Há conceitos que, quando os ouvimos pela primeira vez, nos fazem perceber que já os conhecíamos. Apenas não tínhamos nome para eles. Gastronacionalismo é um desses conceitos. Desenvolvido pela socióloga Michaela DeSoucey em 2010, parte de uma ideia simples: os estados e as instituições usam a comida para afirmar identidade nacional e proteger mercados. As certificações de origem protegida são o exemplo mais visível.
Mas o conceito vai além da burocracia. Descreve o momento em que um produto alimentar deixa de ser apenas alimento e se torna símbolo de pertença. Quando alguém nos diz que o calulu vai deixar de ser feito da forma tradicional, que os ingredientes locais vão ser substituídos por versões industriais importadas, a reação não é apenas “vão mudar um alimento”. É “vão tirar-me uma parte de quem eu sou”. É isso o gastronacionalismo a funcionar. O gastronativismo, definido por Fabio Parasecoli em 2022, opera noutro registo. Acontece não nos parlamentos nem nas certificações, mas nas cozinhas domésticas, nas escolhas do dia a dia, nas comunidades.

Usamos a comida, muitas vezes sem darmos conta, para dizer quem somos e a que grupo pertencemos. Escolher comprar num mercado de produtores locais em vez de num hipermercado não é apenas uma decisão económica. É uma afirmação de valores e de identidade. Parasecoli identifica duas formas: uma mais fechada, que usa a comida para separar “nós” dos “outros”; e uma mais aberta, que usa o orgulho pela comida local para resistir à globalização e defender comunidades.
São Tomé e Príncipe como laboratório São Tomé e Príncipe é um caso particularmente rico para perceber como estes dois conceitos se cruzam e, por vezes, se tensionam. O calulu é talvez o exemplo mais íntimo. Tem origens angolanas, foi adaptado com os ingredientes das ilhas (quiabo, fruta-pão, azeite de palma) e é hoje considerado um símbolo da identidade santomense. Não nasceu assim. Foi construído, ao longo de gerações, por pessoas que foram trazidas à força para um território que não era o seu e que foram tornando seu. A autenticidade gastronómica não é uma essência fixa. É uma construção que evolui.
O calulu mostra isso com clareza. O cacau é o exemplo mais visível do gastronacionalismo em ação. Tornou-se símbolo de identidade nacional e é promovido internacionalmente como cacau gourmet de origem única. O sistema agroflorestal em que é cultivado foi reconhecido pela FAO como património agrícola da humanidade. É uma projeção de identidade muito poderosa. Mas o cacau traz também uma tensão que estes conceitos ajudam a nomear: foi introduzido pela colonização portuguesa e produzido com trabalho escravizado nas roças. Como se constrói identidade a partir de uma herança assim? E a visibilidade internacional do cacau santomense, beneficia os pequenos produtores locais, ou favorece principalmente os intermediários?

Quem define o que é autêntico? A gastronomia de São Tomé e Príncipe é ela própria uma simplificação de uma realidade mais plural. Os Angolares, descendentes de escravos angolanos que viveram sempre da pesca, têm uma cozinha muito diferente da cozinha crioula urbana. Quando se constrói uma narrativa gastronómica nacional, escolhem-se sempre alguns pratos-ícone para representar o todo. Muitas histórias e muitas comunidades ficam invisíveis.
É aqui que gastronacionalismo e gastronativismo deixam de ser apenas conceitos académicos e passam a ser perguntas práticas: quem tem o poder de decidir o que é “autêntico”? Quem beneficia quando um sabor se torna marca? São Tomé e Príncipe tem um sabor único; tem ingredientes raros, uma história densa e uma identidade gastronómica que ainda está a ser escrita. Usá-la como estratégia de desenvolvimento é uma oportunidade real. Mas para que essa estratégia seja justa, a narrativa tem de ser construída a partir das comunidades, com as suas vozes, as suas memórias e as suas mãos. Quando isso acontece, a comida deixa de ser apenas identidade. Passa a ser futuro.
Luís mattos Martins