Cultura

Em Comemoração do 16º aniversário do falecimento da poetisa Alda do Espírito Santo

Há recordações, momentos emocionantes vividos por cada um de nós, que as palavras, por mais rebuscadas que sejam, não conseguem retratar.

São imagens latentes, perenes no nosso pensamento, que apenas se aclaram quando, de olhos fechados, concentrados em nós mesmos, as deixamos perfilar, livres de qualquer impedimento.

Acontece-me isso quando penso em Alda Espírito Santo. Revejo então o seu rosto brilhando de entusiasmo, como quando, em 1984, começámos a forjar a ideia de criação da instituição cultural que foi a menina dos seus olhos – a UNEAS -. E desfilam então em catadupa alguns dos exaltantes momentos que vivemos: a viagem a Moçambique, a convite da Associação dos Escritores Moçambicanos, para participar, em seu lugar, na Assembleia Geral daquela instituição irmã, ocasião aproveitada para me inteirar da estrutura da AEMO, as suas motivações, os seus pontos fortes e eventuais fraquezas, enfim, o essencial do seu funcionamento.

O acervo de informações assim recolhido incentivou-nos sobremaneira para a criação, no ano seguinte, da UNEAS, iniciativa para a qual contribuiu igualmente um conjunto decidido de cidadãos ligados ao domínio das artes e das letras santomenses, que passaram a integrar o naipe dos seus fundadores.

Foi tão intenso e próximo o convívio entre nós que hoje dei em mim a reviver um tempo como nenhum outro, em que o desejo de realizar, de seguir em frente, nos incitava os ânimos, como se o mundo estivesse a chegar ao seu termo e não quiséssemos desperdiçar a ocasião de concretizar os sonhos para nós tão realizáveis.

Perpassam, de facto, por mim, como um rio de caudal abrangente e largo, um fluxo extraordinário de recordações, pedaços inesquecíveis de vida que juntos desfrutámos:

  • Os tempos áureos do programa “Crítica Musical”, feito em 1977 de parceria com o grande patriota e homem de cultura que foi Amadeu do Espírito Santo, em que a ilustre poetisa, então Ministra da Educação e Cultura, mergulhava connosco no âmago mais profundo da música santomense;
  •  A persistente tentativa de levar a efeito uma peça teatral que publicitasse o Código de Conduta de 1986, com os regulares ensaios, durante meses, na escola “D. Maria de Jesus”, com Igreja Matinal, os saudosos e hilariantes artistas do teatro popular Buter e Kandonga, já desaparecidos e infelizmente tão esquecidos, bem como os demais elementos dos “12 Julinhos de S. Marçal”;
  • A participação, em 1989, em Lisboa, no 1º Encontro dos Escritores de Língua Portuguesa, que nos proporcionou o caloroso e fraterno encontro com personalidades do mais alto nível escrevendo em português;
  • A imemorável visita à residência, graciosamente deitada sobre o Tejo, da poetisa Sofia de Melo Breyner Andressen, em companhia de uma plêiade famosa de mulheres e homens de cultura;
  • A criação, em S. Tomé, no ano de 1988, da Liga dos Escritores dos Cinco, acto no qual pontificaram, para além de nós, São Deus Lima, Armindo Vaz de Almeida, Armindo Aguiar, Frederico Gustavo dos Anjos, Jerónimo Salvaterra e muitos outros, bem como os escritores visitantes Luandino Vieira, Pepetela, Sofia de Melo Breyner Andressen; Calane da Silva e Fátima Mendonça;
  •  A persistência na organização dos concursos “Passu, Fiá Glêsa”;
  • Os tumultuosos tempos da mudança política, em que a crispação dividia quase que irremediavelmente os santomenses, e não obstante isso, nós, situados embora em quadrantes opostos do xadrez político, prosseguíamos, confiantes e decididos, a gratificante acção que nos impuséramos a nós mesmos.
  • Enfim, o surgimento no seio da UNEAS, já nos primórdios deste século, do “Quinté Glandgi”, uma tertúlia de gente interessada em revisitar o passado e repensar o futuro.

Do extenso álbum de recordações dedicado à Alda Espírito Santo, poderia evocar outras lembranças, outros momentos de convívio a merecerem ser agora trazidos à baila, tão relevante e empenhada que foi a sua acção em prol da terra que a viu nascer. Mas como pretender abarcar num texto laudatório breve como este a gama plena de uma vivência tão intensa e congregadora?

Digamos, a propósito, que Alda Espírito Santo merece de nós todos os elogios, todas as homenagens, pelas várias dimensões que assumiu a sua personalidade. Mas concordarão comigo se disser que, nas três últimas décadas da sua vida, a UNEAS quase que se identificou com a sua 1ª Presidente, intrínsecos os laços entre ambas, fluida a relação estabelecida entre uma e outra.

Penso a esta luz que a maior homenagem que poderão fazer-lhe todos quantos se considerem fiéis à sua memória é tudo fazer para preservar e promover a UNEAS, relançando-a como uma instituição de cunho participativo e democrático, efectivamente vocacionada para a promoção e defesa dos interesses legítimos dos seus membros.

Coragem, frontalidade, persistência, inconformismo, fervoroso amor pátrio – eis os destacados sinais de uma extraordinária mulher que marcou o seu tempo.

Que, tal como me referi aquando do seu elogio fúnebre, “conseguiu inculcar em nós a ideia de que os rios, os caminhos, o mar azul, o canto livre de uma mulher, o riso inocente e franco de uma criança povoam e são parte integrante do nosso sentir colectivo”.

Que nos deixou um legado vivo, traduzido pela atitude patriótica que assumiu em vida e pela doce tonalidade e profundo humanismo dos seus versos, os quais despertam em nós a consciência e o orgulho de sermos santomenses.

Um exemplo a seguir pelas novas gerações, facto tanto mais relevante quanto vivemos um tempo em que os valores materiais tendem a sobrepor-se às grandes causas como o amor à pátria, a fidelidade às nossas raízes históricas e culturais, a defesa do ambiente, da justiça e da liberdade; enfim, a luta contra a miséria, a exclusão, a ignorância e o medo. 

                                                       Albertino Bragança             

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