Sociedade

Liberdade de Imprensa e de Expressão em São Tomé e Príncipe

“BAMU NHÉ FALA COPÉ” PORQUE FALAR NÃO PODE

Por Jornalista Manuel Dênde

A prática da censura e auto-censura marcam o quotidiano do jornalismo e da Imprensa no arquipélago de São Tomé e Príncipe.

A denúncia é da Associação de Jornalistas de São Tomé e Príncipe (AJSTP), que na pessoa do seu líder e correspondente da “Voz de Alemanha” em São Tomé, Juvenal Rodrigues, falava no dia 03 de maio de 2017, no auditório do Centro Cultural Português, na cidade de São Tomé.

“Falar não pode! Bámu nhé fála copé”, este verso em crioulo local (forro), serviu para este responsável caracterizar o pulsar e o sentimento que reina na sociedade são-tomense.

Uma expressão que está na boca do povo e também dos jornalistas, o que é ainda mais grave, diz Juvenal Rodrigues, alertando que “a criativa constatação popular que pronunciada sempre com um sorriso pode servir de barómetro para medir a Liberdade de Expressão e de Imprensa em São Tomé e Príncipe”.

Adianta Juvenal Rodrigues no seu discurso, que “de facto, a descarada censura que chega ao ponto de descaracterizar completamente certas matérias produzidas por jornalistas, a ponto dos autores não reconhecerem o trabalho que deixaram feito; a autocensura, a ausência de debates e do contraditório [nos órgãos públicos de comunicação social] e a exclusão acentuaram-se consideravelmente desde outubro de 2014”, (mês em que o Governo do ADI de Patrice Trovoada se instalou no Poder em São Tomé e Príncipe).

O Presidente da Associação de Jornalistas diante de um auditório repleto, incluindo alguns diplomatas estrangeiros, no Centro Cultural Português disse que “o país parece que vive num estado de excepção disfarçado, porque há comissários políticos e agentes que gravam conversas, mesmo em ambiente de convívio”.

Constata ainda Juvenal Rodrigues que “existe a percepção de que os telefones estão sob escuta. Há um clima de desconfiança generalizado, porque o amigo pode ser informante, na lógica de dividir para reinar. Não se pode falar verdadeiramente de um estado de Direito neste quadro”.

“O democrata convicto não tem medo do contraditório, não receia críticas e não alimenta a «bufaria» -passe a expressão. O pluralismo é uma das características de democracia”, concluiu.

Há duas semanas, um antigo Presidente da República, num Congresso de unificação do seu partido MDFM/PL, Movimento Democrático das Forças de Mudança/Partido Liberal, com o partido UDD, União dos Democratas para Desenvolvimento e Cidadania, realizado no dia 11 de agosto, no auditório do Cinema “Marcelo da Veiga”, em São Tomé, este denunciou um agravamento daquilo que considerou de “ditadura no país”.

Para Fradique de Menezes, a “ditadura” configura-se hoje em iniciativas que inviabilizam o acesso de membros de partidos políticos, por um lado e, por outro, a privacidade de um cidadão comum aos meios de Imprensa oficiais do país, nomeadamente, a Televisão São-tomense (TVS) e Rádio Nacional (RNSTP).

De acordo com o antigo Chefe de Estado que falava neste Fórum, no qual viu-se proclamado Líder Honorário dessa Unificação inter-partidária, ausência de acesso à Comunicação Social sob tutela de Estado, ambos órgãos de maior dimensão em São Tomé e Príncipe, “o Governo cria uma cultura de medo nos cidadãos para não denunciarem e exigirem seus direitos básicos, nomeadamente, a água, luz, estrada e a escola, ou seja coisas que concorrem para melhor qualidade de vida das pessoas”.

Na mesma linha de pensamento, Fradique de Menezes, afirmou que “há dias o Primeiro-ministro estava de visita a zona sul, mas esqueceu-se, há quase quatro anos de fazer uma ponte para as crianças de Ribeira Peixe, para irem as escolas. E hoje, elas sofrem…E pessoas devem ter a coragem de denunciar ausência de pontes na Imprensa”, denunciou.

O Governo se defende

O Governo rebate as críticas e defende-se das acusações, para usar a existência do Jornal digital ‘’Téla Nón’’ como prova de existência de Liberdade de Imprensa e de Expressão no país.

Patrice Trovoada vai no entanto mais longe, e explica que é livre de convidar pessoas para sua casa: Gabinete do Chefe do Governo, quando selecciona jornalistas e veda a participação de Abel Veiga, Editor do “Téla Nón” e jornalista da RTP-África.

Vindo de África Ocidental onde efectuou, na semana passada um périplo por alguns Estados da sub-região, Senegal e Burkina Faso, Patrice Trovoada além de indicar que a Lei de protecção de Liberdade de Expressão como de Imprensa, ao qual observam-na, desvalorizou já no Aeroporto de São Tomé, as acusações do antigo Presidente da República, Fradique de Menezes onde este acusa o Chefe do Governo de promover a ditadura no país.

Rebatendo as críticas, Patrice Trovoada afirma ainda que na história da Democracia são-tomense Fradique de Menezes foi o único Chefe de Estado que reuniu todos os partidos com assento parlamentar para lhe retirar os poderes Executivos que a Lei Constitucional lhe conferia quando estava em exercício de funções.

Tais constrangimentos na Imprensa estatal em São Tomé e Príncipe já extravasou estas ilhas atlânticas africanas, pois, após a denúncia de alegadas tentativas frustradas de golpes de estado, em 21 de junho de 2018, envolvendo Gaudêncio Costa (Deputado e antigo ministro do Turismo do MLSTP/PSD, partido da oposição) detido e posteriormente libertado pelos Tribunais por falta de provas, e Albertino Francisco Boa Morte, antigo ministro da Juventude e Desportos, detido preventivamente, a “Oxford Analytica”, uma ONG, norte-americana sedeada em Nova Iorque, denunciou um agravamento de censura, autocensura e a intromissão na Política Editorial de Imprensa em São Tomé e Príncipe.

A Organização norte-americana “Oxford Analytica” com filiais em Paris (França), Tóquio (Japão) e Londres (Reino Unido), adianta, sustentando que as coisas estão cada vez mais complicadas para jornalistas em São Tomé e Príncipe, sobretudo, porque o país não oferece alternativas de emprego seguro e viável, para que estes possam optar por uma escolha.

E a intromissão na Política Editorial tem sido, obviamente, mais evidente nos Órgãos sob a tutela de Estado, nomeadamente, a Rádio Nacional (RNSTP), Televisão São-tomense (TVS) e a Agência Noticiosa “STP-Press”.

Segundo ainda “Oxford Analytica”, no seu II Relatório datado de 9/8/18, sobre São Tomé e Príncipe, autoridades inviabilizam o acesso de membros de partidos políticos e de dissidentes à imprensa, em flagrante violação das Leis da República, que desde 1991, consagraram o livre acesso dos cidadãos a informação e o Direito de serem informados, conforme sustenta os Artigos 29ºe 30º da Constituição da República.

A Lei São-tomense no âmbito do Artigo 30º da Constituição, alínea 2, vai mais longe proclamando que “o Estado garante um serviço público de imprensa independente dos interesses de grupos económicos e políticos”.

Exercício da profissão não é protegido

Sublinha-se que o Jornalismo é das únicas classes profissionais que ainda não dispõe de um quadro privativo, o qual  contraria com a situação de Juízes, militares, pessoal de saúde e Diplomatas, etc.

O Governo de Patrice Trovoada herdou um processo em curso respeitante a carreira de Jornalistas, iniciado no Governo de Gabriel Costa e que visava valorizar o trabalho e atribuir aos profissionais de Imprensa um salário digno, mas o XVI Governo matou a iniciativa.

Jornalistas vêem-se misturados numa classe geral de Administração Pública e a sua especificidade não é valorizada sujeitando-se hoje, a um salário de fome, miséria e de mendicidade.

A título de exemplo, um Jornalista com formação média aufere em São Tomé e Príncipe um salário equivalente a pouco menos de 200 Euros.

O amordaçamento de Imprensa, tudo aponta, parece ser uma coisa nova e com a qual, hoje afeta gravemente até a Sociedade Civil

Pois, se recuarmos um pouco na história, aperceber-se-á que em tempos idos, ou seja, após instauração da Democracia Multipartidária em Agosto de 1991, considerado o período mais florescente de Imprensa Livre em São Tomé e Príncipe o clima sociopolítico era melhor e jornalistas respiravam a alegria e as notícias, sim, eram produzidas sem qualquer constrangimentos de perseguição ora vigente, havendo mesmo aqueles que se refugiam em pseudónimos e/ou usam segundos nomes para iludirem as autoridades e continuarem a escrever sem serem advertidos e/ou correrem riscos de virem a ser despedidos dos seus postos de emprego.

Também, sublinha-se que o País alegrava-se com o surgimento de vários títulos, dos quais o “País”, da jornalista e escritora Conceição Deus Lima, “Nova República” e algum tempo depois o “Correio da Semana”, de Rafael Branco, antigo quadro da Rádio Nacional e que tornou-se Primeiro-ministro do país, jornal “O Parvo” de Ambrósio Quaresma, o jornal “Tribuna” e depois “Equador”, dirigido por Nelson Mendes, o jornal “Vitrina” de Manuel Barros, o jornal “Horizonte” cujo editor era o jornalista da Agência estatal STP-Press, Adelino Lucas.

Hoje, contrariando com o cenário bastante animador do passado e com uma imprensa independente quase inexistente no país, autoridades ao invés de estimularem e/ou promoverem-na, viabilizam medidas de asfixia de jornais independentes do Poder estatal, registando-se apenas no parque gráfico São-tomense o jornal “O Parvo” e o jornal “K”, que neste momento é publicado aos sábados, com uma distribuição gratuita.

O país conta também com uma rádio privada, a emissora católica “Jubilar” que promove debates sobre a actualidade política aos sábados, e também algumas rádios comunitárias tuteladas pelas autarquias cuja maioria deixou de funcionar devido a ausência de assistência técnica e na Região Autónoma do Príncipe a rádio “Regional” tutelada pelo Governo local.

Ainda no que toca a paisagem de imprensa, realça-se a existência de jornais digitais, dos quais se destacam jornal “Tropical”, “Transparência”, “STP-Digital”, e “Téla Nón”, este mais perseguido pelas autoridades pela sua abordagem mais contundente e independente de qualquer acontecimento.

 

E como tal, este jornal viu variadíssimas vezes seu site inundado de vírus e o seu Editor, Abel Veiga, chantageado sobretudo com nulidade de publicidade numa tentativa de asfixiar o jornal.

Não obstante isso, autoridades tentam de todas as formas condicionar o trabalho equidistante e independente dos jornalistas.

Nesse aspecto, sublinhamos uma das afirmações de Patrice Trovoada, Primeiro-ministro, que numa das longas e cansativas entrevistas na TVS, há três anos, punha em causa a independência e acusava jornalistas de possuírem arma de fogo, a qual Juvenal Rodrigues, líder da AJS requereu ao Ministério Público investigação sem no entanto ter havido, até a data uma conclusão.

Com a iniciativa, Juvenal Rodrigues desafiou e acusou o líder do Executivo são-tomense de “mentir publicamente” e sustentou que “as armas com as quais os jornalistas usam são: a caneta, o papel, o microfone, o gravador, as câmaras fotográficas e de filmar, e naturalmente, as palavras e imagens”.

Dizia, de igual modo, o líder da AJS que “suspeição é extremamente grave, tendo em conta que a fonte é o Chefe do Governo”.

Conceição Lima fala do “medo”, sem medo

Numa discussão em redes sociais, a jornalista de televisão estatal local (TVS) e escritora, Conceição Lima, vulgo “São Lima”, pôs a nu o clima de medo que se vive na estação emissora televisiva são-tomense.

A jornalista afirma que a censura “quotidianizou-se. É o ar que se respira” [na TVS].

E mais adiante indaga a uma pessoa que não vale a pena mencionar seu nome (em redes sociais): “sabes o que é o MEDO? Também te posso dar exemplos ilustrativos do que é ser jornalista [nos órgãos estatais] e ter MEDO”.

Escreve ainda Conceição Lima, para depois, explicar que “um medo permanente, constante e asfixiante. Sabes o que é os jornalistas terem MEDO de falar livremente na redacção? Não, não deves saber”, alertou a jornalista quando abordava a situação dramática que se vive neste momento na redacção da TVS.

Conceição Lima denuncia igualmente a situação vigente na Rádio Nacional, descrevendo que “furar o bloqueio imposto à música do Gapa e do Juka [cantores são-tomenses na diáspora], o qual considera que “é quase demencial”.

Ela referia-se, na circunstância a interditação imposta a uma música, na qual os cantores são-tomenses juntam respectivas vozes numa cooperação musical e denominaram o CD de “Kuá ku ça Cóbó d’áua”.

O tal CD, vedado de passar na estação pública de rádio, é escutado nas pistas de dança do país, nomeadamente nas discotecas e também nos táxis, onde clientes ouvem e pedem aos taxistas para reporem a música.

E ela, sim, atrai seus amantes e São-tomenses pelo seu conteúdo, a tal música, com um efeito viral, converteu-se numa voz incómoda.

E na realidade, ou seja o quotidiano de uma vida difícil e um “desenrascar” de todos os dias, dos são-tomenses, é que tais cantores procuram reproduzir.

Ao todo, dizem, em síntese que o actual Poder tira, desemprega quadros bem formados no seu posto de trabalho, só porque não se associam ao partido do Poder ou quem tem cartão Azul e Amarelo, cores do ADI e substituídos por “sapateiros ou pedreiros”, metáfora, usado por tais cantores, para explicarem que substitutos não percebem nada do novo sector.

A mesma jornalista diz, reafirmando que “nada tenho a perder”, pois, quando se trata para falar a verdade, hoje, coisa rara, mesmo na praça pública, onde pessoas se salvaguardam de chamados “polícias secretas” informais criadas pelas autoridades, e que gravam a conversa num grupo de duas ou três pessoas e à partir daí, e em caso de funcionário de Estado, este sujeita-se a perder o seu emprego e/ou estará sujeita a perseguição “silenciosa” ou selectiva das autoridades, podendo traduzir-se numa eventual transferência de um local de trabalho para outro e/ ou ser colocado em casa de forma compulsiva recebendo, por exemplo, seu magro e mísero salário no fim do mês ou quando der para esta vítima receber ou ver essa miséria [salário] na sua conta bancária.

Com mais de 40 anos de existência: o país ascendeu a Independência de Portugal a 12 de Julho de 1975, depois de uma subjugação colonial de mais de 500 anos, São Tomé e Príncipe que experimenta há mais de 20 anos uma democracia plural, e hoje, é vulgar ouvir-se denúncias de partidos políticos da oposição queixando- das autoridades que amordaçam instituições como a Justiça, onde se verifica também um clima de medo e perseguição inadmissível quase pior que na comunicação Social e inviabilizam-nos (membros de Partidos Políticos) de terem acesso à Imprensa e o Governo promove o disfuncionamento de Órgãos de supervisão de Imprensa e/ de Justiça.

Exemplo mais flagrante ocorreu há seis meses, quando Assembleia Nacional destituiu os cinco Juízes do Tribunal Supremo de Justiça (STJ) que (tentaram, porque o Governo inviabilizou o Acórdão Judicial com Polícias Armados) de devolver a cervejeira ROSEMA ao empresário angolano Melo Xavier e, segundo a “Oxford Analytica”, a ideia, sim, das autoridades é colocar pessoas e/ou figuras dóceis e ligadas ao partido no Poder: ADI, numa perspectiva de controlar e anular qualquer iniciativa de independência de tais órgãos judiciais.

Ordem dos Advogados levantou-se contra este estado de coisas

Célia Pósser, Bastonária da Ordem dos Advogados, reconhece a existência de censura, que na sua opinião é “absolutamente condenável”.

A sua perplexidade vai mais longe quando admite que “a censura é de facto, evidente. O país nunca viveu uma situação de censura como hoje e naturalmente, cabe aos jornalistas em primeiro lugar, levantarem-se e protestarem contra este estado de coisas. Há hoje muita falta de informação neste país”, constatou.

A censura explica, briga com a capacidade psicológica das pessoas e para os jornalistas são-tomenses a situação é mais grave, porque ganham mal, reconhece e como tal padecem duplamente, tanto no plano psicológico como material e financeiro.

Para Célia Pósser, “o jornalista é uma das classes que mais mal pagas neste país e como tal sentem-se na situação de escravos e é necessário se pôr termo a esse estado de coisas, e valorizar-se a pessoa humana”.

E não é porque não se pensou e não salvaguardou mecanismos de protecção.

Sim, em 1991, autoridades de então, criaram um Conselho Superior de Imprensa (CSI), justamente para Regular e Supervisionar o normal funcionamento de Imprensa e dirimir eventuais conflitos daí resultantes de Liberdade de Imprensa e de Expressão.

Porém, o CSI, cujo Presidente é um Magistrado, não funciona por culpa de disputas políticas internas dos seus membros, em vez de assumirem uma postura de independência, as sequelas do Governo são evidentes assumindo-se entidade patronal.

Disfuncionamento dizíamos, sim, porque saltou-nos a vista a Ordem dos Advogados que ficou vários meses sem subsídios anuais atribuídos pelo Estado para assegurar a Justiça, nomeadamente, a defesa aos Pobres ou seja aquilo que alguém apelidou de “Povo Pequeno”.

Hoje e contrariando com o cenário bastante animador dos anos 90 e com uma imprensa independente quase inexistente no país, autoridades em vez de estimularem e/ou promoverem-na, viabilizam medidas para asfixia de jornais independentes do Poder estatal.

O jornal K, que além de tentativas de intimidação ao qual a Direcção do Jornal se sujeita, aliás, confirmado pelo seu próprio Editor: Octávio Ribeiro, há duas semanas, em declarações à RTP-África (de Portugal), autoridades dão indicações as empresas mistas (sobretudo), e chantageiam empresas independentes para anularem ou não aceitarem publicidades neste jornal como forma de matar o referido Jornal.

Sublinha-se que tais denúncias de tentativas de “controlo de informação”, perseguição de jornalistas e /ou tentativas de asfixia de Jornais (proibidos pela Lei), ganha um contorno mais gritante e alarmante porque o País não dispõe hoje de um órgão regulador de imprensa.

A Lei impede a modernidade

Com uma Lei de Imprensa que data de 1993 e que não salvaguardou a modernidade, hoje, São Tomé e Príncipe vê-se privado de algumas televisões que aguardam autorização das autoridades para transmitirem em sinal aberto, entre elas a sociedade de comunicação “Andim Média” (generalista) e “Mana Sat”, esta da Igreja Maná (religiosa).

E privadas de colocarem o sinal no ar, elas vão até um dia, transmitindo por via da Internet.

A propósito de acesso à Imprensa, Beatriz de Azevedo, uma Deputada ligada ao círculo de Caué, no sul da ilha de São Tomé, na sessão parlamentar de 17 do mês de agosto de 2018 evocou o Artigo 29 de Lei Constitucional, a Lei que faculta os são-tomenses o Direito a Informação e de serem informados, para dizer, por exemplo, que a população do distrito de Caué vê-se vedada de informação e não tem sinal de Televisão Pública. 

“A população do distrito de Caué, não é culpada de ter nascida nesse distrito (dista mais de 60 km da cidade capital do país, cidade de São Tomé) e nós vemo-nos privados desse Direito e espero que o Governo, a luz do Artigo 29ª da Lei Constitucional resolva e ultrapasse esse problema”, exigia a Deputada.

Há mais de seis meses, Patrice Trovoada, Primeiro-ministro deu uma das habituais longas entrevistas à Rádio e Televisão estatais onde fustigou e, entre outros, de forma inadmissível Patrik Lopes, o líder moribundo do Conselho Superior de Imprensa (CSI).

De entre outras afirmações, Patrice Trovoada acusou o líder do CSI de usar “o CSI para fazer política”.

Na mesma linha de pensamento e optando pelo mesmo diapasão, o jornalista Ambrósio Quaresma, um membro do CSI e pessoa designada para representar o Governo acusou em declarações a TVS, igualmente, o Presidente do CSI de inabilidade na liderança e gestão do Órgão que funcionalmente exerce o papel de regulador da Imprensa.

E como tal, o país hoje vai vivendo sem uma Entidade Reguladora dos Órgãos de Imprensa.

Convém, neste âmbito sublinhar o papel de Sociedade Civil, que igualmente reconhece um “défice” de exercício de livre direito de exprimir e/ ou de ter acesso aos Órgãos de Comunicação Social.

O Centro de Integridade Pública de São Tomé e Príncipe (CIPSTP), criada em 2012, e com filiais em Luanda (Angola), Maputo (Moçambique) e Lisboa (Portugal), reprova essa lamentável situação a qual reconhece que ela, sim, limita o livre exercício da cidadania facto que não contribui e nem fortalece a democracia em São Tomé e Príncipe.

Para o seu presidente, Deodato Capela, várias diligências foram feitas pelo CIPSTP as autoridades, na pessoa do ministro tutelar da Comunicação Social, Olinto Daio, e que estes assim como a Assembleia Nacional simplesmente ignoraram a petição do CIPSTP.

A petição, segundo justificava o CIPSTP visava uma audição pública do ministro de tutela de Comunicação Social, “tendo em conta os ganhos do sector dos órgãos da Comunicação Social, tendo em consideração a importância e contribuição de uma imprensa livre para a consolidação da democracia, atendendo ainda ao nível da maturidade dos órgãos da Comunicação Social e dos seus profissionais e valorizando a importância de um ambiente sadio de relação entre o executivo governamental e os media para uma natural fruição das informações”.

Nessa petição datada de 15 de Janeiro de 2018 à Assembleia Nacional, os proponentes, a Sociedade Civil representada pelo CIPSTP, “o grupo de cidadãos abaixo assinados, vem por este meio requerer o seguinte desejo: ver a qualidade de informação na televisão pública (TVS) melhorada e com equilíbrio de informação para todos os partidos políticos e outras organizações activas da sociedade. Este pedido deverá ser tomado com toda a urgência e brevidade possível.

Se a Constituição o permite, que se execute a acção, se moralize o país e que a imagem de um São Tomé e Príncipe político atento e renovado possa transpor fronteiras quanto antes!”, advoga CIPSTP.

E a CIPSTP vai mais longe fazendo alusão a Lei que salvaguarda “a garantia do direito dos cidadãos a serem informados é assegurada mediante o seguinte: A adopção de medidas anti-monopolistas e a proibição da centralização dos meios de comunicação social nas mãos de um indivíduo ou de grupos de interesse social, económico, político ou cultural”.

A rotura entre a CIPSTP e a Rádio Nacional, com a qual a FONG, uma Plataforma de ONG’s, subscreveu um Protocolo, conheceu piores dias, foi á 3 de Maio de 2018, quando a CIPSTP produziu um programa para divulgação e sensibilização de Sociedade Civil.

Segundo Deodato Capela, Director Executivo do CIPSTP, “pelo seu conteúdo incómodo [para as autoridades], o programa só foi divulgado uma vez e tal situação é lamentável”, considerou.

Tentativas da Direcção Executiva do CIPSTP para fazer valer a vigência do Protocolo entre as partes traduziram-se infrutíferas junto da Rádio Nacional de São Tomé e Príncipe.

 “Grave”, diz Liberato Moniz

Liberato Moniz, um dos activistas cívicos e analista político local, denuncia igualmente tal situação, a qual considera de “grave”.

Nas suas intervenções em debates semanais na rádio Católica “Jubilar” este arquitecto de formação, não deixa de denunciar situações que põem em causa a Lei Constitucional e afectam alguns direitos fundamentais dos cidadãos, compreendendo, nomeadamente o livre exercício de Liberdade de Expressão e de Pensamento (Artigo 30º), e/ou de Associação, de Reunião e de Manifestação (Artigo 34º) todos consagrados na Lei Constitucional do país.

Numa ronda por algumas artérias da cidade e onde se regista grupo de duas ou três pessoas, é vulgar se falar que “as coisas não vão bem” e naturalmente, o Governo não fica bem na fotografia.

Porém, quando se tenta, por exemplo, recolher registos formais, com gravadores e/ou blocos ou canetas, o ambiente muda completamente de figura.

Pois, alguns até vão ao ponto de advertir sim ao próprio Jornalista Manuel Dênde, “o Sr. Já é adulto…. Ganha juízo! Você é corajoso meu caro, falar para rádio? O quê que eu falo? E caso eu falar você não vai passar e então que vale a pena falar?”.

Bom, indagamos você já tentou que não ouviu a tua voz na rádio, este responde, “sim, já! mas apenas puseram o que interessa ao Governo mas quando se refere a críticas a Governo de Patrice Trovoada não ouvi, … cortaram e falar para quê?”.

“Vamos deixar isso assim até ver”, lamentou, um amigo, que pediu para não ser identificado.

Inconformado com a recusa do cidadão em falar, conversar connosco sobre a “Liberdade de Imprensa em São Tomé e Príncipe”, viramo-nos para um motoqueiro.

Este, no entanto, olha para atrás, direita, esquerda e percebe que não vem ninguém e/ ou alguém a gravar, os tais chamados “polícias secretas informais” mas adverte-nos, “só falo, caso o Sr. Manuel Dênde não tiver gravador”.

Câmara para fotografar, pior um pouco. Aceitamos, e este convida-nos para um café, mesmo na praça (cidade de São Tomé), o qual não mencionamos o nome, interessa evitar publicidade gratuita.

E aí, diz-nos, “sentem-se. Vamos, disfarçar e fazer de conta que estamos a tomar um chá”.

E em seguida, afirma “a liberdade de Imprensa? Sim, no país fala-se que há liberdade de Imprensa e cada um pode falar o que quer, mas vocês, sabem, sim, que hoje as coisas não são assim, você VERDADE é perseguido, … até a quinta geração”, disse-nos o motoqueiro (mota-táxi).

Não aceitou o registo do seu nome, e nós, sim, assinalamos um nome fictício, “José Martins”, que no entanto vai mais longe “não sei como é que vocês jornalistas trabalham e imagino o terror em que vocês vivem, sim, … falar verdade neste país?”, indagou.

Fim

 Esta reportagem surge no quadro da bolsa de criação jornalística 2018, promovido no âmbito do projecto Sociedade Civil pelo Desenvolvimento. Uma iniciativa da Federação das ONG em São Tomé e Príncipe em parceria com a Associação para a Cooperação Entre os Povos, e conta com o apoio financeiro da União Europeia e da Cooperação Portuguesa.

O conteúdo desta reportagem é da única responsabilidade do autor, não reflectindo as opiniões ou a posição dos promotores nem dos financiadores.

    2 comentários

2 comentários

  1. Renato Cardoso

    4 de Setembro de 2018 as 11:40

    A instrumentalização dos mídias estatais é a maior tentação dos Poderes Públicos quando instalados para Governarem—se.
    Têm profunda alergia e convivem mal com as críticas e opiniões livres.
    No caso de São Tomé e Príncipe o atual poder instalou o clima de medo e a lei da rolha entre outros mecanismos para silenciar os que não comungam a doutrina que pretendem implantar.
    Este cenário configura o que comentei anteriormente.O atual pseudo líder pôs em marcha o plano ambicioso e talvez perigoso de modelar as Ilhas a sua imagem.
    Tenho dúvidas que este macabro projeto possa perdurar.
    É certo que a pobreza espiritual e os vários constrangimentos que padece a sociedade permitem este tipo de coisas.
    Acresce a tudo isto à falta da classe média e coesão dos intelectuais endógenos e exógenos identificados com as reais necessidades e prioridades de romper com o paradigma atual.
    Enquanto persistir o excesso de individualismo entre as pessoas será difícil mudar este clima.
    Tenho esperança que este ambiente não irá manter—se indefinidamente.
    Bem hajam todos que combatem o culto de personalidade em marcha pelo partido da situação.

  2. Pascoal Carvalho

    4 de Setembro de 2018 as 22:02

    Creio e acredito que esta situação seja verdade. Entretanto, é necessário ter em conta, que até então dos diferentes governos e partidos a quando no poder criou verdadeiramente condições para a pluralidade de informação em STP. Daí existirem duas verdades.

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