobrevivente, Lucas, respira o ar da liberdade ao lado da sua família.

– O povo, reconciliado com a verdade, encontra cura para as suas feridas.

– A justiça, enfim feita, fecha um dos capítulos mais trágicos da nossa história.

Ufa…

É apenas um sonho.

Um sonho que o país repete em silêncio, com lágrimas guardadas.

Porque a verdade é dura:

eles não querem resolver este caso.

Eles preferem o esquecimento, o silêncio, o adiamento, a confusão.

Preferem que o tempo apague aquilo que o dever deveria esclarecer.

Mas como podem eles dormir tranquilos?

Mas há algo que nem eles conseguem matar.

Podem atrasar a justiça,

mas não podem matar a memória.

Podem calar os relatórios,

mas não podem calar o povo.

Podem esconder documentos,

mas não podem esconder a verdade.

Porque Arlécio, Armando, Into e Isac não estão mortos.

Não. Eles vivem e viverão sempre na alma deste povo que se recusa a esquecer.

Eles estão vivos:

– na consciência dos que constroem o país com honestidade;

– no espírito dos que acreditam num futuro mais justo;

– na coragem dos que levantam a voz enquanto outros tentam calar;

– na fraternidade de um povo que, mesmo ferido, insiste em amar a sua terra.

A justiça ainda não foi feita.

Mas o país está desperto.

E um povo desperto nunca mais volta a dormir

enquanto a verdade não se cumprir.

Porque há feridas que não cicatrizam com silêncio.

Cicatrizam com um a justiça.

E a justiça é tudo o que pedimos e tudo o que merecemos.

Pela memória.

Pela dignidade.

Pela nação mais ditosa da terra.

Olinto DAIO

25 de novembro de 2025

3 Comments

3 Comments

  1. Célio Afonso

    26 de Novembro de 2025 at 8:54

    Não há interesse do estado em resolver este caso porque altas patentes militares, governantes e ex governantes estão envolvidos até ao pescoço no mesmo.
    É por esta razão que o processo desapareceu do gabinete, dentro do quartel.
    Eles, sim, são tão inteligentes e nós todos somos “bobos” como se diz por la.
    Isso é para ver que para se aceder ao poder em STP, os políticos São-tomenses são capazes de tudo!

  2. Santo

    26 de Novembro de 2025 at 10:15

    Mas o que é preciso se fazer, para que a justiça seja feita? Está parecendo uns cães de donos pobres, que foram mortos.
    3 anos se passaram, que até agora os criminosos e seus mandantes, estão por ali, como se nada teria acontecido. Dizia-se que o tardar da justiça tinha haver com o ex-procurador da justiça, mas foi nomeado um outro procurador, que desde que tomou posse, não tugiu, nem mugiu.
    Mas o que é que está acontecendo? As esperanças nos homens fazedores da justiça estão se esgotando. Só resta a justiça divina que tarda de chegar, mas certamente não falhará…

  3. Jorge Trabulo Marques

    29 de Novembro de 2025 at 0:27

    Concordo inteiramente com as suas palavras. De quem se recusou a pactuar com Patrice Trovoada, que tem mais de estrangeirado, de gabonês, que santomense, onde nem nasceu nem cresceu. Lamentável é que o Presidente, venha com a desculpa esfarrada de qu
    e o processo se perdeu, sendo ele o representante das forças armadas. Não o quer julgar nem beliscaar. A demissão foi mais uma farsa para se livrar das criticas, que o assolavam para não o afetarem na corrida eleitoral. Mas não tenho a menor dúvida, que, se ele for reeleito, não tardará a dar-lhe carta verde para regressar e voltar a faturar e engordar a sua riqueza e o povo a empobrecer.

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

To Top