Cultura

REPENSANDO A CULTURA…

Há dias escutei, com redobrada atenção, a notícia divulgada pelo Repórter-África sobre a institucionalização, em Cabo Verde, da data de 3 de Dezembro como Dia da Morna, na perspectiva de encaminhar este verdadeiro monumento do seu património cultural como património imaterial da humanidade.

E eu, que sempre regozigei com o apreço e o orgulho que os caboverdianos têm para com os valores da sua cultura e que estou à vontade para dizê-lo já que, como é sabido, coloquei em determinada altura publicamente em causa a propalada nota histórica de que a Cidade Velha – hoje beneficiada com o estatuto de património mundial, graças à competência e ao ímpeto postos por Cabo Verde na divulgação do citado projecto, o que lhe viria a merecer importantes patrocínios internacionais e a sua consequente aprovação – foi promovida a cidade antes de S. Tomé ter alcançado o mesmo estatuto, o que me levou a debruçar sobre a indiferença com que convive a cultura em S. Tomé e Príncipe.

Se é certo que “ os processos históricos de crioulização levaram à afirmação de identidades culturais e políticas distintas entre Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, considerando-se os cabo-verdianos o “resultado” de um caso particular da colonização portuguesa e, mais propriamente, uma nação crioula (1)”, enquanto que os santomenses “apesar da percepção das diferenças culturais em relação às sociedades continentais, se consideram africanos”(2), estou em crer que tal não basta para justificar o nosso progressivo alheamento das questões culturais, um dos aspectos mais gritantes do qual se centra, como é do conhecimento geral, no estado de marginalização a que votamos os nossos crioulos.

Enfim, marcas do assimilacionismo dos finais do séc. XIX, a que infelizmente ainda não fomos capazes de nos furtar!

Neste aspecto, vem a propósito narrar o que me dizia há dias um amigo, pessoa com pleno conhecimento da matéria, acerca da controvérsia medida de mudança da hora: sendo S. Tomé e Príncipe o único país no mundo tendo como latitude o Equador (latitude 0) e como longitude o Meridiano de Greenwich (longitude 0), no nosso lugar, os Caboverdianos encontrariam formas de propagandear e explorar turisticamente tal circunstância em seu proveito. Nós, indiferentes e ufanos, fazemos incrivelmente o contrário!

Foi assim que, ao tomar conhecimento da justa homenagem que se pretende fazer à Morna, ocorreu-me reflectir sobre a Rumba santomense, um ritmo de inegável influência congolesa, mas que se imbuiu de tal forma de inovações específicas do sentir santomense que se libertou, há já algumas décadas, do vínculo que o ligava à sua precedência.

De facto, a rumba desperta, pela sua romântica balada, uma profunda emoção e afecto, sentimentos que se misturam para nos mergulhar em estranhas sensações de reflexão, entrega e prazer. A melodia calma, compassada e dolente do ritmo, a doce suavidade poética das letras, enfim, as mensagens plenas de advertências e conselhos que nos são transmitidas, exprimem, como nenhum outro, o modo de ser santomense, constituindo, sem qualquer dúvida,  uma marca inigualável da nossa identidade cultural.

A RUMBA pode, por isso, ser considerada o bilhete de identidade que nos marca como um povo, senhor do seu próprio destino e soberano no conjunto das nações do mundo.

Daí que indague a mim mesmo e àqueles que sei preocuparem-se com temas afins: quando é que nos aflorará à ideia reconhecer e chamar a nós a importância da rumba, dignificando-a através da sua promoção e da consequente institucionalição de uma data em sua homenagem, para além de possíveis outras consagrações, honrando assim este símbolo inconfundível e inalienável da nossa cultura?

Quem sabe, um dia …

Albertino Bragança 

NOTAS

(1) Gerhard Seibert – Crioulização em Cabo Verde e São Tomé e Príncipe: divergências históricas e identitárias

(2) Idem               

    10 comentários

10 comentários

  1. Alligator

    1 de Março de 2018 as 9:06

    Caro Albertino Bragança, apoio incondicionalmente esta sua iniciativa, e acho que quem de direito, e todos os Santomenses em geral, deveriam fazer o mesmo!!

  2. MIGBAI

    1 de Março de 2018 as 12:41

    Por favor Albertino Bragança.
    Já tem idade para andar pelo menos com um olho aberto e ver a nossa realidade.
    Então é a RUMBA que pode ser considerada o bilhete de identidade que nos marca como um povo, senhor do seu próprio destino e soberano no conjunto das nações do mundo.
    Tenha coragem de nos dizer o seguinte:
    Desde quando somos um povo???
    Desde quando somos senhores do nosso destino????
    Desde quando somos soberanos no conjunto das nações do mundo????
    Tenha juízo por favor, já que também já destruiu um pouco desta terra martirizada pela independência, á medida do pinto da costa e dos seus capangas.
    Somos povo nenhum!!
    Não somos e nem nunca seremos senhores do nosso destino!!!
    Não somos e nunca seremos soberanos em nada, enquanto andarmos de mãos estendidas a pedir esmolas!!!
    Mas ficamos a saber por si, que a RUMBA vai dar-nos isso tudo, ou seja vai dar-nos a identidade como povo, vai proporcionar que sejamos senhores do nosso destino, e acima de tudo vai dar-nos a soberania ao lado dos outros povos.
    Grande RUMBA.
    Santa paciência!!

    • Toussaint L'Ouverture

      1 de Março de 2018 as 17:44

      MIGBAI, o colonialista racista que nunca engoliu a morte do império e se disfarça de são-tomense e de africano. Já repararam que ele principalmente destila veneno contra artigos de natureza cultural, artigos sobre a nossa cultura? Já repararam que ele nos chama ”negrumes”? Já repararam que o grande ressentido, esverdeado de ódio e infeliz acha que os são-tomenses não têm cultura, mas apenas usos e costumes? Seu escaravelho racista vá lá pregar para Olivença e deixe-nos em paz, colossal ignorante!

      • Martelo da Justiça

        1 de Março de 2018 as 19:01

        Realmente esse racista saudosista não se conforma com a soberania de São Tomé e Príncipe, volvidos 42 anos da independência. Única coisa a fazer é despreza-lo e ignorá-lo.

      • Maria Manuel

        2 de Março de 2018 as 10:30

        Peço desculpa de me estar a intrometer nos comentários.
        É a primeira vez que o faço, e acredite o senhor que é a última vez.
        Mas neste espaço tenho verificado que o senhor não apoia as ideias do senhor MIGBAI.
        Porém seria de bom tom, e caso assim o entenda, fazer as suas críticas sem usar este tipo de linguagem que nada abona em seu favor.
        Recordo-me que aqui em Portugal, logo após o 25 de Abril, surgiram perante as pessoas, ideias de partidos de esquerda e extrema esquerda (PCP, PCTP/MRPP, UDP, MDP/CDE e outros) que usaram o mesmo tipo de linguagem que o senhor está a usar, ou seja, quem não era da cor política ou defensor dos lideres políticos, era banhado infelizmente com este tipo de expressões que o senhor está a usar para o migbai.
        Recordo que a democracia baseia a sua existência na divergência de ideias e opiniões e vivendo-se atualmente em São Tomé e Príncipe em democracia, não lhe fica nada bem estes seus comentários agressivos e intemporais.
        Mas como disse acima, o senhor faz o que melhor entender do uso da existência da democracia, e só toma esta minha observação, caso assim o entenda.
        Com os melhores cumprimentos,
        Maria Manuel.

        • MIGBAI

          12 de Março de 2018 as 15:14

          Senhora Maria Manuel.
          A Senhora acaba por tocar em algo muito importante e que nos levou á desgraça de pais que somos.
          Foram os vossos esquerdalhos apoiados pelo partido comunista português, juntamente com os nossos esquerdalhos e oportunistas que nos colocaram na miséria que somos.
          Vocês em Portugal livraram-se destas ilhas cheias de malária;
          Ilhas sem qualquer tipo de viabilidade como pais;
          Ilhas que se tornaram o poiso dos comunistas;
          Ilhas que foram entregues a miúdos que não sabiam nada de governação.
          Ficámos a viver numa ditadura que nos foi imposta pelos portugueses esquerdistas, perdemos a nossa nacionalidade portuguesa, perdemos a liberdade de expressão que embora pouca antes da independência, após a independência desapareceu completamente.
          Sabe Senhora Maria Manuel, estes que aqui me criticam, e que eu não lhes ligo nada, são aqueles que desde sempre tiveram e estão a mamar da miséria que passámos a viver depois da independência.
          São os colonos negros que temos agora nesta terra.
          São eles que comem as esmolas que recebemos, são eles que andam bem vestidos e em bons carros com o dinheiro que chega dos estrangeiros para obras que nunca chegam a ser feitas.
          A pedofilia neste miserável pais, é praticada pelos altos dirigentes políticos e militares a descoberto e em frente de toda a gente.
          Senhora Maria Manuel se um dia vier a este miserável pais, vai ter muito que contar depois de ver a miséria que vivemos com a independência que vocês nos deram ou melhor que nos impuseram.
          Fico por aqui, deixando os cães ladrarem, e as lesmas deste pais continuando a deixar o rasto peganhento por onde passam.

    • hilaria

      4 de Março de 2018 as 9:32

      Senhora ou senhor MIGBAI, bom dia. Nao sei si compreendi bem o texto do senhor Bragança ou o senhor està sendo ironico no seu comemtario.Tudo o que ele diz està certo apesar talvez dos erros que ele tenha comitido eu acho que esse apelo que ele faz merece ser considerado.
      Homens como ele de uma grande cultura geral e sobre a nossa terra en particular e que tenta expor publicamente e defendendo o pouco que nos resta la na terra, ha poucos. Muitos ja morreram ou estao velhos ou entao nao se autorizam o que é uma pena.
      Segundo a lectura feita por mim e a compreençao desse texto que tive o senhor Albertino B. nao nos diz que a RUMBA vai nos salvar da épidemia nenhuma do abîsmo nenhum. Que, na verdade estamos caminhando direto para o abismo tambem estou de accordo consigo senhora ou senhor MIGBAI(peço deculpa mais nao gosto nada do anonimato mais é assim ha pessaos que nao gostam assumir com cara aberta porque nunca se sabe nao é?).Mais podemos talvez nao so com discursos mais tambem com a pratica impedir essa força que està a nos empurrar para a catastrofe.Nao sei e talvez nao seje necessario eu saber a sua idade e o seu nivel intelectaual mais pouco importa o necéssario é essa lastima que fez, essa forma tambem de falar de maneira quase poética do estado do nosso pais. O seu contributo pessoal para se evitar tudo isso talvez sege essa, dizendo que nada vai bem. A sua dor està forte. Nos todos lastimamos mais o que fazemos de concreto ?
      O que fazemos de bom, com uma boa consciencia para esse pais? Entao espero que a senhora ou o senhor MIGBAI , o senhor Albertino L ,eu e todos os outros(150 mil mais ou menos que somos) que têm esse olhar naquilo que nos pertence à todos e que nao està nada bem possamos dizer :BASTA, JA CHEGA,STOP, Sao Tomé e PRINCIPE merece melhor, merece O MELHOR. Nao se precisa fazer parte de partido nenhum para contribuir dar um melhor apoio. Quando se vê alguêm no chao nao devemos empurrar, para manter a pessoa no chao e nao se precisa ser médico para lhe dar assistencia, nao se precisa ser da familia, ou ser um amigo para,lhe dar uma ajuda, para, tentar levantar a pessoa do chao, pedindo tambem ajuda porque talvez sozinho talvez nao consigamos. Nao é so o governo que deve fazer ou que nao fazer (ou que faz e que para uns ele faz bem ou para os outros ele nao faz nada de bem etc etc). O governo é nesse momento ou ja ha uns anos para nao se dizer depois da independencia o pai incapaz entao, os filhos, devem, para o bem estar deles fazer o melhor que podem, para evitar que a casa toda a venha a ser queimada. Eu entao,conto consigo, sem ironia nenhuma da minha parte, conto com o seu melhor contributo em todo o dominio onde puder participar, de perto ou de longe para essa terra que lhe é e que nos é tao querida.
      Peço-lhe desculpa assim como aos outros lectores pelos meus erros gramaticais e de ortografia (ha certos acentos que nao exitem em certos teclados e vivendo com uma lingua nao portuguesa é complicado escrever-se correctamente).
      Um bom fim de semana para si e todos que têm a ocasiao( meios intelectuais , economicos e outros) para ler e debater por esse meio.

  3. Ralph

    2 de Março de 2018 as 5:26

    Esta é uma reflexão provocante. A cultura de qualquer país é uma coisa estranha, sendo o produto do seu povo e as suas origens, da sua terra e de todas as circunstâncias e histórias que tenham levado a uma nação qualquer ser o que é. É uma coisa que muda com tempo como as características daquele país mudam. Tudo isto não pode e não deve ser apressado porque tem de evoluir aos poucos ao longo do tempo. Se a Rumba, ou qualquer outra dança ou outro aspecto cultural, estiver para vir à baila como marca cultural, isso não pode ser forçado por lei, deve surgir por si próprio a seu próprio tempo, aceites por um povo como uma representação do que eles são. Assim, uma cultura vai ser uma reflexão da história e das características que tenham evoluido durante os anos.

  4. Gregorio das Neves

    2 de Março de 2018 as 9:06

    Santa Paciência

    Este MIGBAI, é como o seu lider. Ambos calados, seriam uns poetas.

  5. Toussaint L'Ouverture

    3 de Março de 2018 as 17:27

    Cara Maria Manuel
    as divergências e o contraditório são muito saudáveis e desejáveis. Pessoas com pontos de vista opostos podem, cordata e civilizadamente, debatê-los. Mas, para isso, é preciso que se respeitem certos códigos, é preciso respeitar certos valores. Não quero dialogar nem interagir com um racista saudosista do colonialismo que diz que em São Tomé e Príncipe só há ”negrumes” e que chama macaquês ao crioulo do meu país. Repito: não passa de um colossal ignorante. Para não dizer mais.

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