Cultura

TCHILOLI – Um impressionante hino à moral e à justiça

    No momento em que se vive os efeitos benignos da decisão da UNESCO em tomar finalmente em consideração a proposta de S. Tomé e Príncipe visando que o país seja considerado Património Cultural Imaterial da Humanidade, aproveito o ensejo para me congratular vivamente com a notícia, projecto que contou sobremaneira, dentre outros, com a minha contribuição.

    Foi assim que me ocorreu dar de novo a conhecer um texto por mim produzido há alguns anos, que retrata o interesse demonstrado na divulgação internacional do drama invocado pela importante peça teatral, que pouco se coadunava com a despreocupada visão das autoridades nacionais relativamente ao sector cultural.

    Daí que, debilitado e relativamente ausente da encenação pública, o tchiloli, esse abnegado espelho crítico do desempenho da justiça na actualidade nacional, tem vindo a sobreviver quase que em total marginalidade, absoluto desconhecimento e desinteresse das gerações mais jovens, situação que se aguarda venha a ser substituída, tal como avançado no texto então produzido e divulgado por essa importante editora: 

         AFINAL, O QUE É O TCHILOLI?

Para mim, que mantenho com a peça uma íntima e prolongada relação de afecto, o tchiloli é, antes de mais, uma emocionante viagem à infância, lá onde perduram as imagens e as recordações que nos marcam indelevelmente a identidade, um percurso reforçado pela força interpretativa de figurantes de outros tempos, uns de lembrança aprazível pela sua bonomia, outros absolutamente aterradores pelo brutal realismo com que ornavam a sua performance.

      Dos primeiros, por exemplo, como não recordar com nostalgia o impressionante talento de Manuel da Madre de Deus Alves de Carvalho, o célebre príncipe do Formiguinha de Boa Morte, retirado da cena há alguns anos, que com a elegância da sua figura e a força expressiva da sua arte, quase que nos fazia crer tratar-se de um verdadeiro príncipe real?

      De facto, quem alguma vez o viu fazer a retirada da Corte Alta, após acusado de ter morto o infeliz Valdevinos, o corpo alto e esguio inclinado para trás, as mãos percorrendo, rápidas, as fitas colocadas no peito, as pernas entrecruzando-se, sob o férreo e atento olhar do seu implacável inimigo, Reinaldos de Montalvão, não podia ter qualquer dúvida: ele era, de facto, o melhor dos príncipes. 

      Dos últimos, será possível esquecer a ferocidade do famoso Fiton, também do Grupo Formiguinha, recentemente falecido, ou de Mé Quinta Mussambê, da extinta tragédia do Riboque, de uma energia sem limites e cujo talento e força interpretativa criaram com a miudagem de várias gerações uma inultrapassável relação de amor, respeito e medo?   

      O tchiloli, esse drama que aparentemente se centra em exclusivo no assassínio atroz de Valdevinos, é alimentado, com invulgar subtileza, por tensões outras, ligadas a factos passados, apenas superficialmente aflorados no texto, como os que presidem, por exemplo, às relações entre o Imperador Carlos Magno, o seu cunhado Ganalão e Reinaldos de Montalvão. Veja-se, a propósito, as palavras de Ganalão à sua chegada à corte, em resposta à saudação do Imperador, na qual este se lamenta da ausência na corte de cavaleiros como Reinaldos de Montalvão, Conde D. Roldão e outros: 

      “Muito alto Imperador,

       Muito estou maravilhado

       Por que mostrais tal favor

       A quem vos há desonrado

 Com tanta ira e rigor.

 …………………………

 Por que, senhor, não sentis

 Que este malvado ladrão

 Vos prendeu de sua mão

 Tornando-vos a Paris,

 Com muita grande traição

 Pondo-vos em Montalvão

 ………………………….

 Onde com grã vitupério

 Estiveste em prisão,

 Sem ter nenhum refrigério?

O tchiloli é também a um tempo música, teatro, canto e dança, um impressionante trama que amarra o espectador à sua intrépida sequência; um hino à moral e à justiça no confronto entre classes sociais num período específico da história da humanidade. Assim sempre o entendeu o povo santomense ao longo das gerações, assim o entenderão sempre os amantes da justiça e da liberdade que encontram no multissecular auto carolíngio a força da razão que deve presidir, em todas as circunstâncias, os actos da sociedade humana.

O povo, na sua ânsia de justiça, enaltece no final da peça a posição do Imperador que condena exemplarmente o seu próprio filho e sucessor. Este é, pode dizer-se, o leit-motiv do tchiloli, a razão pela qual ele se encontra gravado no imaginário popular. Para o saudoso investigador Paulo Valverde duas são as razões que terão levado o autor a seguir nessa direcção:

  • A necessidade de fazer triunfar os deveres ligados ao exercício da soberania e da justiça, em detrimento dos deveres paternais;
  •  A ideia de que a intriga, a traição e o crime não triunfam, mesmo sob a prepotência dos mais fortes.

Atendendo, contudo, ao contexto histórico prevalecente na época, é de se advogar uma 3ª razão, se não mesmo a mais decisiva: a consciência da desvantajosa correlação de forças face à poderosa família de Mântua e a necessidade de defesa do poder em risco, perante o tom de advertência, de ameaça mesmo, contido nas palavras dos respectivos Embaixadores.

De facto, na frágil, descentralizada e dispersa estrutura do poder da era medieval europeia, em que os senhores feudais, favorecidos pela lei da vassalagem, assumiam efectivo poder político e militar, deve atentar-se nas palavras do Conde Dom Beltrão, um dos emissários do Marquês de Mântua à corte imperial:

“E mais lhe faço saber

 Por que esteja aparelhado,

 Se justiça não fizer,

 Que o Marquês tem jurado

 De por armas a fazer;

 O mui valente e temido

 Reinaldos de Montalvão,

 Entre todos escolhido,

 Está bem apercebido

 Como geral capitão.

 D. Cristão e Agulante,

 Com o forte Dom Garinos

 E o valente Montesinos,

 Primo do morto Infante,

 Filho de El-Rei D. Salinos,

 E o mui grande Rei Gaião

 De D. Reinaldos cunhado.

 E o esforçado Dudão,

 E o grã Duque de Milão

 E D. Ricarte esforçado,

 O Marquês de Oliveiros,

 E o famoso Durandarte,

 E o Infante D. Gaifeiros,

 E o mui forte Ricardo,

 E outros fortes cavaleiros,

 Todos têm boa vontade

 De ajudar ao Marquês

 Em esta necessidade,

 Porque foi grã crueldade

 A que vosso filho fez.”

         A ameaça, que nada tem de velada, não deixa margem para qualquer dúvida.

      São estas as grandes mensagens do tchiloli, uma peça imorredoira que marca como nenhuma a natureza crioula das nossas raízes culturais. Uma peça que não tem contado com o nosso interesse, pois, caso contrário, estaria há muito inserida nos curricula do ensino secundário, seria alvo de uma dramatização mais estruturada e teria como suporte modelos empresariais que a tornariam ainda mais rica, mais moderna e mais dinâmica.

                                          Albertino Bragança

                                               12.12.2025

2 Comments

2 Comments

  1. O bem/O trabalho/A cultura do exemplo

    12 de Dezembro de 2025 at 18:12

    É necessário vir a reconhecer homenagear os atletas, que tiveram bom desempenho em Angola, em África, bem como na Europa, pelo feito nas modalidades desportivas, canoagem, atletismo, xadrez, artes marciais, pois que elevaram a bandeira nacional ao mais alto nível

    É preciso que saibamos homenagear aqueles que trabalham, para nos representar, representam a nossa bandeira, o nosso país, a nossa cultura, artes, música, pintura, gastronomia, desporto, literatura, na inovação, na investigação e desenvolvimento, nas ciências, representações manisfestações culturais, danças, teatro, tudo que faz com que sejamos mais, que elevam a nossa bandeira, a nossa cultura.

    Tu és de São Tomé e Príncipe, ama a tua terra, as tuas gentes, a tua cultura, a tua gastronomia, ajuda a desenvolver o teu país

    Pratiquemos o bem

  2. Sensibilidade/Todos são precisos

    12 de Dezembro de 2025 at 18:30

    Premente políticas, inclusão de pessoas com deficiências, crianças com necessidades de cuidados e educação especiais

    Políticas de inclusão, ultrapassar barreiras quais sejam elas

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